Apagando o racismo da linguagem no Uruguai

A campanha Borremos el racismo del lenguaje foi criada pela Casa de la Cultura Afrouruguaya e conta com várias personalidades da área cultural e política do país. A idéia é reunir assinaturas no site da iniciativa e enviar tudo isto para a Real Academia Española, para que elimine expressões como Trabalhar como um negro, que constam em seus dicionários e fazem parte do vocabulário de muitos no Uruguai. Em muitos casos, a pessoa fala sem a intenção de dano, não tendo a menor ideia do que está causando. Num país com população de maioria branca, a discriminação com os negros é frequente e fica a nossa torcida que esta seja a primeira de muitas outras ações para que a sociedade local reflita e busque medidas para erradicar o racismo em todas as suas formas. Acompanhe mais da campanha na página do Facebook, constantemente atualizada. E que sirva de exemplo aqui no Brasil, em que adoram alegar que não existe racismo.

Cartón, cumbia y amor da Propria Cartonera

O fenômeno das editoras artesanais cartoneras nos fascina, desde a questão social que envolve a compra do papelão de catadores até a pintura das capas feitas com este material. Entre nossas favoritas está a La Propria Cartonera, de La Teja, bairro de Montevidéu, Uruguai. Sob o sacadíssimo lema Cartón, cumbia y amor, eles realizam os saraus mais legais que eu já vi e publicam autores de várias partes da América Latina. Acima, um documentário onde eles contam a história da editora que funciona dentro de um BAR, gentilmente cedido pelo dono. No site deles, além do catálogo, postam notícias sobre eventos e lançamentos e nesta foto, um pouco do trabalho na pintura das capas. Se você se interessou mais pelo assunto das cartoneras, o amigo Alessandro Atanes da Revista Pausa escreve muito sobre o assunto e disponibilizou uma galeria com capas de várias editoras.

Campo – La Marcha Tropical (La Teja Pride remix)

Bem legal esse remix que os uruguaios do La Teja Pride fizeram para Marcha Tropical, música do Campo, projeto do também uruguaio Juan Campodónico, dj e producer que já trampou com o Bajofondo e Cuarteto de Nos. Pegada cúmbia-jazz junto com rap, incrível. Se liguem na voz da sueca Ellen Arkbro fazendo esse duelo com as rimas do Mc do La Teja.

Entrevista – La Teja Pride

O rap latino-americano vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos tempos. Da chilena Ana Tijoux ao Orishas, o estilo traz não só o sotaque espanhol, mas ritmos regionais e as idiossincrasias do continente. O Uruguai aos poucos tenta entrar nesse mapa e vem revelando alguns artistas interessantes. Um deles é o La Teja Pride, maior nome do hip hop de lá. Nascido em meio a dificuldades econômicas de uma pequena nação cercada de potências, já está no seu quarto álbum e atualmente no estúdio para o quinto. Fãs do grupo, entramos em contato com Leonard, um dos MC’s, que respondeu-nos sobre a história do La Teja e o panorama da cena.

1) Como é a cena hip hop uruguaia?

A cena de hip hop uruguaia é pequena, mas dinâmica. Nela encontramos grupos que se caracterizam pelo hardcore clássico como Dostrescinco, até outras que mesclam o candombe local com o hip hop. O candombe é um ritmo que deriva da percurssão africana com tempos que se desenvolveu localmente. Além da diversidade de bandas, deve-se agregar vários coletivos de grafiteiros, que transformaram em telas de pintura os antes cinzentos muros da cidade. Também, e principalmente, nos arredores da cidade, florescem muitos coletivos de breakdance. A debilidade da cena é a promoção de si e toda a parte de produção. Boa parte disso tudo segue se movendo de uma forma muito amadora.

2) Quais as maiores influências do grupo, dentro e fora do hip hop?

A banda tem muitíssimas influências, tanto na música como nas letras. Desta última não só estão escritores, como artistas de outras disciplinas que inspiram com sua arte, sua proposta e sua política. Musicalmente as influências vão desde o rap até eletrônico, reggae e o folk local. Tratando de ser concisos, esta seria a lista: Dj Shadow, Solo Los Solo, The Beatnuts, Dead Prez, Portishead, Massive Attack, Contra las Cuerdas, Doble V, Alfredo Zitarrosa, Mos Def, Tremendo, Mala Rodriguez, Cucarachas Sound System, George Orwell, Antonio Gramsci, Tony Cliff, Michael Foucault, Aldous Huxley, Pierre Bourdieu, Henry Miller, Julio Cortazar, Eric Hobsbawn, Greenpeace, Common, Erykah Badu, Outkast, RJD2, Funkdoobiest, The Roots, Strange Fruit Project, Tote King, Run DMC, Public Enemy, Mc Solaar, Chemical Brothers, Audio Bullys, Depeche Mode, Manu Chao, The Clash, The Smiths, The Doors, Dilated People, John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker, Otis Redding, Marvin Gaye, James Brown, Bob Marley, Peter Tosh, Mentenguerra, Extremoduro, Linton Kwesi Johnson, Mad Profesor, Woody Guthrie, Bob Dylan, Jovanotti, Jurassic 5, Dj Premier, Gangstar, Guru Jazzmatazz, Stanley Kubrick, Ken Loach, Calle 13, Underworld, Medeski Martin & Wood, Kruder & Dorfmeister, Faithless, Los Fabulosos Cadillacs, Andres Calamaro, Deep Forest, Cut Chemist, The Crystal Method, Bjork, Charles Mingus, Banksy, Dr. Hoffman, Jorge Drexler, Vinicius, Ruben Rada, Jamiroquai, Mauricio Ubal, Fernando Cabrera, Stereo Mc´s, Daniel Viglietti, Pareceres, Sabalero, Tego Calderon, Black Roots, B Real, Cypress Hill, Tha Mexakinz, Control Machete, etc…

3) La Teja é um bairro operário em Montevidéu, como é a relação do grupo com o bairro? Torcem para o Club Atlético Progreso?

A banda nasceu no bairro de La Teja há 14 anos. Seus membros eram adolescentes em um bairro que se caracterizou pela forte extração de mão de obra. Todavia, a realidade econômica estava mudando, o país estava sumido no neoliberalismo e as fábricas fechavam. Neste contexto, o bairro sofria com uma alta taxa de desemprego. Desde o começo, os membros da banda começaram a compor com o que tinham em mãos. Primeiro, com um velho computador Commodore A1200 e um sampler de 8 bits, onde compuseram e gravaram sua primeira demo. O tempo foi passando, o bairro se converteu na cidade, alguns membros da banda foram se mudando e outros vieram de outros bairros. Mas o nome da banda seguiu mantendo o orgulho do começo. Hoje em dia, no bairro, vivem os pais de dois membros do grupo. E sim, o Davich, nosso vocalista, é fanático pelo Progreso.

4) No Brasil, é mais comum vermos músicas com samples de música brasileira do que a música gringa. E no Uruguai, como é?

Não é tão comum, na realidade. Mas sim em referências nos textos a outros artistas uruguaios, tanto escritores como cantores populares.

5) O La Teja conta com um integrante mulher. Como funciona isso em um grupo majoritamente composto por homens? Como é o papel da mulher na cena hip hop uruguaia?

A mulher é mais um na banda, não pensamos tanto na relação do gênero de cada um, e sim nas individualidades e no coletivo. Na banda, cada um colabora com o seu para enriquecer o trabalho coletivo. O trabalho em equipe, o anti machismo e anti homofobia são algo construtivo para o grupo. Os ideais de igualdade não se discutem, se praticam.

Já faz tempo que a mulher brotou na cena. Apesar do sistema patriarcal, dos preconceitos, construíram um lugar próprio e conquistaram o direito do voto e de se divorciar. E isto não é pouco. No hip hop acontece o mesmo, o machismo está em retirada e isso não é por sorte. Isto se dá porque as mulheres já sabem que são possuidoras dos mesmos direitos que os homens e quando não as deixam gozá-los, há que se lutar para obtê-los

6) Ao entrar no site do La Teja, vemos uma boa quantidade de livros para leitura online, de Charles Darwin a Cortazar. Qual é a razão para terem feito uma área só para isto?

A melhor explicação para isso é a que colocamos no site: “o meio nos impacta, nos influe”. Entretanto, a forma que vemos não é apenas responsabilidade dos olhos. Não somos tábula rasa, nossa experiência anterior é crucial na hora de interpretar o entorno, de compreender as influências externas, como nos entendemos, como nos resignificamos e devolvemos ao exterior. Quando dizemos experiência, não é só experiência direta, aprendemos de coisas que nos contam, que escutamos da boca dos outros, do rádio, da TV e do que lemos. Estas experiências mediadas enriquecem muito nossa experiência vivida. Em parte é por isto que decidimos compartilhar alguns livros (além da música). A seleção é bastante caótica e não segue ordem estabelecida. Muitos deles influenciam em algum trecho de letra do La Teja Pride, outros não. Mas sem dúvida, todos eles influiram ao menos em algum de nós a como ver o de fora cada vez que se abre os olhos.

7) O disco de vinil ainda continua forte no mundo inteiro. Inclusive, aqui no Brasil, uma antiga fábrica que havia fechado as portas, voltou e está produzindo. E no Uruguai, como é a cultura do vinil?

Aqui não há fabrica de vinis, para conseguir tem que trazer de fora. A Argentina está muito perto, Buenos Aires está somente a 300km de Montevideo. O que existe é um mercado de discos usados em feiras e lojas antigas.

8) O Uruguai é um país pequeno, tanto na geografia como em número de habitantes. Qual dificuldade o MC encontra em início de carreira? Existem selos uruguaios dedicados ao hip hop?

É muito complexo. Para começar, não há selos especializados, existem selos de música nacional especializados em rock e pop. O lugar tem que ser construído, mas normalmente a maioria de nós vive de outros trabalhos. Os selos com os quais se pode assinar não são específicos de rap, então tens que dar credibilidade não só a sua arte, mas a seu estilo.

La Teja Pride em 1999. O começo de tudo.

9) Escutam algo da música brasileira e do rap feito aqui? O que mais gostam?

Marcelo D2, Dom Negrone e MV Bill, estes três nos encantam.

10) Como surgiu a parceria com a brasileira Luísa Pereira?

Tínhamos um ritmo que por essas casualidades terminou soando muito brasileiro. Foi quase casualidade, experimentando com elementos percusivos terminamos em Brasil e bem, um amigo a conhecia, ela vive aqui há algum tempo e a chamamos. Não só colaborou apenas com sua voz, mas com a guitarra na canção. Ficamos muito felizes com os resultados finais.

11) Que Mc’s e grupos uruguaios indicam a nossos leitores?

Santi e Contra las Cuerdas são nossos artistas locais de cabeceira.

12) Por fim, abrimos espaço para que deixem alguma mensagem para o público brasileiro.

Esperamos poder ir logo e mostrar nossa música por este bonito e enorme país que é o Brasil.

Créditos das imagens ao flickr do La Teja Pride e a Libertinus.

Mundialito: futebol e ditadura

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por Raphael Morone e edição de R.Costa

Uruguai: um pais pequeno e com população minúscula. Seu maior feito foi vencer na casa do vizinho, centenas de vezes maior, a final da Copa do Mundo. Em um país onde o futebol é o maior amor, o documentário uruguaio Mundialito fala do evento mais passional do mundo enquanto precisa encarar a triste possibilidade de continuar sob o jugo militar.

Previsto para estrear em setembro, o filme foi dirigido por Sebastián Bednarik. Uma co-produção da uruguaia Coral Films com a brasileira V2Cinema. A película faz entender e confrontar a relevância esportiva da competição com o cenário político de um pequeno país estafado por uma duríssima ditadura militar.

Entrevistas com jogadores, personalidades, políticos, dirigentes e clipes intercalam momentos futebolísticos e eleitorais. Questões importantes como a postura internacional sobre o evento, a relação entre o governo e a FIFA e os direitos de transmissão que foram coloridas para o mundo e preto e branco para o Uruguai, também são detalhadas no filme.

mundialito 2

Na filmagem os produtores foram a fundo. O documentário é recheado de depoimentos de políticos uruguaios, como o ex-presidente Jorge Battle, o ex-presidente da FIFA e idealizador do torneio, João Havelange e até mesmo do primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi. As imagens coloridas também impressionam, já que, até então, esse material aparentemente não existia, ainda mais com a qualidade exibida. O áudio, praticamente inaudível nas pouquíssimas imagens existentes do torneio, colocadas pelos uruguaios no Youtube, está com ótima qualidade.

Em novembro de 1980, o povo uruguaio votava pelo “não” no plebiscito que aumentaria o poder dos militares caso o “sim” vencesse. Castigado pela ditadura militar desde os anos 70, o Uruguai, enfim, teria sua grande chance de se libertar e começar a dar seus passos rumo a um país democrático. A vitória, que não era esperada pelos militares, marcou o início do lento processo de redemocratização do país, culminando com a volta das eleições em 1984.

mundialito

No mês seguinte a esse momento histórico, seria realizado o Mundialito. Uruguai acabaria campeão, vencendo o Brasil em um Centenário lotado. Até hoje, o torneio provoca sentimentos de orgulho e dúvida para os uruguaios. Alguns colocam o Mundialito como competição equivalente a Copa do Mundo. Outros, que é um título ainda maior que o de uma Copa, vencida duas vezes por eles.

A torcida, novamente, é que Mundialito chegue a nós. Diferentemente de outras produções abordadas aqui na ACTION, a chance de ser lançada no Brasil é grande. A proximidade dos países e a presença da V2Cinema na produção aumentam as esperanças de que isso aconteça. Em DVD ou exibido em alguma mostra de cinema por aqui, o documentário tem tudo para ser uma boa forma de conhecer melhor esse país.

Abaixo, assistam o trailer do filme: