texto originalmente publicado na Freakium

edicao7_galcosta00Em 1970, Gal Costa era verve musa, tropicalista das últimas horas. Era o grito emudecido daquele final de década, repleta de convites da ditadura para artistas cantarolarem calados, ou senão, a visitarem as instalações de exílio de seus colegas, já devidamente acomodados.

Agora, londrinos: Caetano Veloso expressava toda melancolia via canções que remetiam a seu Brasil, ao seu Tropicalismo, à sua vontade de volta (“Eu quero ir minha gente/Eu não sou daqui/Eu não tenho nada”). Gilberto Gil, alimentado pela fúria do cale-se, agregava sua música aos ares psicodélicos de fora, fazendo entender somente ele.

No Brasil, Gal Costa era presente por ambos. Então calados, nunca ausentes. E em equívoco, não era nunca a hora da melancolia, da tristeza. Da resistência. Em meio aos fardos de um Brasil tomado, era empunhar o fôlego de um movimento que calhou feito Bomba H, e como tal, mantinha ainda suas distorções colaterais.

Legal, terceiro disco de Gal Costa, era a síntese, alquimia máxima de seus dois primeiros trabalhos. Se em 1969 Costa lançava um primeiro disco presente em ordem inicial tropicalista, e seu seguinte em natureza de uma fervorosa psicodelia bruta, neste início de anos 70 Gal se colocaria tal como uma ironia, em um disco repleto de classe, agregando ambos em medida invencível.

Escudada por seu fiel companheiro musical Lanny Gordin, que a acompanhara até então em todos os momentos, e Jards Macalé, que vinha, desde o segundo disco de Gal, contribuindo para as façanhas que lhe eram cedidas, Gal Costa registrava todo o sarcasmo, toda a natureza visual da capa – via arte do artista plástico Hélio Oiticica, em uma espécie de Sgt. Pepper’s sereno, acompanhado olhar da cantora pelos seus cabelos –, todos os músicos simpatizantes pelo movimento – via Erasmo Carlos, Tim Maia e Nana Caymmi, que fazem participações –, em um disco que sintetizava, de forma límpida e sem arestas a aparar, tudo o que o Tropicalismo agregara até então.

O disco abre com uma selvagem versão de “Eu Sou Terrível”, de Roberto e Erasmoedicao7_galcosta01 Carlos. O andamento dos instrumentos de sopro da original são devidamente acelerados, em conjunto a um Lanny Gordin, em primeiro momento, emulando guitarristas do rock’n’roll nos anos 50, até descambar para passagens fuzz e para uma Gal Costa primitiva, ameaçadora, deixando claro seu terreno: aonde pisaria, e as conseqüências de quem pisasse o seu (“Eu sou terrível/E é bom parar/De desse jeito me provocar”).

Dessa forma simbólica, vertem o clássico da Jovem Guarda em um arisco berro de quem já está plenamente com a paciência esgotada. Constantemente posta em dúvida em comparação ao furacão tropicalista na mente dos estudiosos da história da música, a Jovem Guarda é, ao contrário dos devaneios intelectuais de muitos, plenamente sintonizada pela trupe de Caetano e Gil. Presente desde o início oficial do movimento – com “Um Leão Está Solto Nas Ruas”, cantada por Veloso na estréia do programa Divino, Maravilhoso –, até presente em “Vou Recomeçar”, composição dos Carlos dada a Gal para seu primeiro disco, a admiração dos tropicalistas aos dois compositores é dada pela igual mão de que Roberto e Erasmo – Erasmo, principalmente – são gratos pelos caminhos sonoros impulsionados pela Tropicália.

“Língua do P”, a segunda faixa do disco, vem em forma de letra cifrada, composta por Gilberto Gil. Apostando em mistérios, em uma de suas primeiras canções composta em Londres, Gil faz alusão clara à toda engrenagem e enigma político que era a composição poética de uma canção na época. Como uma curtição, a faixa se inicia com um robusto arranjo, até se infiltrar em uma legítima influência nordestina, enganando a todos, enquanto Gal canta a tal enigmática letra (“Gaparanpantopo quepe vopocêpê/Garanto que você/Nãpão vapai não vai / Nãpão vapai não vai / Compomprepeenpendeper / Bulhufas / Bulhufas/Dopo quepe tempentapamopos lhepe dipizeper/Não tem problema/Não tem problema”), colocada na brincadeira da língua infantil.

Devidamente presente. Basicamente falando de saudades (“Garanto que você não vai compreender bulhufas do que tentamos lhe dizer. Não tem problema: estamos aí”). Gil contribui ainda em “Mini-Mistério”, outra canção se tratando de mistérios, de morte, de esoterismo, em um elegante arranjo.

Jards Macalé se apresenta como parte fundamental desse disco. Responsável, em conjunto com Lanny, pelos arranjos de base, Macalé imprime uma característica latente neste disco: o músico arrebata tamanha classe, tamanho alinhamento musical ao álbum, que faz com que as músicas permaneçam em tal característica, e ainda se mesclem com as estripulias da Tropicália, resultando no deboche tropicalista mais elegante que se tem notícia.

Faixas como “The Archaic Lonely Star Blues” e “Love, Try and Die” – uma das poucas músicas co-escritas por Lanny – caracterizam. A segunda, iniciada por uma contagem de início de gravação histérica, é cama e mesa para novas idéias se degustarem. Enquanto Lanny diversifica diversas e diversas vezes os compassos e técnicas em sua guitarra, Macalé, Gal e banda se empirulitam em estralar línguas em céu da boca, ditar ritmos e cantores cafonas, fazer firulas e safadezas vocais, sem nunca perder a postura.

Lanny Gordin, este outra peça fundamental do disco, se faz presente em ousadia alcançada com maestria. Se durante todo esse tempo esteve acompanhando Gal em canções pop-tropicalistas e psicodelia bruta, dessa vez Gordin coloca a sua guitarra em um patamar de experimentalismo novo, onde mescla sonoridade fuzz e sua apurada técnica nas bases do jazz e do blues mais tradicionais, inserindo um, outro e novamente um de forma esplêndida.

“Hotel das Estrelas” e “Acauã” se mostravam, e mostravam Lanny desta forma. “Acauã” se inicia com escandaloso espirro cheio de sarro, prosseguindo para demais roncos desferidos, até seguir para wah-wah’s e passagens de música-folclore, hipnotizante, e um devido final apoteótico.

Porém, há dois momentos em particular dos extremos que Lanny alcança dentro de sua sonoridade: há a devassidão de “Deixa Sangrar”, marchinha de carnaval composta por Caetano Veloso, que mostra a guitarra de Gordin resmugando, resfolegando, fazendo birra e atingindo níveis fuzz sonoros absurdos durante toda a canção, rachando qualquer das intangíveis mentes de outrora, e se tornando um dos momentos mais selvagens em toda carreira do guitarrista.

E há o bucolismo de “London, London”.

edicao7_galcosta02Certamente a mais bela versão da música composta por Veloso durante o exílio, “London, London” traz Lanny Gordin como se solitário, vago, revendo as nuvens de uma janela aberta, mentalmente fechada, em um dia que já se passou, mas não se fez nota. Ainda, Gal é acompanhada por um coro de esperanças, que entoa o que se avista, o que se sente (“While my eyes/Go looking for flying saucers in the sky”). Um alien, um estrangeiro ilegal fora de seu país, que avista o que não quer. Que clama o que não sente.

O disco se encerra com “Falsa Baiana”, clássico do samba de Geraldo Pereira, e que denuncia a identidade de Gal, ao avistar futuro (“Baiana que entra no samba e só fica parada/Não samba, não mexe, não move, nem nada/Não sabe deixar a mocidade louca”) e se comportar como ela própria (“Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira”).

Legal era a verve que a Tropicália ainda carregava, ainda que melancólica, com saudades do Brasil. É disco que instiga e levanta, se tromba, se esguia, e reverte o sentimento dos que não puderam falar. Aqueles que cantaram com as bocas caladas, apenas esperando o retorno.