Flyers antigos de soul

Em épocas na qual todo trabalho gráfico era feito mais no coração e na vontade do que tudo, verdadeiras obras primas foram criadas. Ainda que ricas em tipografia e contraste,  não passavam, na teoria, de  simples festas de soul que rolavam em armazéns mofados e piers no norte da  Inglaterra há 40 anos atrás. O northern soul marcou  o começo das festas raves e da época dourada da celebração da música negra americana pelos ingleses através de compactos obscuros. Levado a sério por seus frequentadores, os all-nighters chegavam a ter carteirinha de membro e flyers elaboradíssimos. Na sua grande maioria, impressos em uma cor e com o mínimo gasto possível.

Contudo, mesmo com toda limitação, é possível ver o charme da cena que ainda provoca admiração de gente do mundo inteiro. Selecionamos alguns das centenas que foram feitas ao longo da história. E para que a visualização seja ainda mais bacana, upamos uma das grandes tracks do gênero, o grupo Younghearts com “A little togetherness”. Só dar o play e curtir.

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Desbunde tipográfico

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Nem parece que já faz tanto tempo assim, mas faz. Há doze anos surgia um dos zines nacionais mais interessantes que se tem informação: o design de bolso, da famigerada dupla Elesbão e Haroldinho. O zine, impresso em P&B, era trinta páginas chutando bundas usando tipografia e sarcasmo como suportes. Mesmo tendo vida curta, com apenas oito edições lançadas, a publicação conseguiu um culto que perdura até hoje.

Desde sua primeira edição, os autores sempre fizeram questão de ressaltar que o zine era resultado da frustração profissional dos caras. Conseguiram por para fora tudo isso através de um trampo que misturava tipografia, manifesto, poesia e humor de forma ímpar. Tirações com designers, clientes, sofwares e tudo que rendesse algum deboche. Da genial “itamb é…passar manteiga quando ela pedir”-da marca de laticínios Itambé- a propaganda do grupo Photoshop Boys, as oito edições do zine ainda contavam com referências do estranho e blasé mercado brasileiro do design. A impressão monocromática e a adoção de uma fonte por edição deixava a produção ainda mais rica visualmente. Nas páginas em que existiam apenas repetição de palavras e questionamentos existencias, oFuturismo italiano encontrava a porra louquice da Chiclete com Banana. Sensacional.

A produção era bancada do próprio bolso- o que gerou um infame trocadilho que deu título ao zine- e distribuida gratuitamente. A boa divulgação rendeu o apoio da editora 2AB, patrocinadora das últimas duas edições e responsável por produzir uma belíssima compilação com todos os números lançados. Um verdadeiro presente aos fãs antigos e aos novos, orfãos das esgotadíssimas edições impressas e reféns do não tão legal PDF, espalhados pela web.

Quanto aos autores, a gente nem precisa falar. Depois desse projeto, seguem produzindo em várias mídias, de funk a vinheta na MTV. Aliás, nem cabe muito falar deles, Elesbão e Haroldinho “só” foram mencionados com o projeto Tipopótamos, um catálogo de fontes, como um dos envios mais importantes recebidos pela tradicional revista gringa Emigre. Reconhecimento para poucos, e que obviamente não iremos punhetar por aqui. O fato é que o Design de Bolso contribuiu e contribui cada vez mais para um design mais humano e sem nenhum tipo de amarras existentes por aí. Tudo de forma espontânea, sem cair na canhestrice, coisa comum nos dias de hoje.