Blackout, acid jazz português

Aos que curtiram nossa post sobre a cena black portuguesa, aqui, mais um nome legal de lá. O Blackout foi um grupo de acid jazz que apareceu nos anos 90, liderado pela linda Kika Santos. Lançaram apenas dois discos e logo encerraram as atividades. Kika até hoje está na ativa e inclusive já cantou com os Expensive Soul em alguns shows.

Um pouco do black tuga

Mesmo exportando festivais de música com qualidade duvidosa e enlatados televisivos para a mãe pátria há pelo menos uma década, o intercâmbio cultural Brasil-Portugal só parte do lado brasileiro. Ainda que pareça estranho imaginar, existe uma interessante cena black pelo lado português, com produção continua e de qualidade. Dois de seus representantes, o veterano NBC e a dupla Expensive Soul, são ótimos exemplos disso.

Com quase 15 anos de carreira, um punhado de mixtapes e dois discos lançados, NBC, ou Natural Black Colour, não é um cara novo. Já fez parte do Filhos d’1 Deus Menor, um dos grupos do rap português responsáveis por fazer o hip hop sair dos guetos e ganhar reconhecimento do grande público lusitano. Fez parte também do sensacional Hip Hop Sinfônico, projeto onde várias estrelas do rap português executaram suas músicas com o apoio da orquestra sinfônica do Porto. Tendo trabalhado com boa parte dos produtores do rap tuga, NBC não só agregou uma série de referências interessantes dentro do estilo, como incluiu o funk, jazz e, principalmente o soul, em grande parte de suas canções.

Seu último disco, Maturidade, de 2008, é um bom exemplo desta mistura que acarretou numa sonoridade tão especial. Rimando em português, a primeira audição do disco causa certa estranheza, mas a medida que se escuta pérolas como Mudança, que fala sobre crescimento e maturidade sob samples do The Moments, a bonita Segunda Pele e o soul contemporâneo NBCioso, a estranheza vira um sentimento de surpresa, e das mais agradáveis.

Já a dupla Expensive Soul, formada pelos MC’s e producers New Max e Demo, mostra uma pegada ainda mais voltada para o soul. Formada em 99 e com três discos na carreira, o grupo levou tão a sério essa influência pelo ritmo negro que agora tocam com a Jaguar Band, seu grupo de apoio. Os Expensive ainda são fortemente influenciados pelo reggae e não esquecem do rap, fazendo inclusive, interessantes misturas entre os estilos.

Em músicas como O amor é mágico, do disco Utopia, que saiu em 2010, mistura soul com rap e traz os esforçados vocais soulful dos músicos. Já Dou-te nada ganhou clipe e tem levada bastante parecida a de artistas do soul atual como Raphael Saadiq. Em discos mais antigos ainda podemos encontrar a influência de reggae e do rap mais claras, mas a tendência é que os soulies tugas rumem cada vez mais para o estilo surgido nos anos 60.

Finalmente, uma das razões que estarmos falando deles, além do grande talento, é a track É sempre assim, casamento do duo com o rapper. É difícil achar, fora dos Estados Unidos, bons raps com banda, ainda mais uma exclusivamente de soul. Em português, com o sotaque de lá, é ainda mais inédito. De cabeça, não consigo lembrar de nada sequer parecido. Uma guitarrinha quebrada e uma base simples numa faixa de 1 minuto e vinte, mas o que tem de curta tem de boa. Com a união dos dois, agora recomendamos uma ouvida mais profunda desse bom trabalho dos nossos irmãos além-mar.

Movida Ibérica, a nova onda black em Portugal e Espanha

Já faz um bom tempo que Espanha e Portugal vêm revelando uma série de bandas voltadas para a música negra. O fenômeno é uma das surpresas dos últimos anos, fortifica e dá um gás na cena, que cada vez mais traz nomes das mais diversas partes do globo.

A paixão dos espanhóis pelos sons black pode ser entendida através da Movida Madrileña e dos mods. Nos anos 70 e 80,  a capital Madrid mergulhou no frenesi gerado pelo fim da ditadura franquista e a Movida Madrileña encontrou terreno para crescer pelo país. Fazendo parte de um movimento rico culturalmente, com gente envolvida com música, cinema, literatura e outras áreas, foi meio que inevitável que algumas subculturas não desembarcassem na Espanha. O mod, cena que nasceu na Inglaterra e com forte base na música negra, foi um exemplo disto. É aí que as coisas se amarram.

Uma coisa empurrou a outra. A Movida abriu os olhos do pessoal para o que acontecia no mundo e o mod direcionou tudo isto para a música negra. Mesmo naquela época, o Kamembert, banda de soul de Barcelona, foi um bom exemplo deste fenômeno. Porém, demorou alguns bons anos para que a coisa toda se desenvolvesse.

A geração que hoje em dia faz parte de bandas como os soulies do Al Supersonic & The Teenagers e dos Faith Keepers, dos grupos de reggae Los Granadians e Pepper Pots, o rocksteady do Red Soul Community e até mesmo o disco do grupo Wondertronix, é a moçadinha que viveu ainda moleque aquele período e hoje traz uma sonoridade bacana. A coisa está tão em alta pela região que o país conta com festivais específicos de música negra como o de Girona e categorias em importantes prêmios musicais espanhóis como Pop-Eye.

Já em Portugal, que também sofreu com a ditadura e conseguiu voltar a democracia mais ou mesmo na mesma época da Espanha, a história é bem diferente, mas com um final semelhante. Os tugas não tiveram movimentos com a mesma magnitude da Movida, mas graças a uma importante concentração de imigrantes da África lusófona, a cena também vem crescendo.

O Buraka Som Sistema, surgido há seis anos, faz uma versão renovada do kuduro angolano e conta comintegrantes do país africano. Mesma coisa acontece com o Cacique’97, banda de afrobeat que mistura ritmos de Moçambique e com moçambicanos no lineup. No rap, a coisa se repete. Surgido nos guetos portugueses nos anos 80, o estilo sempre dialogou com os imigrantes moradores dos bairros periféricos da capital e interior do país. E foi natural que gente como o rapper NBC e o duo Expensive Soul, que faz uma inédita mistura de rap com soul, aparecessem.

Infelizmente, as barreiras do idioma e até mesmo do lugar de onde elas vêm, impedem que eles e mais um monte de grupos de black music ibéricos consigam o mesmo peso de uma Amy Winehouse ou de um Mayer Hawthorne. Uma grande bobagem, diga-se de passagem. Contudo, isto não parece ser motivo para que estes talentosos músicos deixem de produzir e que coisas novas e boas apareçam. Como o Al dos Teenagers nos disse na entrevista, os rapazes estão com muita vontade – adicionalmente à coragem, as duas grandes qualidades dos músicos que vivem sem aspirar solamente la plata. E é com este espírito, com muita gana e talento, que espanhóis e portugueses provam a que vieram.

Cacique’97, primeira banda portuguesa de afrobeat

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Já faz alguns anos que Portugal se tornou um país multicultural e recebe gente de todo o mundo. Lisboa, a capital, é repleta de africanos, gente da Europa, asiáticos e brasileiros. E nessa efervescência  que surge o coletivo de afrobeat Cacique’97. Nascido em 2005, o grupo foi o primeiro conjunto de afrobeat da terrinha.

Com seus dez integrantes na formação capitaneados pelo moçambicano Milton Gulli, a banda faz uma das misturas mais bacanas dos últimos tempos dentro do estilo. Insere referências de países lusófonos da África, principalmente da terra natal do vocalista e dos outros integrantes. O jazz e o rap ainda aparecem de leve, deixando o ritmo criado por Fela e Tony Allen mais classudo.

500x500Debutaram fonograficamente em 2009, com o disco homônimo que saiu pela portuguesa Footmovin. Disponibilizado em vinil e cd, entrou para a história como o primeiro disco de afrobeat feito em Portugal. Repleto de sons como o inusitado cover de Jorge Ben Jorge da Capadócia, a lenta Mifolo, que esbanja africanidade e a chuta bundas Eu quero tudo, dançante e que levanta questões sociais. É a melhor do grupo que ainda mostra o lado cosmopolita em Dragão, que fala sobre a China. Pure class.

O grupo tem tocado em diversos festivais pela Europa e vem recebendo feedback positivo nos shows, que costumam sempre partir para longas jams improvisadas, ao melhor estilo do mestre Fela. Com o EP Chapa 97- uma referência as peruas de lotação de Moçambique- colocado para download gratuito mês passado, a banda pretende continuar por muito tempo profetizando o afrobeat por vários rincões do mundo.