Depois de matérias, indicações e demais xavecos a uma das nossas bandas favoritas de soul atual, a Al Supersonic & The Teenagers, entrevistamos os muchachos espanhóis. Sangue bom no último, o Al Supersonic, band leader do grupo, respondeu a todas nossas perguntas. Sem mais prefaciar, que o bicho é longo, aproveitem:
1) Sabemos que vocês são bastante aclamados no meio northern soul: como é a cena de northern soul aí na Espanha?
Não saberia te dizer se somos aclamados ou não na cena soul espanhola, mas asseguro que participamos dela. Creio que seria mais justo chamar cena soul ou rare soul. Embora de principio esteve marcada pelo fenômeno inglês northern soul, há muito tempo nossa cena superou (mas não esquece) as bolsas da Adidas, as baggy trousers, os patches de Wigan, o talco e o uptempo.
Queremos dizer que amadurecemos e aprofundamos nisto que se chama soul music, e contamos com autênticos aficionados, Djs e colecionadores de soul de todas as épocas e lugares.
Existem diferentes clubes distribuídos pelo país, cada um com seu ideário musical e características que o fazem único e diferente dos demais. Por exemplo: Saturday Soul Sessions (Barcelona), Movin On (Barcelona), Talcum (Madrid), Hitsville Rare Northern Soul Weekender (Mojácar), Runaway Love Soul Alldayer (Tineo), The Boiler (Barcelona), Gonna Be a Big Thing (Valencia) ou as incontáveis nighters e shows de altíssimo nível que nos brinda Mardigras! (Valência), há algum tempo. O mais importante é que todos estes clubes são feitos com conhecimento de causa, respeito, paixão e fanatismo, onde qualidade é uma garantia.
Com respeito ao público que frequenta nossa cena, teria que dizer que, em suas origens, a maioria era de mods e ex mods que aprofundaram conhecimentos no R&B e no soul que rolavam nos allnighters dos anos 80. Isto é uma característica importante dos mods espanhóis, os mods dos anos 80 cresceram com o soul. Na atualidade, além dos mods, ex mods, skinheads e outras subculturas, existe muita gente que conheceu a cultura soul sem pertencer a nenhum grupo. Me atreveria a dizer que o público é bastante heterogêneo, embora isso varie de clube e cidade.
2) O pessoal antigamente adotava certos artistas de northern soul como se fossem deles, assim como acontecia com o Secret Affair e os Glory Boys, seu fãs. Aconteceu dos seus fãs na Espanha os elegerem como uma banda querida deles, no sentido de serem uma das melhores bandas calcadas no northern soul?
Bem, bem, bem. Nos sentimos muito queridos e recebemos muito calor dos seguidores do grupo. Realmente, não é o espírito da banda, a gente gosta da individualidade das pessoas que vão aos nossos shows e nos encanta ver que pensam por eles mesmos. Não somos porta-vozes de nada e nem encabeçamos nenhuma vanguarda. Nós não dizemos a ninguém o que fazer nem mesmo como pensar. Eles e nós temos algo em comum muito importante, paixão pelo soul e é o que dividimos durante cada show ou cada vez que escutam um disco nosso, isso é muito mais importante para nós que política e coisas assim.
3) Vocês começaram a tocar em 2001, mas o primeiro disco só foi lançado agora. Houve alguma dificuldade em conseguir lançar por vocês tocarem um som que poderia ser considerado fora de moda?
Estamos juntos há cerca de 8 anos. Durante esse tempo tocamos muito, aprendemos e nos formamos como banda. O espírito dos Teenagers segue intacto, temos as ferramentas necessárias para nos expressar. O certo é que a indústria fonográfica espanhola sempre nos deixou de lado, mas não guardamos rancor. Graças a isso e ao nosso espírito de superacão, temos metas mais altas. Talvez por isso temos demorado em lançar nosso primeiro LP e como vê, não foi com um selo espanhol, e sim com o UNIQUE, que é alemão. A internet facilitou toda a comunicação e o fluxo de informação e faz com que Madrid, Dusseldorf e Granada fiquem muito mais perto.
4) Atualmente temos uma avalanche de uma musicalidade do soul e funk que foge da contemporaneidade de r&b e acid jazz dos anos 90 e que mesmo assim não cai em uma indulgência vintage e que está fazendo grande sucesso. Vemos os The Dap-Kings acompanhando Sharon Jones e Amy Winehouse, vemos o Osaka Monaurail no Japão… como é a receptividade do público mundial em relação ao trabalho de vocês?
Acabamos de receber o prêmio de “Melhor banda de música negra de 2010″ da Espanha por votação popular, onde foi contabilizado mais de quatrocentos mil votos. A revista especializada Ruta 66 incluiu nosso “Not Too Young” entre os dez melhores discos de 2010, Mondo Sonoro Edición Sur nos elegeu como quinto melhor disco de 2010, além de outras listas espanholas que incluíram nosso disco como relevante em 2010. A verdade é que estamos tendo uma boa acolhida da imprensa e do público espanhol. Também recebemos um ótimo feedback do Reino Unido e Alemanha, e, definitivamente, estamos muito contentes com as críticas do nosso primeiro disco. Não nos queixamos.
5) Existe uma barreira em terem sido uma banda fora do eixo de mercado Estados Unidos-Inglaterra nos termos da música soul, não terem tido uma oportunidade de serem um Mark Ronson?
Não sabemos se é uma barreira, mas somos algo raro. Uma banda de soul do sul da Espanha que edita seus discos por um selo Alemão? E aqui estamos, com muita vontade!
6) Vemos o Osaka Monaulrail gravando um disco com Marva Whitney, o Quantic Soul Orchestra acompanhando Spanky Wilson, e vocês próprios gravando com Roy Ellis: existe uma chance de um álbum acontecer ao lado de Dean Parrish ou qualquer outra lenda do soul, a exemplo com o que aconteceu com Lord Large?
Claro, por que não? Sempre estamos tramando, compondo e sonhando com coisas assim. Adoramos esta colaboracão com Roy Ellis e estou seguro que sairão outras mais.
7) A Espanha teve uma empolgante cena mod nos anos 80. A energia continua a mesma?
É certo que há muitos mods, velhos conhecidos e outros tantos jovens que estão engrossando as fileiras do modernismo. Existem muitas festas e bandas que poderíamos catalogar dentro dos gostos do público mod. De energia não vejo deste modo, quero dizer, a energia dos anos 80 era muito diferente, a vontade de agarrar o mundo e a ilusão eram muito superiores aos conhecimentos e meios que haviam disponíveis naquela época, que é o que marca toda esta nossa geração. Um mod que começa agora dispõe de roupa, discos e toda a informação que se queira. O que é mod? O que não é mod? Qual é a verdadeira música dos mods? Quem me ajuda a dissipar toda essa Empanada mental? Creio que estas são as dificuldades que a nova geração enfrenta, sobretudo aprender a viver de acordo com este estilo de vida e fazê-lo de forma natural e coerente, sem morrer na praia.
8) Qual foi a importância de ter o produtor Carlo Coupe na produção do disco?

Ele é o produtor! Ele que nos deu um som e uma forma a tudo que tínhamos na cabeça. Eleapostou em nós e ajudou em tudo o que pôde. É um bom amigo e um grande músico e compositor. Ele é o responsável pelo incrível LP “Relax & Love”, de Glenn Anthony Henry. Neste momento, esta preparando seu novo projeto, Wondertronix, com ajuda da cantora Astrid Jones, centrado no Souful Disco. Recomendamos!
9) Notamos que na música “keep on walking” existe uma grande influência do early reggae, além de terem gravado com um integrante do Symarip. quais são seus trabalhos favoritos na música jamaicana dessa época?
Consideramo-nos amantes da música jamaicana e cada um tem seus gostos e preferências. Assim, vamos enumerar algumas cancões e artistas que gostamos:
Ken Boothe, Alton Ellis, Derrick Harriot, Pioneers, Nicky Thomas, Greyhound, Blues Busters, Techniques, Uniques, a lista é interminável!
Chain gang – Bobby Wiston Francis
Morning sun – Al Barry and The Cimarons
The world is spinning around – Joe Higgs
Tell it like it is – Nicky Thomas
It must be true love – The Maytals
A change gonna come – Ken Parker
Why did you lied – Dawn Penn
You can’t stop me – Emotions
Draw your breaks – Scotty
Dave Barker and The Techniques – you ain’t got a heart at all
I won’t let you go – Blues Busters
Soon you’ll be gone – Blues Busters
Thinking of You – Blues Busters
I’m sorry – Phillip and Lloyd
10) O soul e funk brasileiro dos anos 70 é conhecido mundialmente, e queríamos saber se vocês conhecem e gostam? E se gostam de outro estilo musical ou outros artistas brasileiros?
Como não! Conhecemos e somos fãs do trabalho de Sérgio Mendes. Gostamos também de Wilson Simonal, Ed Motta, Tim Maia – seu “I don’t know what todo with myself” é uma de minhas canções favoritas de todos os tempos, Dom Beto e seu “Nossa imaginação”, que acabo de descobrir e gostei muito. Creio que o idioma é muito adequado para este tipo de música, sem dúvida, depois do inglês, que é o que mais gosto. Tenho muita curiosidade pelo fenômeno do soul no Brasil, suas origens, seus porquês, etc… mas não sou nenhum especialista no assunto. Talvez vocês possam nos recomendar alguns artistas e material mais obscuro!
11) Existem outras bandas espanholas que vocês recomendariam aos nossos leitores?
Claro! Neste momento temos um montão de boas bandas fazendo um bom trabalho aqui, ainda que não estejam interessadas no soul, ou ao menos do jeito que a gente se interessa. Gostaria de ressaltar o trabalho de bandas como Wondertronix (disco soul / Madrid), Glenn Anthony Henry ( funk soul / Madrid), The Vibe Creators (organ soul jazz/ Valencia), Flight 404 (reggae/ Barcelona), Faith Keepers (funk soul/ Zaragoza), Los Granadians (reggae / Granada), The Excitements (R&B / Barcelona), Smooth Beans (reggae rocksteady / Santander) Julián Maeso y sus Speak Low (soul jazz / Madrid), e estou certo de que dentro de mais dez minutos virão mais 20 nomes de bandas indispensáveis e que não deveria ter esquecido.
12) Qual é a tradição da música soul na Espanha? O que fizeram vocês a terem como influência e conseguir cunhar um som tão próprio?
Como já expliquei antes, o fenômeno do northern (soul) foi o que prendeu muitos de nós a tudo isso. Aqueles discos da Kent e fanzines como Breakaway foram uma referência para muitos que cresceram antes da chegada da internet. Viagens a Madrid para comprar lps, fanzines etc. Realmente, o mundo era outro. Nós estávamos interessados no reggae e no soul, e foi a partir destas primeiras viagens a outras cidades espanholas e Reino Unido que começamos a conhecer mais gente, mais música e, sobretudo, outros pontos de vista. O mundo do soul, sempre tão oculto e pouco acessível se tornou natural, e, para mim, pessoalmente, uma grande bolsa de oxigênio onde me sinto realmente bem.
Antes de músicos, somos amantes do soul, passamos a maior parte do tempo escutando discos, buscando, informando-nos de artistas e bandas. Apreciamos os detalhes que cada produção nos traz, as características dos artistas e seus produtores. Consumimos e nos alimentamos de sua música, para, logo, criar nossa própria. Não como uma cópia, nem como uma feira retrô, mas, sim, algo totalmente vivo e atualizado, com identidade própria. Este é nosso segredo, ser real, sermos nós mesmos e contar uma canção feita com o coração. O som de uma banda é consequência de todo esse processo.
13) O que vocês tem ouvido atualmente?
Ultimamente estou muito interessado no som de Houston e do selo Ovide e de algumas bandas de Memphis. Passo os dias escutando TSU Toronadoes, Drells e Mad Lads. Suponho que se refira a bandas atuais, bem, acabo de descobrir uma banda atual de Los Angeles, The Bullets, que simplesmente me deixou sem alento, é o melhor que foi feito ultimamente no reggae. Brutais! Incrível o retorno dos Natural Impulso, para celebrar, editaram um novo 7″, “We’re gonna make it through”, com material antigo que é imprescindível, também nos encanta Kings Go Forth, Mayer Hawthorne – gosto muito, Eli Reed, Dap Kings, Cookin On 4 Burners, Nick Waterhouse & The Turn-Keys, não sei, pra dizer algo! Também escutamos coisas como nu-soul, soulful house etc. Coisas dos anos 80, 90 e, claro, os gostos de cada membro da banda vão muito mais além da música afroamericana ou o reggae, pessoalmente também gosto de bandas de bluegrass, punk britânico, new wave e coisas mais pop. Como vê, não somos tão fechados como alguns pensam!
14) Sabemos que estão em turnê do lançamento do seu disco, vocês já tem planos para o futuro?
Pois sim, estivemos em um monte de cidades da Alemanha, Suiça, França, Portugal e Espanha, e agora vamos seguir tocando tudo o que pudermos. Temos uma surpresa! Em breve sairá o novo LP em homenagem a banda alemã Superpunk, onde os Teenagers colaboram com uma versão do hino “Ich weigere mich, aufzugeben”, a qual rebatizamos de “Only one Life”. Estamos muito contentes de trabalhar com Superpunk e fizemos esta canção com todo o nosso carinho. E em questão de um mês ou dois, lançaremos outro EP 7″ com material novo da banda.
15) Por fim, deixem uma mensagem para todos os seus fãs brasileiros
É uma honra contar com fãs no Brasil, esperamos poder visitá-los algum dia, mas se não for possível, recordamos que vocês tem as portas abertas para visitar-nos! Muita sorte com todos os seus projetos. Que deus os abençoe e, sobretudo, VIVA PELÉ!!!!!




