por Marcelo Xavier
Norman Whitfield foi o produtor da Motown que criou o chamado soul psicodélico, em idos de 1969, e mudou gradativamente o som característico do selo de Detroit, ao mesmo tempo em que deu novas direções ao som de vários de seus artistas, como Diana Ross, 5th Dimension, Marvin Gaye e, é claro, a menina dos olhos da Tamla, os Temptations.
Em 1971, a formação do conjunto se resumia a Otis Williams, Dennis Edwards, Melvin Franklin, Richard Street e Damon Harris, já que David Ruffin e Eddie Kendricks haviam partido para a carreira-solo, sendo que o último fez bastante sucesso na era Disco.
No começo de 72, Harris, que era grande fã do falseto de Eddie, passou no teste para entrar no lugar de Ricky Owens. Essa formação é a que entraria em estúdio para gravar um novo álbum, inspirado num projeto paralelo desenvolvido por Norman Whitfield, o The Undisputed Truth. Tal plano havia rendido alguns singles,mas nada que chamasse a atenção. Até que ele decidiu expetimentar o psicodelismo do Truth com os Temptations, e o corolário desse insight foi o disco All Directions.
Tudo girava em torno de uma obscura canção que ele havia composto pelo Undisputed — Papa Was a Rollin’ Stone. Enquanto a versão original passou batida, a gravação do grupo foi, provavelmente, um dos maiores momentos do conjunto em todos os tempos.
Isso se dava principalmente pela produção de Whitfield, o meticuloso trabalho vocal dos Tempts, o arranjo que ele fez para os Funk Brothers, a banda de apoio em All Directions.
Norman Whitfield
Desde a complexa concepção estrutural até as vocalizações, passando pelos solos de wah-wah, baixo, metais e cordas, numa canção que é toda baseada em um único e escasso acorde — algo que, a posteriori, seria ligeiramente estandartizado no universo do funk. Barret Strong, colaborador de longo tempo na Motown (e notório autor de Money (That’s what I Want), também trabalharia com eles pela última vez, tanto no cover de “Papa” quanto Funky Music Sho’ Nuff Turns Me On.
O curioso é que os Temptations, principalmente Otis williams, tenham certo receio em gravá-las, assim como Run Charlie Run, alegando que suas letras eram politizadas (algo que, com efeito, estava em bastante voga à época) demais para um grupo que se havia notabilizado por canções pop açucaradas, como My Girl.
Desconfianças á parte, versão editada para compacto de Papa Was a Rollin’ Stone chegaria ao primeiro lugar nas paradas e também seria o heróico e derradeiro número 1 de sua longa carreira.
Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.




