Salah Ragab, o major do jazz egípcio

Figura central do jazz egípcio e todo norte da África, Salah Ragab era um entusiasmado baterista e major no exército local. Foi ao escutar o concerto History of Jazz , um apanhado histórico-musical concebido por Randy Weston, que seu entusiasmo pelo ritmo virou mais.

Com ajuda do baixista tcheco Edu Vizvari e do alemão Hartmut Geerken, as fundações da Cairo Jazz Band se formaram. Todavia, foi apenas com sua promoção para chefe do departamento de música do exército que Ragab conseguiu apoio necessário para criar uma big band. Os militares deram livre acesso a instrumentos e dispuseram mais de 3000 músicos filiados ao orgão.

O aparente desafio do baterista em tornar instrumentistas com raiz nos rígidos ensinamentos das bandas marciais em músicos de impoviso não atrapalhou, muito pelo contrário. Rigorosamente disciplinados, Salah Ragab e sua Cairo Jazz Band criaram uma sonoridade moderna e entrosada. Era como se cada músico prevesse os passos do companheiro e tudo se encaixasse harmoniosamente, como em uma contação de histórias.

Salah Ragab misturava free jazz com faráos, pirâmides, temas religiosos e até nacionalistas, como em The Crossing, um ode ao exército egípcio que cruzou o Canal de Suez em 73. O talento de Ragab aflorava ainda em adicionar elementos de funk como na diferente Neveen. Isso tudo despertou a atenção de Sun Ra, fascinado pela sonoridade parecida ao seu spiritual jazz.

Esse interesse de Sun Ra pela música de Ragab rendeu o disco Sun Ra Arkestra Meets Salah Ragab in Egypt, de 1984. A produção tem temas do egípcio tocados por Sun Ra, sendo praticamente um tributo a ele. A obra foi a primeira oportunidade do público ocidental em conhecer o baterista, já que, até meados dos anos 70, apenas um compacto e uma pequena participação em coletânea do Ministério da Cultura do Egito eram registros fonográficos de Ragab e sua banda.

O mestre egípcio ganharia uma coletânea apenas décadas depois. Salah Ragab and the Cairo Jazz Band presents Egyptian Jazz saiu em 2006 pela Art Yard e compila o material gravado em estúdio entre 68-73. Infelizmente, o lançamento tardio impediu que o talentoso militar e baterista recebesse o devido reconhecimento no ocidente. Salah Ragab faleceria dois anos depois, deixando sua marca no jazz africano.

A mística da Strata-East

StrataEast

StrataEast_promoO que seriam dos fãs não fossem as gravadoras? Um conceito bacana de produção, seja pelo estilo tocado, a seleção dos artistas ou até mesmo pela beleza das capas e dos labels de seus discos. Tudo conspira a favor de uma label competente. Uma delas é a Strata-East.

Criada em Nova York em 71, foi a resposta dada pelos músicos Stanley Cowell e Charles Tolliver após a recusa de uma gravadora a lançar seus discos. Estava aí o primeiro indício do Do it Yourself na música, antes mesmo do surgimento do punk. O nome estranho foi inspirado em uma ação feita por alguns contatos de Cowell em Detroit para promover espetáculos pela região, refletindo ainda mais a atitude independente dos caras.

A vontade dos dois músicos negros era dar qualidade na prensagem do vinil junto com liberdade total aos músicos. Com essa garantia dada pelos próprios, já veteranos no Jazz, a vinda de outros artistas à Strata foi imediato. De Clifford Jordan, Pharoah Sanders a Gil Scott-Heron, o catálogo da Strata era amplo, variando do Free Jazz ao Soul.

Com essa diversidade de artistas no catálogo somada à questão mística e espiritual abordada pelos250px-Stanley_Cowellseus lançamentos, a label foi ganhando fãs cativos, sendo marcado pela mistura única de Jazz com música africana e indiana, sem perder o lado Soulful. O sucesso, no entanto, era o de qualquer gravadora independente. Mesmo tendo lançado o debut de Gil Scott-Heron e outras estrelas, eles nunca tiveram o peso de uma como a lendária Blue Note.

Em matéria de lançamentos, há boas e más notícias pra quem busca os discos. Se sua pegada é os original press, tá fodido: é dificilimo achar alguma coisa. O selo Soul-Jazz chegou a comprar os direitos e lançou duas coletâneas há uns anos atrás, que infelizmente já estão fora de catálogo. Ou seja, verdadeiras gemas para os ricaços colecionadores no eBay. Maldito sejam.

Agora, um lado bacana que eu sempre faço questão de mencionar, é o artwork. As capas da Strata-East eram lindas, e tem um processo evolutivo interessante. No início eram simples, usando na maioria das vezes o símbolo da gravadora e fotos, mas, aos poucos, foram ganhando um visual cada vez mais impactante, refletindo o período espiritual e a própria música tocada. Um exemplo disso é um cartaz promocional lançado que continha uma enigmática foto da Esfinge com uma pirâmide de fundo. Ao lado, os dizeres:

“In all beginnings…
a mystical, magic force, What course, what destiny…
determined in time”.

Infelizmente, essa gracinha já não existe mais, embora seu tosquíssimo site oficial esteja no ar e indique o aniversário recém completado de 38 anos. A esperança é que Cowell e Tolliver voltem a lançar material e a reativem. Se não, ao menos temos sites de fãs e outros tributos – como o nosso aqui, pra lembrarmos dessa bela gravadora de Jazz chamada Strata-East.