
Grandes talentos nunca nascem grandes. Dá pra citar dezenas de nomes que, apesar de talentosos, morreram ou passaram boa parte de sua vida no anonimato. Caras extremamentes talentosos, como Simonal, que foi injustamente execrado no meio da carreira, ou Verocai, que foi por três décadas impedido de fazer seu batuque, representam sonoridades absolutamente marcantes que, por alguma razão, foram roubados de seus louros. É dando um pouco de corda pra esse banjo que falamos de Moacir Santos.
Arranjador à brasileira
Santos foi um dos maiores arranjadores e compositores do país. O pernambucano inovou na forma de fazer música ao misturar jazz com instrumentais brasileiros, merecendo o título de um dos maiores mestres da harmonização na história da música. Além de maestro, era multi instrumentista – tocava banjo, bateria, clarineta, saxofone, trompete e violão. Foi consagrado como uma das maiores influências do pessoal da MPB dos anos 60, sendo reverenciado por Vinicius de Moraes e Baden Powell. Inclusive deu aula a músicos como Dori Caymmi, Sérgio Mendes e João Donato, entre outros.
Em 1965 gravou seu primeiro álbum pela gravadora Forma, o Coisas. Nele, todas as tracks são nomeadas como Coisa nº 1 ao 10, sem ordem específica. Foi eleito pela Rolling Stone brasileira o 23º melhor disco nacional de todos os tempos. Não é pra menos, o som deste disco, todo instrumental, é imortal, daqueles que se toca para impressionar mulher e serve de trilha sonora pra vida. Lembra o que tinha de mais glamouroso na Rio antiga.
Após Coisas, Santos teve boa parte de seu trabalho traduzida em trilhas de filmes como Amor no Pacífico e Gamga Zumba. Em 1966, é nomeado membro da American Society of Composers, Authors and Publishers, a ASCAP, e, no ano seguinte, se muda para os Estados Unidos. De Pernambuco para Califórnia, se provou como um dos maiores músicos da época. Tendo impressionado Horace Silver, em 1972 gravou The Maestro e Saudade dois anos depois. Fecha a trilogia com Carnival of the Spirits no ano seguinte, sendo que todos os três discos foram lançados pela lendária gravadora Blue Note, especializada em Jazz e uma das maiores do gênero. Álias, a arte da capa desses LP’s são absolutamente fantásticas. Apesar de serem gringas, passa uma brasilidade genuína, com o cuidado costumeiro das capas da Blue Note.
Nascido em 1923 na
cidade do sertão pernambucano de São José do Belmonte, começou cedo sua carreira musical. Aos onze anos tocava clarinete e acompanhava a banda de sua cidade, a Flores do Pajeú, a qual se juntou com catorze anos. Nessa época, já tocava, também, sax e trompete. Pouco depois foge de casa e se junta a bandas, tocando por todo Nordeste. Com algum nome e uma boa bagagem, se muda para o Rio de Janeiro e passa a se apresentar em orquestras, clubes e rádios. Trabalhou longo tempo na gafieira Clube Brasil Danças como maestro, além de ter sido contratado pela Rádio Nacional como tenorista da Orquestra do Maestro Chiquinho.
Em 1967 ele deixa o Brasil, indo morar em Pasadena, cidade californiana, aonde grava algumas das maiores pérolas do jazz com tempero tupiniquim. O então presidente Fernando Henrique Cardoso o condecora com a comenda da Ordem do Rio Branco. Às vésperas de fazer 80 anos, Moacir Santos falece após ficar dois dias internado devido a um derrame.
E esta matéria, da Musitec, mais técnica, também vale a pena dar uma olhada.




