
Terminei de ler e recomendo o livro Elvis Presley – a Vida na Música. Escrito por Ernst Jorgensen, especialista no que se refere à obra do Rei do Rock e também responsável pela recuperação do catálogo do cantor norte-americano nos últimos anos.
Como diz o título, a obra se refere apenas à parte de sua vida dedicada às sessões de gravação entre 1955, do seu primeiro acetato até janeiro de 1977.
Mesmo para quem não conhece muita coisa sobre Presley, o livro vale a pena para mostrar como era, e como é, o mundo do disco. No caso de Elvis, é interessante notar que, a despeito de sua tenra juventude quando ele começou no disco, ele já possuía um enorme potencial e cultura musical.
A questão é que, quando ele entra na indústria do disco e passa a ser comandado a manu militari pelo Colonel Tom Parker, o Rei acaba virando uma espécie de cobaia num corredor polonês onde de um lado havia o mundo das grandes editoras musicais e de outro, o estabilishiment, que a muito custo conseguiu aceitar o rock no começo dos anos 50.
O livro de Ernst Jorgensen também mostra como havia um cuidado enorme em se produzir para ele compactos de sucesso e, ao contrário do que a coletânea de números 1 possa indicar, mesmo com todo o marketing da RCA e do seu nome no disco, nem sempre ele conseguia um primeiro lugar e, mesmo que todos os seus discos sempre vendessem bem, havia uma cobrança enorme em cima dele em busca de sucesso.
Parker tratou de criar um banco de canções gravadas previamente por ele para preencher o mercado durente o tempo em que Presley serviu ao exército. Depois que o mercado do rock mudou, no começo dos anos 60, sua música também acabou mudando. A sua volta gerou um dos seus álbuns mais celebrados, o Is Back. Porém, depois de um feixe de números 1, Elvis começou a ficar à sombra de um fenômeno crucial, que foi o surgimento dos cantores-compositores.
Correndo pelo outro lado, Parker tinha uma política ligeiramente ortodoxa: ele montou uma editora musical que se encarregava de arregimentar compositores de porta de escritório para fazerem canções para que ele e Elvis registrassem-nas como suas – pelo menos quando a arrecadação de direitos autorais. Consta que Presley não gravou “I will Always Love You”, de Dolly Parton, porque ela não quis ceder à esta política.
A partir dos anos 60, Parker viu que o futuro de Elvis não estava na RCA, mas sim no cinema. Por conta disso, toda a equipe musical se mudou para Holywood, onde Presley gravou uma séria gigantesca de trilhas para filmes.
Nesse período, a Hill & Range, a editora do Colonel Parker, funcionou a pleno vapor em busca de compositores para escreverem juntos canções pop de ocasião para preencher as películas do Rei. Fora algumas exceções, já que os filmes não tinham roteiros de grande profundidade, o grande problema é que as trilhas que Elvis gravava seguiam no mesmo estilo. Ou seja, no fim das contas, ele perdeu um grande tempo de sua carreira musical, e isso fica evidente do livro Ernst Jorgensen, gravando coisas que não tinham nada a ver com ele.

Elvis mesmo dizia, com relação a uma que outra música: “não é boa nem ruim, é apernas medíocre”. E observando sessões de gravação caseiras de Presley, nota-se que ele tinha um conhecimento musical considerável e espontâneo em farejar canções que, de fato, tinham muito a ver com ele, coisas que seu pai Vernon ouvia, espirituals e muita música gospel, e country antigo, das Davis Sisters até Hank Wlliams. Mas como para o Colonel Parker, para Presley gravar esse material era preciso que a sua editora musical tivesse 100% do lucro das vendas, Elvis ficou quase uma década refém de compositores de escritório.
Isso só mudou quando ele gravou o famoso Comeback Special para a NBC, em 1968, e ao mesmo tempo lançou o clássico From Elvis To Memphis, que indicou uma mudança no material trabalhado para a pré-produção dos álbuns, uma nova banda de apoio, o fim progressivo das participações em filmes. Presley voltou ao topo das paradas com canções como Suspicious Minds e The Wonder Of You e passou a ter uma favorável margem de negociação na hora de escolher o repertório.
A partir dali ele se reinventaria (ou seria reinventado). O foco a partir dali não era mais os filmes, mas o retorno aos palcos a partir de Las Vegas. No entanto, era questão de tempo para que o cantor acabasse ss tornando cativo da maquina de entortar gente que era a indústria fonográfica. Ao mesmo tempo, era percebível que, apesar do público fiel, o mercado queria porque queria que ele continuasse na crista da onda. Ele estava, mas isso não se refletiva nas vendas de discos: seu público olhava para trás e se identificava mais com o que ele cantava nos palcos do que no que ele tinha de novo para mostrar.
Isso sem levar em conta que musicalmente Presley estava no seu auge como cantor, e gravando coisas muito mais interessantes do que ele fazia nos anos 60, indo de Gordon Lightfoot e Kris Kristofferson até James Taylor. Contra isso ia a política da RCA e o ímpeto capitalísticamente desenfreado do Colonel Parker, que insistia em jogar no mercado discos anacrônicos que misturavam material antigo e sobras de estúdio aos borbotões, em selos de promoção, como a Camden.
Essa questão só não era o principal motivo de fruistração de Elvis porque o maior deles era o fim do seu relacionamento com Priscilla Presley, que influenciaria tanto em seu estado anímico quanto no seu repertório. E junto com o problema de ter que conseguir um compacto de sucesso a qualquer custo – envolvendo toda a burocracia em volta dele, havia o conflito de um intérprete que, a rigor, não teria que mostrar nada a ninguém, mas no entanto, sofria uma cobrança enorme a cada disco e era posto no circo dos leões pelos palcos de Las Vegas, apenas porque seu empresário sabia que os shows davam mais dinheiro do que os discos.
Também é preciso levar em consideração o que o Colonel Parker considerava como arte: aquilo que desse dinheiro. Ou seja, nada de filme cabeça ou álbum conceitual. Conceitual para ele era um punhado de canções de sessões aleatórias e um poster de uma foto contemporânea de seu pupilo de encarte.
Fora o problema de que os fãs não iriam digerir o novo trabalho de Elvis, cuja editora musical esperemia os cérebros de compositores como Mark James (o autor de Suspicious Minds) para sucessos novos em folha, como pastel de feira.
O resultado foram discos como Raised On Rock e Fool – hoje considerados clássicos – mas que, na época, foram incompreendidos. Junto com a pressão de um novo sucesso, o divórcio e a sua saúde instável.
Elvis na Stax
No meio desse turbilhão, e logo após a apoteose da apresentação histórica no Havaí, em 1973, a RCA marcara outra sessão de gravações do que seria o álbum Raised On Rock.
A solução salomônica e caseira foi agendá-la em Memphis, ao invés de ir até Los Angeles. Afinal de contas, os estúdios da Stax ficam a cinco minutos de Graceland.
Jorgensen diz que quando Presley se apresentou na Stax, ele parecia animicamente alterado, acompanhado de um instrutor de caratê, modalidade que era a sua paixão desde os tempos de exército.
Elvis encheu o estúdio de cantores e cantoras, para criar o clima gospel nos backings. As primeiras sessõers saíram arrastadas. Na segunda, alguém sumiu com o microfone principal do cantor. Na terceira, os seus músicos de estúdio tiveram que se ausentar por problemas de agenda. Elvis então foi servido pelos instrumentistas da Stax, Donald Dunn e Al Jackson (“The Human Timekeeper” ), ambos membros dos míticos MG’s.
O problema maior ficou na parte de produção: a infra-estrutura da Stax era diferente da comumente usada no American Studios, já que a mesa gravava vocal e instrumentos por pistas, enquanto Elvis trabalhava quase sempre com todos tocando ao vivo. O engenheiro da RCA, Al Patchucki, por sua vez, não estava preparado para isso.
A gravação ao vivo ali pista por pista iria exigir que todo mundo usasse fones de ouvido, enquanto o ideal seria que cada um ouvisse respectivamente o que os demais estão executando. “O sistema de monitoramento da Stax não permitia que isso acontecesse”, diz Ernst. ”De modo que cantores e banda não foram capazes de ouvir uns aos outros enquanto gravavam”.
Dado a todos os contratemos, contando com o perfil ciclotímico de Presley àquela altura, em três sessões, eles haviam gravado menos da metade que fora demandado pela gravadora. O jeito foi gravar o resto sem Elvis, apenas com uma voz guia, para que o cantor enfim registrasse a sua voz, mas em outra ocasião e em outro estúdio, dessa vez na casa do próprio Elvis em Palm Springs.
O mais interessante no livro de Ernst Jorgensen, no entanto, é o desvelo que ele trata a parte profissional de Elvis Presley, ou seja, tratando apenas do que se refere à sua carreira musical e em estúdio, destacando a passagem de grandes colaboradores em suas sessões de gravação, a forma como ele e sua banda produziam e cresciam em estúdio devido ao enorme talento e sensibilidade intelectual do Rei.
Pena é que, como podemos ver nas páginas e histórias de Elvis – Vida na Música, seu talento tivesse sido dispersado por conta de demandas meramente mercadológicas ou pelos desmandos de seu empresário, Colonel Tom Parker, que tem também seus pontos positivos no êxito da carreira de Presley, principalmente no começo. Mas que, a longo prazo, acabou se tornando um fardo do qual Elvis não pôde mais se desvencilhar.
























