012Fiquei sabendo nos últimos dias que a TV Cultura, através do seu novo presidente, João Sayad, pretende reduzir os gastos da emissora. Ou seja, haverá diminuição da verba, a venda de equipamentos e estudios, além da demissão de boa parte dos seus funcionários. Segundo ele, a idéia é transforma-la em um coprodutora, buscando assim, o trabalho com empresas terceirizadas para produzir o seu conteúdo. Uma notícia, que, de certa forma, não surpreende. Já faz um bom tempo que que a Cultura é tratada como um peso para os gastos públicos. O que mais provoca surpresa, infelizmente, é a lista de programas que estão com seus dias contados. O Manos e Minas é um deles.

O programa, que estreou em abril de 2008, apontou para uma nova era, afinal, desde o saudoso Yo!, do Thaíde, que não aparecia uma produção do gênero por aqui. A chance de falar de hip hop e de outros gêneros, de certa forma marginalizados ou vistos com um certo nojinho por uma parcela da população, deu uma esperança enorme a todos os que vivem e acompanham este universo. Arrisco a dizer que, o programa foi um divisor de águas, já que tratou deste assunto em uma tv pública com alcance nacional. Coisa que, me corrijam se eu estiver errado, nunca aconteceu.

Sediado no teatro Franco Zampari, em São Paulo, o MEM marcou também a volta dos programas de auditório na emissora, tão tradicionais na década de 80. A idéia era trazer artistas ligados ao hip hop, funk, soul, samba, reggae e botar em contato com o público, geralmente formado de gente das áreas mais periféricas da cidade. E isso foi uma das coisas mais legais que aconteceu. Lembro bem de uma das apresentações mais emocionantes que rolou no programa, onde, o soulman Tony Bizarro, saudou o público e citou os lendários bailes black que aconteciam na cidade nos anos 70. Mesmo de longe, ao som de “Nesse Inverno”-grande sucesso do cantor-, fiquei em choque ao ver pela tv o público em transe, ouvindo o que Bizarro dizia. Entre aquela multidão, na sua maioria de molecada, havia uma minoria que frequentou aquela época inesquecível, ficando emocionada com o momento. Digo, sem hipocrisia alguma, que foi um dos momentos mais bonitos que pude ver na televisão.resized_jorge

Outra ocasião que vai ser difícil esquecer, foi a visita da equipe do Manos e Minas ao Cooperifa. Espaço simples, sem luxos, que abria diariamente para apresentações de poesia. Para muitos, seria apenas mais uma matéria, sem muita importância. Mas não. O programa abordava uma manifestação do povo, um exemplo claro e único no país de um dos elementos que deu origem ao rap. Na gringa, spoken word, aqui, pessoas comuns versando sobre a vida, amores e as dificuldades de se viver na periferia. Estava lá, novamente, o programa inovando e colocando em pauta um assunto que dificilmente iríamos ver em tv aberta nos próximos anos.

Thaide_TV Cultura_PA327534Credito tudo isso a qualidade das pessoas que estiveram na equipe e na apresentação do programa. O sensacional Rappin’ Hood, o pioneiro Thaíde e um dos grandes do freestyle nacional, o Max B.o. Graças a eles, o programa foi responsável por fazer o público inserido na cultura black a olhar para fora desta esfera e ao público que não conhecia, ou até mesmo fazia questão de ignorar esse universo, conhecer e se aprofundar sobre o assunto. E, acima de tudo, fazer pensar, coisa que infelizmente, está cada vez mais rara de acontecer nas principais mídias, especialmente na televisiva.

Uma das razões de estar aqui, externando um pouco da minha tristeza pela notícia, é que sem a existência do programa, talvez não houvesse Action. Em 2008, o programa foi uma das influências para começar o coletivo. Foi ali que percebi a importância da troca de informações e do diálogo com o público. Sem o Manos e Minas, várias iniciativas, em diversas estâncias, talvez não tivessem germinado e dado frutos. Independente dos interesses políticos ou financeiros, este legado, jamais vai perder seu valor. Não tenho bola de cristal. Vai saber se um abaixo assinado ou qualquer outro tipo de manifestação pode acarretar numa volta atrás dos diretores para com os programas da emissora. Torço demais por isso, inclusive. Fica aqui nosso pequeno e humilde tributo ao programa que, terminando ou não, estará na memória de muitos.