Muitos pensam que o samba nos pampas começa e termina com Lupicínio Rodrigues. Claro que é impossível falar desse gênero aqui nos pagos sem citar o compositor de Felicidade, Brasa, Ela Disse-Me Assim, Esses Moços e Vingança. Mas além dele, houve também um cara muito talentoso, que nasceu no interior do Rio Grande do Sul, e acabou radicando-se em Porto Alegre. O seu nome é Túlio Piva.

Lembro-me dos últimos anos do “seu” Túlio, que era habitué do salão de beleza da sua esposa, que ficava perto da casa deles, na esquina da Duque de Caxias com a Gen. Bento Martins, no centro da capital dos gaúchos.

No entanto, Piva “nasceu” como comerciante: era balconista numa farmácia, na Rua da Praia, estabelecimento que ele abriu assim que chegou de Santiago, na região Centro Ocidental do estado. Sua drogaria acabou se catalisando muitos bambas do samba de Porto Alegre, quando ele estava, com efeito, com uma imagem então já consolidada com a música de Lupi.

Contudo, muitos teorizam sobre a natureza do samba porto-alegrense pelo fato deste possuir uma influência muito grande do tango argentino, principalmente pela temática passional e trágica.

Isso de certa forma explicaria a estética da dor de cotovelo típica em Lupicínio, e que permeia quase toda a sua obra, cujo mote também influenciaria a temática do samba-canção brasileiro, ou melhor, o chamado samba de fossa que vendia discos com se fosse xepa, até mais ou menos o advento da Bossa Nova.

Lupi talvez seja muito mais lembrado por essa sua peculiar estética, até se pensarmos nas interpretações de Jamelão para seus clássicos. Rodrigues porém não foi intérprete. Como muitos compositores de sua época, tanto ele quando Túlio eram mais criadores de canções que eram capitaneadas por cantores, que compravam seus sucessos.

Isso ocorreu com Lupi com relação a Francisco Alves, que foi quem o descobriu em Porto Alegre quando aportou na capital com os seus Ases do Samba, em 1932. Rodrigues foi adotado por Chico Viola. Aliás, esse era um hábito muito comum: compositores que ainda não tinham um senso mercadológico aguçado, e acabavam nas mãos de gente que os transformavam em galinhas dos ovos de ouro.

Ao contrário de Lupi, Túlio tinha um estilo mais brejeiro em suas composições, alguém que é visível nos sambas de gente como Nelson Coelho de Castro, por exemplo. Seu primeiro e maior sucesso, Tem Que Ter Mulata, foi imortalizado pela orquestra Norberto Baldeulf que, entre os anos 50 e 60, foi o maior conjunto de baile de Porto Alegre.

A partir dali, Piva deixou de ser farmacêutico prático para tirar um diploma maior, de bamba. Vieram outros sucessos, como Pandeiro de Prata. Piva se tornou figura proeminente como sambista, ao ser cantado na voz de Noite Ilustrada. Quem diria que um prático de farmácia da região missioneira do Rio Grande do Sul iria virar sucesso na voz de Noite Ilustrada?

Para Túlio, no entanto, faltou uma maior visibilidade nacional, e isso era algo quase impossível mesmo para sambistas compositores que morassem na capital do gênero, o Rio de Janeiro. Se pagarmos o exemplo de um coirmão dele, Guilherme de Brito, mesmo com todo o prestígio e com a parceria constante de Nelson Cavaquinho, ele ainda procura espaço, depois de morto, no panteão dos grandes sambistas. Isso sem falar de Cartola, que foi um notório desconhecido até ser redescoberto pelo jornalista Sérgio Porto, lá no fim dos anos 50, quando houve a renascença do samba de morro, e quando mais tarde, nos anos 70, Cartola e Nelson puderam finalmente gravar discos?

Piva amealhou um grande sucesso com a citada Pandeiro de Prata no II Festival Sul-Brasileiro da Canção Popular, em 1968, mas não conseguiu o mesmo êxito na etapa nacional do certame.

Mesmo assim, naquele momento histórico, Piva já era um personagem lendário em Porto Alegre. Assim como aconteceu com Cartola, ele criou uma casa de samba na Cidade Baixa, o Gente da Noite, que por sua vez, era o catalisador de toda a boemia bem vestida do samba porto-alegrense. Túlio não ficou rico como empresário da noite, é claro, mas o próprio movimento cultural que seus bares gerou marcou época.

Em parte pela dificuldade de se gravar naquele tempo, a distância abissal entre o mercado fonográfico nacional e o mundo regionalizado do Rio Grande do Sul e o seu perfil mais agregado à família e à sua terra, mesmo a despeito de ter uma produção musical enorme (verca de 490 sambas), Túlio acabou não sendo o melhor divulgador de si mesmo. Tanto que talvez muitos de seus vizinhos de rua, ao qual eu me incluo, não conheci tanto Túlio em vida, a não ser por reconhecê-lo por aquele senhor simpático que vivia no salão de beleza de sua mulher, e que minha mãe frequentava, ali na esquina da Duque com a Bento Martins.

Túlio Piva ainda está em vias de ser descoberto pelo Brasil.

* Imagens retiradas do site de um dos netos de Túlio, Rodrigo Piva.