
texto originalmente publicado na Freakium
A história de Mary, Mary Esther Wells, nascida em 1943 em Detroit/Michigan, Estados Unidos, é envolta em uma áurea bela, congruente no que se diz respeito a como sempre será lembrada, na história do R&B e do pop mundial, como uma das mais importantes artistas do gênero.
Um praticamente “conto de fadas”, poderíamos dizer assim. À medida que surge, em 1961, na fabriqueta de sonhos chamada Motown, o arrebate de seus puppy little eyes e de sua voz, doce e flutuante à medida de um leve vigoroso sopro, causa estardalhaços particulares, daquelas palpitações que em vias de completar infinitas décadas de admiração aos que escutam, causou a mesma catarse em 64, quando “My Guy” invadia os ouvidos daqueles quais que fossem. Aos amorosos, aos rancorosos, aos ranzinzas, felizes, murrinhas e vidas, Mary Wells desaguou seu sabor vocal embutindo todo o imaginário Motown daquelas áureas décadas.
Mais ainda, foi uma das criadores do que viria a ser o som da Motown, e foi a primeira, estrela e glamour, a figurar no vasto e talentoso cast da gravadora como a cantora-garota dos sonhos de todos. Carrega ainda as glórias de destronar os Beatles nas paradas britânicas, e figurar em uma turnê com os quatro moleques de Liverpool, visto a admiração deles por Wells.
E tais como de longe não são poucas, mas à medida de que um início é fazer valer a vida toda, a seguir dez canções que fazem qualquer mortal desfrutar da beleza vocal e composições interpretadas pela senhorita Mary Wells. E sim, colocá-la em um importante patamar nessa gloriosa história, de infinitas décadas originadas pelos mais mágicos anos da Motown.

10- “Laughing Boy”
1963
(Smokey Robinson)
Um grande sucesso nas paradas de R&B da cantora, “Laughing Boy” se inicia com uma peculiar introdução de guitarra (deixo a palavra à Pete Townshend), até rumar para um misto de clima havaiano com doo wop. Em letra, Mary Wells usa de uma interpretação ingênua e doce para emoldurar o cenário de um garoto triste, que a trocou por outra, e recém perdeu este amor. “Laughing Boy (ha ha ha ha ha)/That’s what they used to call you (…) She really must have hurt you/She really must have filled your heart with pain”, canta Wells, citando por minutos a fio todas as desgraças que a tal garotinha causou no moleque, em um misto de deboche (reforçado pelas marotas risadas) e, de certa forma, satisfação. Claro, arrebatando-o no final: “Don’t you know that it’s true, I still love you/Just as much as I did before/So Laughing Boy/Come on home, laughing boy”.
09- “Two Wrongs Don’t Make a Right”
1963
(Berry Gordy, Jr. / Smokey Robinson)
O lado B do compacto de “Laughing Boy” traz exatamente Mary Wells cantando o oposto: “I took your love and said goodbye/I stayed away, my darling, and made you cry/’Cause if you turn me away, all I can say/Is that two wrongs don’t make a right”, em um classudo arranjo.
08- “The One Who Really Loves You”
1962
(Smokey Robinson)
Certamente a sinceridade extrema era o mote de Smokey Robinson. Em “The One Who Really Loves You”, Mary versa a seu amor que realmente não vale a pena buscar outra garota além dela, afinal, ora, as outras não prestam. “Susie only wants you until the day/That she’ll again have her true love who’s far, far away (…) Ginnie only wants you ’cause she thinks she has to have everyone/Minnie only wants you ’cause she thinks that hurting me would be fun”, canta Mary, citando outras tantas razões que fazem tal garoto realmente não prestar para nada, e definitivamente ser apenas motivo de estepe amoroso ou recauchutagem emocional.

07- “My World Of Dreams”
(Bob Hamilton)
Esta composição de Bob Hamilton, nunca lançada em disco até 1993, versa sobre o escape da locutora por intermédio da fácil solução do mundo dos sonhos. Do sono e tudo que isso pode possibilitar. Desatarrachar sua mente a algo que não está mais suportando. “At last I’ve got a remedy, an antidote for misery/The secret is within my mind, I’ve been-a gone-a any time/Now when the one I love makes me cry/And I feel like I wanna die/I stop for a moment/And close my eyes/And I just drift right along into my world of dreams”.
06- “Two Lovers”
1962
(Smokey Robinson)
Em “Two Lovers” Mary canta sobre o amor duplo, dúbio, fatalmente dividido, mas causado não por qualquer caminho óbvio de traição ou coisa que o valha, mas sim pelo fato do tal bem amado, este, existir em uma dupla personalidade, rapaz meio atribulado (“’Cause I say that I love two/But I really, really do/’Cause you’re a split personality/And in reality/Both of them are you”). Simpático.
05- “My Guy”
1964
(Smokey Robinson)
Música simples, simples demais, que por residir na simplicidade, é estrondoso perfeito discurso e canção, que genialmente declara o amor de uma garota à seu respectivo: “As a matter of taste/To be exact/He’s my ideal/As a matter of fact/No muscle bound man/Could take my hand/From my guy (…) He may not be a movie star/But when it comes to being happy/We are”. Sem mais. O verdadeiro amor, esse, de cara lavada e sem dever a ninguém, sem dever a todas as acusações acerca ao. Como tem de ser.
04- “You Lost the Sweetest Boy”
1963
(Lamont Dozier / Brian Holland / Eddie Holland)
Composta pelo trio de ouro da Motown, Holland/Dozier/Holland, “You Lost the Sweetest Boy” alcançou as paradas de sucesso com seu ritmo contagiante, a exemplo de todas as outras composições do trio, onde a prerrogativa é não ficar parado. Mary Wells também embarcou nessa, comparecendo com uma enorme energia, em uma letra de bobagens e alegretes felizes, no mesmo discurso de tratar garotos como bitucas de cigarro. Em clima de festa!
03- “The Late Late Show” – com Marvin Gaye
(Alfred / Berlin)
1964
Em 1964, aproveitando a onda de sucesso das duas grandes estrelas e figurarem na época, a Motown resolveu reunir Marvin Gaye e Mary Wells para um disco, chamado Together. Nele, a dupla faz o papel de um casal apaixonado, puppy love mesmo, high school sweetheart ao extremo.
“The Late Late Show” é uma gostosa e açucarada bobagem amorosa, construída na dinâmica “Marvin canta-Mary canta-Marvin responde-Mary brilha”, tal mesmo como um casal em nuvens de plumas.
02- Prove It
(Bob Hamilton)
Outra pérola de Bob Hamilton, também nunca antes lançada. O jogo vocal dessa faixa é esplendorosa, tendo Mary Wells cantando um tema que se assemelha a “I Don’t Want to Take a Chance”, ainda clamando por provas de seu amor.

01- You Beat Me To The Punch
1962
(Smokey Robinson)
Lançada em 1962, “You Beat Me To The Punch” traz o vocal mais perfeito, o que há de mais coeso entre o som da Motown, o pop e o R&B, essa suave voz que passeia por uma muito bem composta letra. Tratando dos artifícios de uma timidez, não essas pejorativas que pululam por aí, mas sim daquelas de tirar o fôlego, que torna impossível uma certeira aproximação na tal aglomeração que rotaciona o baque. De um tal pouquíssimo frutífero Smokey Robinson: “That day, I first saw you passing by/I wanted, to know your name but I was much too shy/But I was looking at you so hard/Until you must have had a hunch/So you came up to me and asked me my name/You beat me to the punch”.
Mas claro, há infelizes reviravoltas: “But I found out/Beyond a doubt/One day, boy/You were a playboy/Who would go away and leave me/Blue/So I ain’t gonna wait around for you to put me down/This time I’m gonna play my hunch/And walk away this very day”. Muito acima da posição de clássico, uma Polaroid do que Mary Wells foi.