Cauby Peixoto em momento funky

Cauby Peixoto completou 80 anos no começo deste ano. Uma das figuras mais importantes da nossa música e ídolo de oito em cada dez avós-a minha, por exemplo-, Cauby gravou Cauby! Cauby!, projeto no estilo do aclamado Erasmo Convida, chamando diversos músicos para duetos. O destaque da produção é Dona Culpa, este número funky em parceria de Jorge Ben. A voz aveludada do Professor caiu bem demais na melodia que tem um pé no samba.

Gilberto Gil e Jorge Ben – Gil & Jorge: Ogum, Xangô

por Marcelo Xavier

gil-e-jorge-ogum-xangc3b4-1975-gilberto-gil-e-jorge-ben-jorUm é cria do mítico Beco das Garrafas, no coração da boemia bem vestida da Zona Sul do Rio de Janeiro, influenciado por João Gilberto, começou a desbravar o violão num estilo próprio que transcendia o genero; flertou com o samba tradicional, com a Jovem Guarda e com o Tropicalismo e acabou sendo quase impossível de ser rotulado.

O outro é baiano, trocou o acordeão, instrumento de seu ídolo máximo, Luiz Gonzaga, pela guitara clássica também por causa da Bossa. Se lançou como compositor regional, emplacando alguns sucessos como Procissão e Louvação, mas contra a maré de protesto que asolava a MPB dos anos 60, se apaixonou pelo rock dos Mutantes e misturou baião com rock’n roll, levando o primeiro lugar no II Festival da Record, com Domingo no Parque.

Pois oito anos depois do movimento tropicalista, quando a MPB havia se tornado quase algo amorfo, subterrâneo, controlado e policiado pelo excelso Governo Revolucionário, eles se reuniram nos estúdios da antiga Philips num encontro mais revolucionário ainda. Munidos de um violão na mão e muitas idéias na cabeça, Gil e Jorge Ben, numa época em que a guitara imperava, decidiram fazer tudo em casa, no improviso, movido apenas pela imaginação, muita jurubeba e muito bansa.

O autor de Geléia Geral agora havia se transformado um cosmopolita que misturava Hendrix e a a Banda de Pífanos de Caruaru. Ben, com a sua A Tábua de Esmeralda, havia entrada na fase que ele apelidou de ‘alquimia musical’. Muito dessas experiências estão mais do que presentes em Gil & Jorge, o corolário daquela jam session que mistura samba, jongo, afoxé, Fulcanelli, Gonzagão e João da Baiana. Ben dá a largada com a melodia e a música.

Gil o segue fazendo o contracanto e fazendo as demais vocalizações e floreia o ritmo de Jorge, numa sintonia e um entrosamento análogos à músicos de jazz — esse é o espírito da coisa, a mecânica celeste, o puro improviso, pura invenção, música total. As sessões da Philips também lançariam outro clássico — Taj Mahal, que logo ganharia o mundo (mais precisamente depois do lançamento do Africa Brasil, em 76) e que indicaria o caminho de Jorge Ben rumo ao mercado internacional e à uma linguagem mais pop. O mesmo ocorreria com Gil. Ou seja, Gil & Jorge: Ogum, Xangô é um testamento e uma experiência e um encontro histórico sem precedentes de dois músicos fantásticos, de uma forma que não se repetiria nunca mais.

Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.