San Fernando Mento Patrol

San Fernando Mento Patrol foi uma das coisas mais legais que apareceu no Japão nos últimos tempos. O grupo, que infelizmente não existe mais, tocava mento e calypso, mesclando com um pouco de latinidades como rumba. Destaque para o visual excêntrico dos integrantes, especialmente da mulher, que ainda tinha uma voz bem bacana. Uma grande pena não terem sequer lançado discos. No Myspace do San Fernando Mento Patrol dá para escutar as músicas e ainda tem mais vídeos de suas apresentações.

A diáspora chinesa e a música jamaicana

byron leeByron Lee

Inevitável associar a música jamaicana aos negros, já que estes são maioria na ilha. Porém, ainda no século XIX, quando a Jamaica era apenas colônia da Inglaterra, uma série de imigrantes chineses desambarcou para trabalhar em plantações de cana. Com o passar do tempo, os filhos e netos daqueles pioneiros já estavam completamente adaptados a cultura do país. Muitos, inclusive, eram donos de comércios e participavam ativamente da vida cultural da ilha caribenha.

O primeiro chinês a se envolver com música na Jamaica foi Thomas Wong com sua soundsystem Tom the great Sebastian. A sound participou do primeiro soundclash que se tem notícia. Confrontando Count Nick, o resultado não poderia ser melhor, vitória de Wong.  Na equipe, dois jovens que dariam muito o que falar anos depois: Count Machuki, o primeiro toaster e Duke Vin, que por muitos é considerado o precursor das soundsystem na ilha. Uma característica interessante da Tom the great eram as caixas dispostas em árvores, piração do DJ na busca pela sonoridade mais pesada que de seus concorrentes.

lesliekongDez anos depois, um descendente de chineses estaria por trás do descobrimento do principal nome da música jamaicana em todos os tempos. Dono da sorveteria/loja de discos Beverley’s, o produtor Leslie Kong descobriu Bob Marley e produziu alguns compactos de pouco sucesso. A relação com Marley terminou abruptamente, depois que o producer não pagou o que deveria ao músico. Leslie Kong ainda trampou com importantes músicos jamaicanos como Derrick Morgan, Desmond Dekker, Stranger Cole, Jimmy Cliff e os conjuntos Maytals e Pioneers. Foi pelas mãos do producer que Dekker estourou com Israelites em 68. Ainda na era do ska, foi graças a Kong que o império que se tornou a Island Records de Chris Blackwell começou a se expandir. O chinês produziu uma série de compactos que seriam lançados no Reino Unido através da subsidiária da Island Black Swan. Com o fim da parceria, ainda trabalhou no selo inglês Pyramid, adquirido anos depois pela Trojan. Leslie Kong morreria no começo dos anos 70, vítima de um ataque cardíaco, suposta maldição vinda de Bunny Lee dos Wailers após lançar uma coletânea sem permissão do trio.

Os chineses não estavam apenas no backstage. Byron Lee, falecido em 2008, foi um dos mais importantes músicos caribenhos em todos os tempos. Lee foi um dos baluartes do ska junto com seu grupo Dragonaires e tocou de tudo um pouco. Do calypso ao soca, do ska ao reggae, o multinstrumentista também era produtor e foi dono do Dynamic Sounds, uma das principais labels da Jamaica e com um estúdio que chegou a receber músicos de renome internacional para gravar. Nem cabe aqui falar muito mais acerca de sua relevância  e legado na música, todo o seu trabalho responde por isto.

chinloyA lista de descendentes de chineses na indústria musical jamaicana não parava por aí. Herman Chin Loy trabalhou com Lloyd Charmers e também foi responsável pelo primeiro disco de dub, o Aquarius Dub de 73.  Joseph e Ernest Hoo Kim  eram os donos do selo Channel One que contava com a eterna dupla Sly & Robbie. Boa parte da produção da label pode ser conferida em coletâneas como Hit Bound: The Revolutionary Sound Of Channel One e Channel One Well Charged. Para não cometer injustiças, é até melhor parar por aqui.

Finalizando, a presença chinesa é abordada por vários artistas conhecidos na ilha. Yellowman, em uma de suas músicas falava que queria pegar a filha do chinês. Já Prince Buster com Black Head China Man, tirava sarro do amigo Derrick Morgan, que surrupiou um solo de sax de Lester Sterlng e enviou para o chefe Leslie Kong:  “You done stole my belongings and give to your China man / God in heaven knowsHe knows that you are wrong / Are you a China man are you a black man?It don’t need no eye glass to see that your skin is black / Do you prefer your China man to your fellow blackman?”. Causos do curioso showbusiness jamaicano.

Que fim levou o Calipso?


quefimlevouocalypso

O calipso é um ritmo que, a rigor, é um amálgama da canção européia com ritmos africanos de estirpe iorubá. Mas uma definição friamente enciclopédica desse tipo carece de precisão, ou melhor, de uma contextualizção à nossa realidade.

É mais fácil tentar entender esse gênero musical, que nasceu em Trinidad e, mais tarde, floresceu nas Antilhas e na Jamaica, se compararmos a sua evolução com a própria evolução do samba brasileiro, já que, de certa forma, além de uma relativa raiz comum, ambos sofreram um processo de misigenação na América Latina.

Decca cover - Harlem seen through calypso eyes !Assim como o samba, o calipso ganhou proeminência a partir da primeira metade do século passado, junto com o surgimento do disco. Como aconteceu aqui, os músicos de Trinidad reelaboraram um estilo musical nativo que se consolidou através de uma “velha guarda” da bambas que, antes de serem intérpretes, eram compositores.

Da mesma forma, os dois estilos foram “inaugurados” mais ou menos na mesma época: o calipso, em 1912, quando os Lovey’s String Band realizaram a sua primeira apresentação em Nova Iorque, o samba ganharia patente ao virar sucesso de Carnaval em 1917 com Pelo Telefone.

Ao mesmo tempo, o jazz ganhava proeminência nos Estados Unidos, fazendo o mesmo percurso de culturação entre a música creole de ascendência européia e o folclore africano dos escravos, a partir do Sul.

Podemos dizer que as semelhanças param por ali. O Jazz, a partir da década de 40 se sofisticaria, com o advento das big bands e da sua progressiva popularização pelo disco e massificação através do rádio, perlongando o percurso lógico da Indústria Cultural em entronizá-lo como produto comercial.

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Em contraponto, o jazz se sofisticaria, voltaria para o gueto e passaria a rejeitar a forma como acabou se tornando um estilo musical para “agradar aos brancos”, como muitos teóricos do be-bop passaram a diferenciar o jazz típico de músicos como Louis Armstrong, a despeito de todo o seu talento criador e revolucionário.

Da mesma forma, o samba ganharia a América em dois momentos: durante a época da chamada Política da Boa Vizinhança, quando a música brasileira interessava diplomática e ideologicamente às relações de poder dos Aliados. No segundo momento, com a ascensão da Bossa Nova e a sua fusão com o jazz, porém se notabilizando mais pelo seu caráter renovador no sentido harmônico do que no sentido exótico tutti frutti hat dos tempos da Carmen Miranda.

E o calipso? Ao contrário do ritmo brasileiro, ele ficaria restrito à América antilhana nos primeiros anos, e seria popularizado mais como música instrumental ou todavia com letras eminentemente folclóricas e, por conta disso, tinha, por conta dos ‘cantadores’ de calipso, um lado mais trovadoresco, em canções de protesto à política colonialista vigente (algo que não era alheio ao samba, também) e a invasor britânico. Porém, mesmo sem sofrer com o estro do nosso discricionário Estado Novo, muitos compositores eram perseguidos pela polícia inglesa.

Ou seja, muito antes do reggae, as raízes da música antilhana já encontravam uma matriz política nas letras, que versavam também sobre temas diversos, que iam da vertente de protesto até canções com referências veladas sobre violência e sexo.

Isso deve ser levado em consideração pelo fato de que, da mesma forma que o jazz passara com o tempo a questionar-se com relação à sua postura diante das desigualdades sociais e no seu papel de denúncia da realidade racial naqueles anos políticos, o calipso se tornou um ritmo mundialmente conhecido de forma mais eufemizada.

harry_belafonteNão que essa fosse a intenção, por exemplo, de músicos como Harry Belafonte que, a despeito de se tornar conhecido, e ao mesmo tempo propagar o calipso pelos quatro cantos do mundo, tal qual aconteceria com Bob Marley com relação ao reggae, já dentro do próprio esquema da Indústria Cultural, ele se apresentaria como uma versão peculiar desse gênero antilhano.

Ou seja, assim como o samba da Carmen Miranda era um simulacro de seu paradigma folclórico, o calipso que se tornou famoso através de canções como Banana Boat Song (popularizada por Belafonte) era uma versão ligeiramente estandartizada para o grande público.

Contudo, isso não significa dizer que músicos como Harry Belfonte quisessem criar um modelo anacrônico, tal qual a música pasteurizada dos filmes de Walt Disney ao retrataram a cultura “brasileira” para americano ver. Muito pelo contrário, Belafonte era e é um defensor dos Direitos Civis na América e, junto com gente como Pete Seeger (e os Weavers), e o Kingston Trio, foram figuras de proa no ressurgimento da música folk nos Estados Unidos.

Assim como ocorre com o reggae, que se tornou notório através dos Waillers, a música jamaicana possui um lado B de reputação menor contudo de qualidade similar, que é a maior parte da produção fonográfica típica dos anos 60, o rocksteady e o ska, por exemplo. No caso do calipso, existe o mainstream, que atingiu seu apogeu em meados dos anos 50, mas que sempre existiu em sua forma tradicional e primitiva, no Caribe.

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Essa é a música de gente como Lord Invader, Might Sparrow, Lord Beginner ou Lord Kitchener que, assim como aconteceria com Marley, buscariam também fazer sucesso na América e na Inglaterra. Os dois últimos, por sinal,chegaram a gravar discos na Parlophone – no tempo em que essa subsidiária da EMI congregava um cast tão obscuro quanto excêntrico. O Serviço Mundial também cuidou de divulgar amiúde a música das colônias britânicas na Europa, desde as Bahamas até Índia, por exemplo.

Tanto a discografia (e a musicografia) desses ‘bambas’ da guarda velha’ do calipso é tão rica quanto inacessível, já que boa parte da produção fonográfica foi registrada em compactos e o seu resgate é um trabalho arqueológico. Aliás, a própria fama de um Harry Belafonte, ao ser comparada a dos três músicos citados juntos mostra que a relativa incúria com relação ao calipso de raiz é um problema endêmico e só não é hoje um fenômeno restrito ao carnaval de Trinidad porque a Internet consegue mostrar o calipso às novas gerações.

O sabor dessas músicas, principalmente de temas como My Pussin’, de Kitchener ou até a conhecida Don’t Touch Me Tomato, de George Symonette, que era uma espécie de Belafonte das Bahamas, e que influenciariam de forma seminal a música jamaicana, que do ponto de vista fonográfico, iria catalizar aquela pororoca musical.

Talvez tenha sido esse o paradoxo do calipso: a música caribenha seria revolucionária com Tito Puente ou Machito no sentido rítmico e de fusão com o jazz ‘pós bop’ enquanto o calipso, por um lado, que teve um caráter muito mais mainstream, por conta de Belafonte, da mesma forma como, através dele, permitiu que o mundo travasse conhecimento dos mestres da guarda velha do estilo, como Lord Burgess, o autor de Jamaica Farewell, Dolly Dawn e Hosanna (que aparecem no elepê Calipso, de Belafonte, e que vendeu mais de um milhão de cópias em 1956), ou fazendo releituras de cançonetas tradicionais, que resistiam na tradição oral na Jamaica ou em Port of Spain, por exemplo.

Ou seja, o calipso levou pelo menos uns quarenta anos para fazer sucesso da noite para o dia. Mas não deve esperar mais tanto tempo pra ser reintegrado ao patrimônio musical das Américas e do planeta.

Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.

Reggae Classics BBC: pedradas jamaicanas no Reino Unido

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Os britânicos são grandes apreciadores do reggae e da música jamaicana como um todo. Desde o começo da imigração caribenha por lá, os ritmos sempre fizeram parte da cultura pop da ilha. O doc “Reggae Britannia”, recentemente produzido pela BBC, fala muito disso. No entanto, o assunto da post de hoje não é bem este.

Na década de 70, entre os diversos programas dedicados ao público jovem britânico, estava o The Old Grey Whistle Test da BBC2. Voltado para o lado b da música, o programa foi um contraponto a moda glitter que havia na época. Mesmo com foco no rock, houveram diversas apresentações de músicos de outros estilos, entre eles o reggae.

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Em “Reggae Classics BBC”, uma série de apresentações de artistas jamaicanos no tradicional EdinburghFestival de 1973 e gravadas especialmente para o The Old Grey Whitstle Test foi compilada. Dividido em três partes, o especial conta com apresentações de artistas do calibre de Dennis Alcapone, Cimarons, o soulful Nicky Thomas, Winston Groovy, as belíssimas Marvels e o lendário The Pioneers. E todos eles tocando seus grandes clássicos, como “Wake up Jamaica” de Alcapone e “Love of the common people” de Thomas.

É uma ótima oportunidade de conferir o punch destes artistas no palco. E claro, notar algumas particularidades da sonoridade que os músicos passaram a ter naquela época. Ganharam uma aura mais clean no som, partindo pro que seria conhecido como club reggae, contrastando com o som mais rústico dos estúdios jamaicanos.

Abaixo, o especial:

RIP Sugar Minott

Mais um grande músico jamaicano se foi. Morreu, no último dia 11, Lincoln Barrington, o Sugar Minott. Producer e um dos grandes do lovers e do dancehall, Minott sofria de uma doença no coração. Uma grande perda, pois estava na ativa, inclusive, com vários shows programados para este mês. Fica aqui a tardia homenagem da Action a ele: o primeiro vídeo, uma de suas apresentações no britânico Top of the pops cantando a bela “Good thing going”, de Michael Jackson. Já o outro, um clássico do lovers rock, “Yo’ve lost it”, soulful ao extremo.

Queen Majesty riddim

“Queen Majesty” é um dos riddim mais legais da música jamaicana. Foi produzido pelo lendário Duke Reid e ficou famoso na voz dos Techniques, e logo, se tornou um dos mais utilizados pelos músicos da ilha. Na dúvida sobre quantas versões existem, achamos alguém que compilou em duas partes, os diversos usos que esse riddim teve ao longo da história. Escutem e vejam quem melhor utilizou “Queen Majesty”! Abaixo, a tracklist e, obviamente, os sons.

Pt.1

Leroy Smart – Wish You Good Luck
Michael Palmer – Pull It Up Now
Tenor Saw – Roll Call
Sugar Minott – Nah Follow Fasion
John Holt – Lady Love

Pt.2

Mighty Two – Queen Majesty Chapter Two (Prod: Errol Thompson 197X)
U-Roy – Chalice in the Palace (Prod: Tony Robinson 1975)
Ranking Trevor – Queen Majesty (Prod: Joseph Hoo Kim 1979)
Pat Kelly – Minstrel & Queen (Prod: Duke Reid 197X)
Dennis Alcapone – My Voice Is Insured (Prod: Duke Reid 197X)

O que esperar de Big Youth na Virada Cultural?

big youthEssa semana foi anunciada a programação da Virada Cultural em São Paulo. Pouca gente comentou da presença de Manley Augustus Buchanan, o Big Youth. Quando existe a chance de assistir um medalhão da música, sempre rola uma certa insegurança dos mais saudosistas, ainda mais com o reggae, em que muitos músicos cairam num meio comum em sua produção pós 80.  A boa notícia é que o cara entrou no século 21 com pé direito. Seu último disco, “Musicology”, não abusa dos riddims digitais e conta com um lineup de responsa, como o lendário Sly Dumbar na bateria.

O deejay, que já teve disco produzido por Prince Buster e Joe Gibbs, é marcado pelos vocais arrastados e criatividade nas tracks. Começou trampando como mecânico, e enquanto trabalhava, fazia toasting.  Ganhou alí o apelido que o acompanhava até hoje. Um dos seus primeiros hits, “S-90 Skank”, teve a moto favorita dos jamaicanos colocada num estúdio para servir de intro na track. Genial. Também é conhecido pelo seu inesquecível cover de “Hit the road Jack”, de Ray Charles, em que dá um ar debochado para o standard de soul.  Em 1973, lançou “Screaming Target”, para muitos, um clássico do toasting e que versa sob músicas de Gregory Isaacs e outros reggaemen da época.

Ainda na década de 70,  Big Youth chegou a ter sua própria label onde lançou alguns discos, geralmente usando riddims de caras com quem já havia trampado, como Bunny Wailer. No cast, a presença do Soul Syndicate, session band que tinha Leroy “Horsemouth” Wallace entre os membros. Com a banda, lançou um novo disco, dessa vez produzido por ele próprio. Daí em diante, foi moldando cada vez mais seu estilo cantor, perdendo um pouco a pompa deejay que o deixou famoso no passado. Nos anos seguintes, foi perdendo espaço para os novos deejays e com o difícil panorama musical e social na Jamaica, mudou-se para a Inglaterra, onde nunca conseguiu o mesmo destaque que conseguira na ilha caribenha. Nesse meio tempo, chegou a lançar um disco de pouco sucesso pela major Virgin e aparecido no filme Rockers, quase na entrada dos anos 80

A pergunta que fica é: o que esperar de Big Youth na Virada Cultural? Como todo jamaicano, a imprevisibilidade é algo que impede de se fazer qualquer tipo de análise com alguma certeza. O disco “Musicology”, que foi lançado em 2006, deve ter um espaço maior no set. O que não é algo ruim. O disco tem bons momentos, como no cover “Three Blind Mice”, a sensacional “Sow Good Seeds”-com hammond e tudo- e a lenta “Joy”, em que Youth faz um pouco de toasting.  Não é um disco exuberante,  mas tem qualidade e não mancha a carreira do artista.  No alto dos seus 61 anos, fica difícil fazer o que fazia há 30 anos atrás e a gente entende. Mas uma coisa é certa, o deejay não virá a São Paulo a passeio.

For di lovers

loversrockstory

Nos idos da década de 70, uma nova cena começava a se formar na Inglaterra. Conduzida por descendentes de jamaicanos em Londres, o lovers rock internacionalizou o som caribenho e buscou influência no rocksteady, ritmo que sucedeu o ska e moldou o reggae. Foi, também, um importante meio de expressão destes imigrantes que não se encaixavam no que vinha sendo produzido musicalmente na terra da rainha.  Uma das coisas mais interessantes da cena, era a presença feminina em maior escala entre os seus intérpretes, além do movimento ter partido inicialmente das soundsystem londrinas. A batida lenta, os vocais suaves e as letras românticas eram as principais características do ritmo que, até hoje, possui uma cena sólida e organizada.

Artistas como Dandy Livingstone, Desmond Dekker, Alton Ellis e Laurel Aitken, antes estourados nas charts britânicas, perdiam espaço para a chatice do progressivo e do glam rock. Ainda assim,  a música jamaicana conservava sua fanbase, mesmo orfãos e insatisfeitos com o que vinha sendo produzido pela ex colônia. Isto, sem falar da vasta  população caribenha residente nos bairros periféricos, principalmente no sul londrino. Como se entrosar num cenário como esse?  Com a venda de discos diminuindo e a produção caindo para um lado que não descia nem para os ingleses, nem para os jamaicanos, as festas de rua se tornaram o principal divertimento e um meio de vida.

Abastecidos pelas soundsystem Chicken Hi-Fi, Success Sound e Soferno B-que também se tornaria label-, o velho reggae, rocksteady, ska e o soul voltavam a ter seu espaço e faziam enorme sucesso. Com este panorama, era inevitável o surgimento de artistas produzindo material próprio. Inspirados pelas letras românticas e arranjadas do soul da Filadélfia e Chicago e as belas melodias do rocksteady, o lovers rock aparecia. Aparecia naquelas, até determinado momento, esse novo ritmo não tinha este nome. A nomenclatura surgiria pouco tempo depois, graças ao producer Dennis Harris, peça importantíssima na cena e criador do selo Lovers Rock. Graças a ele, várias estrelas de lovers começavam a surgir: o trio Brown Sugar-com Carol Wheeler do Soul II Soul-, Carrol Thompson e a belíssima Louisa Mark, que chegou inclusive a gravar um single pela Trojan, já na década de 80.

Janet Kay

Daí para frente,  o lovers rock começou a ganhar seu espaço. Sabendo deste público, alguns artistas jamaicanos que na época haviam seguido para o roots reggae, perceberam no lovers um outro público que merecia atenção. De Pat Kelly e Alton Ellis, a Gregory Isaacs e Sugar Minott,  a lista de intérpretes que começavam a gravar o ritmo cresceu. O mais interessante disso é que, na Jamaica, a novidade nunca pegou de fato. Não existem razões concretas a respeito, mas talvez a herança maldita do termo rock do parente rocksteady tenha ajudado a não popularização. O rock sempre foi um ritmo que os jamaicanos renegaram, dando sempre preferência ao soul. Alguns até hoje afirmam que o rocksteady não estourou como o ska e o reggae graças a nomenclatura que recebeu. Boato ou não, não deixa de ser curioso.

Com o início da década de 80, novos artistas surgiam e colocavam de uma vez por todas, o lovers como cena underground sólida na Inglaterra. Um dos baluartes na divulgação  foi um então jovem Mad Professor, com seu selo Ariwa. No futuro se tornaria um dos maiores nomes do dub. Seus trabalhos com a compatriota Deborahe Glasgow, lançados quando a cantora ainda era uma menina-apenas 14 anos-, são verdadeiras gemas. “Falling in love” é soulful ao extremo, e talvez a track mais marcante do seu período com Professor. Janet Kay-2ª nas charts britânicas com “Silly Games” em 79-, Paula e a lindíssima Marie Pierre com sua inesquecível “Choose Me”, fazem parte do extenso hall de belas intérpretes de lovers, que também reservava espaço, mesmo que pequeno comparado as mulheres, a caras como Winston Reedy e Peter Hunnigale.

O lovers rock continua forte até hoje. É claro, não tem a mesma força que tinha há vinte anos, mas continua como uma das cenas mais interessantes para se conhecer e fazer parte. Segue com sua base focada nas soundsytem, o que talvez tenha ajudado a garantir o sucesso. Seu legado também é enorme, foi um dos responsáveis pelo surgimento do dubstep e grime. Sem o lovers, muitos descendentes de caribenhos envolvidos nestes novos sons não teriam a inspiração e a confiança que, é sim, possível continuar a belíssima história que seus avós e bisavós começaram há 40, 50 anos atrás.

Tropical Discotheque

sofritologo

Nos países hispânicos, sofrito é o famoso refogado, um standard da culinária mundial. Na Inglaterra,  ganhou outro significado: é o lar da discoteca tropical. Pois é, não ficou muito claro. Formada pelos Dj’s Hugo Mendez e Frankie Francis em conjunto com o designer Lewis Heriz, Sofrito é uma equipe de som que promove festas, além de ser uma label. Totalmente voltada para os sons caribenhos, sul-americanos e africanos, buscam inspiração nas lendárias festas que rolavam na parte leste de Londres nos anos 80. Estas festas, aliás, ajudaram a moldar a cena jazz-funk londrina, culminando no nascimento do Acid Jazz na década seguinte.

Logo de cara, a Sofrito conquista o coração de qualquer um. A proposta de abordar sons tropicais não é tão original assim, mas as tracks  prediletas dos Dj’s saem do usual. Compas, biguines, guaguancos e tumbelé de Guadalupe e Martinica, grooves da Colômbia e coisas não tão tocadas de Jamaica e Cuba. Há espaço, também, para  tropical disco de Kid Creole e Africa 70. A receita é cavar fundo nos ritmos, o que rende viagens corriqueiras para estes países. Há algum tempo, inclusive, eles publicaram no site da label algumas fotos de uma visita a América do Sul, onde trouxeram centenas de compactos. É até difícil de acreditar como uns gringos perdidos conseguiram achar tanta coisa boa em nosso continente. Os achados rendem edits e remixes que são lançados em vinil, além de mixtapes que são disponibilizadas no site e servem de aperitivo para as  festas e futuros lançamentos em disco.

Na parte visual, o selo inglês também surpreende. Lewis Heriz é responsável por toda a comunicação visual da label. Pôsters, o site, capas de discos, tudo com um cuidado e um capricho que te deixa ainda mais afim de gastar com os lançamentos e eventos promovidos por eles. A inspiração do designer provavelmente vem das capas das produções de highlife e música latina dos anos 70. Graças a estas referências,  temos um material ríquíssimo criado por Lewis. Cores quentes, tipografia manuscrita e um encaixe perfeito entre proposta gráfica e musical. Dá até para arriscar e dizer que não se via algo tão bacana desde o que foi produzido visualmente pela Factory Records décadas atrás.

As festas ocorrem por Londres e toda a Inglaterra, mas os caras tem tocado por vários lugares da Europa. Além das discotecagens, artistas do naipe de Poets of Rhythm, o gênio Manu Dibango e Quantic Soul Orchestra já marcaram presença nos eventos da Sofrito. Quanto ao futuro, não tem como prever, mas a torcida é que consigam lançar novos artistas e algum visionário traga-os a América do Sul. Só que desta vez, para tocar. Agora, chega de papo. Deem um pulo no site da Sofrito, provalmente deve ter mais uma mixtape sensacional por lá.

Por que os jamaicanos correm tão rápido?

Why Do Jamaicans Run So Fast? busca explicar as razões dos jamaicanos serem tão rápidos no atletismo. A produção, filmada antes e durante as olimpíadas de Beijing, mostra a tradição e paixão dos jamaicanos pelo esporte. São 61 minutos de depoimentos de atletas como o multicampeão Usain Bolt e Asafa Powell, além de músicos como Big Youth, Quen Ifrica e Movado.

Uma produção espanhola, o documentário foi lançado em premiere no Canal(Plus), também espanhol, em janeiro. Chegou até a ser indicado pelo tradicional American Black Film Festival. Tamanha a aceitação, foi a única não americana entre as selecionadas, o que é um grande reconhecimento a obra.

A grande sacada do diretor e produtor Fernando Guereta foi traçar paralelos entre a música e o esporte, meios que o povo da ilha encontrou como uma válvula de escape para a violência e a pobreza do país. “a idéia surgiu porque eu tenho ajudado uma equipe de atletismo local por anos. eu tive a oportunidade de perceber que a jamaica tem uma fábrica de corredores. o reggae é a música da jamaica e existe um laço forte entre esporte e música. – atletas amam música e músicos amam o esporte. o link sempre esteve lá, uma pista de atletismo é tão importante quanto a soundsystem. o reggae mantém viva a vibração e faz os dias esportivos felizes” diz Guereta.

Falando em música, a trilha sonora é composta de várias fases da música jamaicana. Dos velhos reggaeman Desmond Dekker e o trio Heptones a talentos atuais como Jah Cure e Movado, todos dando o tom especial do documentário, evocando nas letras questões de pobreza, violência e o desejo de uma vida melhor na ilha caribenha. Tudo com dedo de Guereta, que também é produtor musical e dono de um selo, a Nice Time Productions.

Assim como o excelente Rocksteady: The Roots of Reggae, Why Do Jamaicans Run So Fast? não tem previsão de lançamento no Brasil. E denovo, fica a torcida para que seja lançado em DVD. Fiquem ligados no perfil do documentário no Myspace para mais novidades!