Lost Sounds: Blacks and the Birth of the Recording Industry, 1891-1922 é um tesouro. Com mais de cinquenta tracks e um livreto repleto de comentários, biografias e análises, a compilação mostra a indústria musical americana ainda em formação e a colaboração de artistas negros nisto. Destaque para uma das primeiras gravações de um grupo vocal afro-americano, o The Oriole Quartette. Imperdível. Disponível no site da Archeophone Records.
Especial – James Brown: uma noite no Apollo – Parte 2
por Marcelo Xavier
Os Flames entram em cena
Foi mais ou menos nessa época que os Flames nasceram. Inspirado pelo estilo de Little Richard, ele formou um grupo de R&B com Bobby Byrd, que mantinha um pequeno ensamble de cantava gospel. James secularizou o som deles, ao mesmo tempo em que deslanchou sua carreira como um show man no momento em que ele entrou justamente no vazio deixado por Richard, que largou os palcos para virar pastor.
O conjunto era formado por Bobby Byrd, Bobby Bennett, and Lloyd Stallworth. Batizados como os Famous Flames, eles iriam fazer história a partir dali.
Brown, que já havia conseguido um lugar nas paradas com Please, Please, Please, agora recebia as novas boas vindas com Try Me, depois de amargar um pequeno ostracismo da Billboard. E dessa vez era para valer. Brown até contava agora com ex-músicos do autor de Long Tall Sally (lembrando sempre os os Flames era apenas o grupo vocal). Seu intento, porém, era dar um passo à frente, com seu protofunk que seria, a partir dali, um gênero musical à parte, todo seu.
Mas faltava conquistar o mundo. O problema era que, desde seu ídolo, Little Richard, artistas negros eram interditos em rádios ‘brancas’, ou pior, como acontecia com o próprio Richard: tinha os seus hits gravados por gente insuspeita como Pat Boone, que fazia covers de R&B e chegava no topo das paradas com a música alheia.
Brown sabia que ele conseguira a façanha de chegar na Billboard do estilo rythym and blues; no entanto, sua música só tocava nas rádios negras do sul. Como a sua música explodia no palco, ele decidiu gravar um disco ao vivo. A Kings, sua gravadora, se opôs ao projeto, alegando que um álbum dessa estirpe, àquela altura dos acontecimentos, seria algo como andar em círculos. Pior: nos cálculos deles, era encalhe na certa.
Por via das dúvidas, James resolveu avalizar o projeto. Assim, estaria livre da pressão comercial do selo e teria plena autonomia em gravar o show, um prazer que poucos artistas gozavam naquelas priscas eras. De qualquer maneira, o homem estava jogando tudo para o alto. O sorte do destino do seu contrato com a King Records foi jogado nos dados.
A apresentação se deu no dia 24 de outubro de 1962. O show foi um arrasa quarteirão. O que eles tinham gravado em rolo era nitroglicerina pura para ser registrada em vinil. Não houve necessidade de um single promocional. Os disk jockeys (principalmente os de emissoras alternativas) simplesmente tocavam o disco inteiro. Isso se deu porque os dois lados tinham medleys.
Wayne Kramer disse certa vez que era um dos que ouvia o disco nas rádios de ponta a ponta e que fundou o MC5 de tanto escutar o Live at Apollo chapado. “Nós moldávamos as performances do MC5 a partir daquele disco”, lembra.
James Brown ganhou a quebra de braço com a Kings. Rescindiu o contrato enquanto o disco chegava a flanar por mais de um ano no topo da parada de bolachas mais vendidas segundo a Billboard, assinando com a Smash. Um ano depois, ele sentiria o sucesso na lista dos 20 compactos mais vendidos na seção Pop da revista, dessa vez com Prisioner of Love. Era o topo.
E o Apollo?
O teatro, que viveu os seus dias de glória entre os anos 40 e 60 caiu em desuso a partir de meados dos 60. Existem várias razões para a sua decadência. A primeira é que, como ele tinha um caráter de gueto, já que era uma espécie de plataforma cultural ligada ao Harlem, ele se tornou pequeno demais quando o movimento pelos Direitos Civis ganhou as ruas. Outro fator foi a crescente utilização dos meios de comunicação como forma de difusão cultural.
Outro pode estar no fato de que, á medida em que o jazz se tornava cada vez menos popular e a música jovem (negra e branca) integrava diversas tendências sonoras, isso atraiu, da mesma forma, um novo tipo de público que procurava outros tipos de locais para escutar música. Começava a era dos grandes festivais e da entronização do rock como instrumento de vetorização dessa nova dialética, catalisando música, cultura, protesto e estética.
No entanto, o Apollo seguiu firme até os anos 70, quando virou sala de cinema. Nos 80, fechou as suas portas pela primeira vez. Coube a Eddie Kendricks a Dave Ruffin, remanescentes dos Temptations, a elaborar um revival, em 1987. Quatro anos mais tarde, o mítico teatro foi tombado como patrimônio da cidade de Nova Iorque.
Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.
Especial – James Brown: uma noite no Apollo – Parte 1
por Marcelo Xavier
Prá começo de conversa
O Apollo Theatre, localizado no Harlem, em Nova Iorque, foi o coração musical de um movimento social negro urbano a partir do começo do século XX.
Apesar de estar associado à artistas negros, sua origem é diversa: quando o local foi fundado, em 1914, era apenas um teatro de variedades, frequentado pelo público branco do local.
A mudança aconteceria no pós-guerra, quatro anos depois: com o surgimento de grandes fábricas nas principais metrópoles americanas e a escassez de mão de obra, grande parte da população rural sulista migrou para cidades como Chicago e Nova Iorque.
Boa parte dessa nova classe se instalaria no Harlem e, diante de uma nova realidade urbana e adversa, de um país que havia recém abolido a escravidão mas que não abolira o racismo, eles passaram a questionar o seu papel e a sua importância na sociedade morderna.
Foi quando surgiram intelectuais negros, como James Weldon Johnson, Langston Hughes e Charles McKay. Eles defendiam a importância da sua raça como parte constituinte daquele pais em marcha, e rejeitava todos os estereótipos atribuídos a eles, e estandartizados culturalmente através dos Minnistrels, onde o negro era ridicularizado em teatros de revista.
A Renascença do Harlem
Agora libertos, eles exigem igualdade social e participação política. Como no sul, nada havia mudado, a saída foi migrar para o norte. E muitos que formariam aquela geração da chamada Renascença do Harlem eram descendentes de escravos ou habitantes dos estados sulistas onde, a despeito da abolição da escravatura, nada havia mudado.
Claro que o problema racial não mudara nem nas grandes metrópoles, onde a concorrência era desenfreada e o marcado de trabalho para os negros era restrito.
Por conta disso, o bairro nova-iorquino acabou catalisando uma parcela considerável de negros que, capitaneados por intelectuais e músicos, criaram um movimento político que se transformaria também numa bandeira cultural. O maior monumento vivo daqueles anos da Renascença do Harlem é o Apollo.
Fundado em janeiro de 1914, depois de passar por vários donos, acabou se tornando um grande espaço cultural onde vários expoentes do movimento do Harlem puderam tanto expressar-se quanto lançar as suas carreiras. No entanto, ele nascera “branco”. Era apenas mais um teatro de variedades da cidade.
Contudo, com a formação de um gueto negro em pleno Harlem e devido ao fato de que muitas outras casas de espetáculo, (mesmo as que prestigiavam o jazz) eram restritivos com relação à artistas de cor (como se sabe, havia uma integração autoral e musical entre artistas negros e brancos nos bastidores do jazz, mas isso era restrito ao público em geral. Um exemplo é Bix Beiderbeke, que nunca pôde dividir o mesmo palco com seu ídolo, Louis Armstrong).
Somado ao fato de que, por conta disso, o cachê “negro” era mais barato e o espaço restrito, com o tempo, o Apollo acabou se formando a Meca do Afro-american way of life nova-iorquino. Sob a direção de Frank Shiffman e Leo Brecher, o teatro passou a apresentar revistas de assuntos variados, incluindo shows de calouros, noites de jazz e espetáculos beneficentes.
Mudanças
Pois foi durante o segundo período da chamada Renascença do Harlem que a casa se transformou na plataforma de lançamentos de grandes nomes da música negra, desde o jazz e o blues até o nascente soul, a partir de meados dos anos 50. A lista é incontável, indo de Sarah Vaughn até Bem E King, Marvin Gaye e Sam Cooke, entre outros.
Com o advento do rock, alguns artistas brancos desbravariam o palco sagrado do Apollo: o primeiro foi Dale Hawkins, embora a tradição repute essa primazia à Buddy Holly, como inclusive fora retratado em sua cinebiografia.
Contudo, ao contrário do que aparece no filme, houve uma certa resistência à contratar artistas brancos no teatro, já que vivia-se uma época dividida nos Estados Unidos em termos de democracia racial e a polêmica envolvendo o célebre boicote da companhia Montgomery de ônibus, cuja célula de crise foi uma acusação de racismo contra Rosa Parks, que se tornaria símbolo da luta contra as Jim Crow Laws na América, a partir de 1955. Hawkins se apresentou naquele calor da hora, pouco menos de um ano depois do episódio.
Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.









