por Marcelo Xavier

basieO milionário excêntrico e caça-talentos de jazz John Hammond andava de carro pelos arredores de Kansas City lá por 1936 quando, captando o sinal de uma estação de rádio experimental da cidade ouviu um conjunto de swing que lhe deixou perplexo. Quem eram aqueles malucos? Foi atrás dos estúdios da emissora e descobriu que ela transmitia o programa de um lugar chamado Reno Club, um bar que era freqüentado apenas por negros (vivia-se a época da Jim Crow Laws). A música que o enfeitiçara: One’o Clock Jump, baseada num curioso improviso em Fá Maior a partir da seção rítmica da banda (depois seguida pelos saxofones), que virou seu tema referencial.

Foi quando descobriu: era a banda de um pianista de New Jersey que se chamava Count Basie. Ele tinha um sax-tenor que era um dândi que gostava de fazer o tipo de execução bagunçeiro-arrumadinho, um tal de Lester Young.

Hammond ficou tão impressionado com o que descobrira que, de volta a Nova Iorque, convenceu Benny Goodman e o empresário dele a irem à Kansas City conhecer aquela turma. Seu faro não o enganou: em pouco tempo, Basie estava contratado pela MCA, uma das maiores agências de espetáculos da década de 30 — e isso em plena Grande Depressão.

Hammond resolveu azeitar aquela máquina de fazer música e lança-los nos centros do país, Chicago e Nova Iorque. Para acompanhar Young, ele escolheu Herschel Evans: o objetivo era capacitar o conjunto a ombrear com os de Fletcher Anderson, Duke Ellington, Tomy Doorsey e Louis Armstrong.

O corolário se deu aquém das expectativas. A recepção à banda de Count Basie não fora a esperada, em nenhuma das cidades. Hammond decidiu que era preciso, antes de tudo, conseguir chamar a atenção de toda a imprensa — além da especializada e, principalmente, lança-los em disco, sob risco de acabaram se tornando tão marginalizados do que eram.

Hammond prontamente arranjou um contrato com a Decca (precedido por uma sessão com a Vicalion, onde Basie gravou Oh, Lady Be Good! (Gershwin) com Young e orquestra) em 1936. Também lhes assegurou outro contrato — dessa vez com uma rádio — algo que era muito comum na chamada Era do Swing. O éter propagou os acordes dissonantes de Count para quase todos os estados americanos. Era o começo do sonho.

Basie logo se diferenciava de Ellington e de Fletcher por ser mais brejeiro e mais simples na hora de elaborar arranjos. Além de ser quem sabe até mais leve, mais bem humorado e menos classudo que a turma que fazia sucesso, Benny e Glenn Miller, por exemplo. Logo seCOUNT-LESTERnotabilizaria pelo estilo descomplicado — inclusive pelo fato de que, ao contrário de Anderson, ele apostava suas fichas no improviso de seus músicos. Fletcher, por sua vez, queria tudo muito bem escrito na partitura.

Depois do auge veio a Segunda Guerra Mundial. Muitos músicos foram parar no front. A matéria-prima antes destinada à fabricação de instrumentos foi canalizada para a indústria bélica. Um strike da Associação de Músicos quase acabou com a venda de discos durante o período da participação americana no conflito. As grandes gravadoras só conseguiam lançar os patrióticos V-Discs, acetatos destinados aos soldados na Europa. Quase ninguém gravava nada — e Basie foi um dos poucos que sobrevivem àquela escassez musical.

Paradoxalmente ou não — o que iria prejudicar a carreira da banda de Count seria justamente o fim da Guerra. As grandes bandas de swing morrerem. A moda agora, no estilo de Frank Sinatra e Dick Haymes, eram os cantores, não mais contratados como crooners das bandas, mas como intérpretes independentes.

As orquestras diminuíram ao minimalismo cerebral do Be-Bop, uma música que, para a tristeza de uns e a alegria de outros, era mais destinada a ouvir do que a dançar.

Basie também acabou reduzindo o seu conjunto a sete integrantes. Durante a década de 50, mudanças dentro da banda, com Frank Wess e Frank Foster nos sex-tenores; Basie faz sua música sobreviver ora excursionando pela Europa (onde o jazz sofreu uma renascença gigantesca, especialmente na Alemanha, na França e na Holanda), ora tocando com Sinatra (com quem firmaria uma duradoura parceria, rendendo álbuns na era Reprise, nos anos 60, além dos memoráveis shows no Sands, que também virariam disco).

Nessa época, conseguiu um contrato de treze semanas no Waldorf Astoria. O mundo era pequeno demais para Basie.

Nessa época, no começo do ouriço da primeira onda do Rock e do Rhythm’n Blues, Basie passa a ser requisitado pelas gravadoras. Para os arranjos, Count descobriu um jovem compositor da banda de Woody Herman que seria o seu imediato e o sujeito por trás do gfrande álbum Atomic Mr. Basie — Neal Hefti.

Neal, que também tinha a influência do Bop, emprestou sangue novo ao estilo desassombrado de Basie, e foi convidado a fazer os arranjos e a música de todo o disco, que seria lançado pela Roulette.

51dnP4+4GjL._SL500_AA300_O tal disco, Atomic Mr. Basie, lançado em 1957, é um clássico do jazz: quiçá a melhor porta de entrada para conhecer a música do pianista de Nova Jersey. Li’ l Darlin’, tema de Neal, seria a peça de resistência do álbum e se tornaria, com o passar dos anos, junto com One’o Clock Jump, um tema permanente em seus concertos (assim como aconteceria com April In Paris, do Vernon Duke, também arranjado por Neal).

Para completar o Atomic, Basie conta ainda com o trompete de Wendell Culley, Eddie Lockjaw no sax-tenor (impagáveis em Fight of Two Birds, Double-O e em Duet). Seu naipe de metais é impecável — um dos melhores de sua época — porém sem desmerecer aquilo que sempre foi o elemento primordial das orquestras de Count, que era a sessão rítmica: Sonny Payne, preciso e alvissareiro como um relógio suíço e o pulso demolidor de Eddie Jones — além dos bem humorados contrapontos de Basie ao piano.

The Atomic Mr. Basie foi o seu ápice — embora seguisse gravando, agora com Norman Granz para selos como a Verve e a Pablo. Ele ainda seguiria como band-leader por mais trinta anos, colaborando com gente insuspeita como Sinatra, Ella, Mel Tormé, Tonny Bennett, Sarah Vaughn, Sammy Davis e Billy Eckstine. Basie já havia passado das suas incertezas, como se tivesse que se preocupar em ser ou não lembrado pelas gerações posteriores.

Só Nefti que, depois de despontar como estrela do jazz, resolveu se mudar para a Costa Oeste, mais precisamente para Hollywood, e virar compositor de trilhas de televisão, se notabilizando mais pela intragável musiquinha do seriado do Batman.

Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.