Finalmente estava dentro do estádio para ver o meu Peixe jogar no Chile. Já ao lado de alguns torcedores do Santos – ainda que misturados com chilenos -, finalmente tive coragem de tirar a minha camisa de dentro da calça e vesti-la. Agora precisava ir ao que interessa: arranjar o ingresso.
Perguntei para os torcedores que estavam no portão se alguém tinha ingresso. Ninguém tinha. Precisei ir até a bilheteria para comprar. 12,000 pesos chilenos. Preço bem razoável para um jogo do torneio mais importante da América do Sul.
O estádio Monumental impressiona. Uma construção moderna misturada com uma bela vista da Cordilheira dos Andes ao fundo. Como todos os outros brasileiros, resolvi tirar algumas fotos de recordação. Um figura que não parava quieto fez questão de me emprestar a bandeira do Peixe para que eu saísse na foto segurando ela.
Vai lá! Vai lá! – ele dizia, me apontando o melhor lugar da arquibancada para aparecer na foto.
E lá estava eu, todo sorridente, camisa do Santos, bandeira na mão e as Cordilheiras surgindo por detrás da minha cabeça. Nos alto-falantes rolavam rocks dos anos 50 e o hino do Colo-Colo. Um grande placar exibia o distintivo do time de Santiago com o seu índio chileno. É, estávamos na casa do adversário.
Ainda faltava um pouco mais de uma hora para o início da partida. Matei o tempo conversando com alguns outros santistas que estavam por ali. A maioria tinha vindo apenas para ver o jogo – passar dois dias no Chile e ir embora.
A partida estava cercada de expectativas. O craque Paulo Henrique Ganso tinha acabado de voltar de longos seis meses longe dos gramados. Tinha jogado no sábado contra o Botafogo de Ribeirão Preto e foi decisivo na vitória do Peixe naquele jogo. Fez o passe para o primeiro gol e deixou o dele logo depois. Só jogou o segundo tempo, mas fez toda a diferença.
Contra o Colo-Colo ele já começaria jogando. Camisa 10. Titular absoluto.
O Santos também precisava da vitória. Vinha de dois empates na Libertadores. Um contra o fraquíssimo Deportivo Táchira. Zero a zero na Venezuela. O outro contra o Cerro Porteño na Vila Belmiro, graças a um pênalti cometido por Edu Dracena no último minuto de jogo. Dois resultados amarguíssimos pra quem almejava ser o favorito na competição. Agora era uma boa hora para começar a mudar as coisas.
O estádio começa a encher e a torcida santista, que está em bom número (cerca de 800 pessoas), começa a ficar encurralada com tantos chilenos no Monumental. Alguns membros da Torcida Jovem são colocados na parte de trás do gol, espaço sempre destinado à torcida visitante. Decido ficar onde está a maioria dos brasileiros. O único problema é que estávamos juntos com a torcida colo-colina.
Alguns torcedores santistas ficam preocupados com aquela situação, mas a polícia estava bem atrás. Estávamos juntos com a parte mais “família” da torcida chilena.
9:50. O juiz apita. Início de jogo. Santos começa rápido. Afobado. Jogando como quem precisa de um bom resultado. Logo no começo do jogo Elano tem uma boa bola perto da área. Mas não passa. Fica com ela no pé. Alguém grita “Passa a bola, Elano”. Mas logo percebi o que ele queria fazer. Prender a bola e cavar uma falta bem ali na intermediária. E foi o que aconteceu.
Falta marcada e o próprio Elano vai bater. Ele sabia o que estava fazendo desde o momento em que segurou a bola e foi derrubado. Senti o gol chegando. Com propriedade, o craque toma distância, corre, chuta e …
GOOOOOOOOOOOL!!!!!!!
Chilenos não acreditam. Festa santista em Santiago. A torcida do alvi-negro praiano comemora, grita, provoca.
Sou alvi-negro da Vila Belmiro, o Santos vive no meu coração. A multidão canta loucamente. Finalmente uma vitória na Libertadores. E fora de casa. É o motivo de todo meu riso, de minha lágrimas e emoção. Os colo-colinos olham para nós cheios de frustração. Sua bandeira no mastro é a história de um passado, presente só de glórias. O cara da bandeira estava completamente maluco. Nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter.
Mas mal sabia a torcida santista que a alegria duraria pouco. Mesmo em desvantagem no placar, os chilenos não se abateram. Continuavam cantando e incentivando o time. Incendiavam o estádio com bandeiras incansáveis, sinalizadores e um boneco gigante.
Colo-Colo parte para cima e… Gol. Dessa vez a festa é chilena. Os colo-colinos conseguem empatar a partida. Os torcedores provocam os santistas. Fazem gestos obscenos. Fazem gestos engraçados.
Poucos minutos passam e… Gol do Colo-Colo. Mais provocação chilena. Outros minutos se vão e mais um gol do Colo-Colo. 3 a 1 para eles. O que parecia uma vitória fácil virou um pesadelo em um período de pouco mais de 15 minutos.
Intervalo. Os jogadores vão para o vestiário. O hino do Colo-Colo e os rocks dos anos 50 voltam. A torcida do Colo-Colo faz festa. 3 a 1 é um placar bem confortável. A torcida do Santos não desanima. Afinal, estamos no Chile. O time pode até não ganhar, mas estamos em um lugar lindíssimo, vendo um dos melhores times do mundo jogar e isso é o que importa.
A partida recomeça. Ataque do Colo-Colo e… NA TRAVE!!! Um gol do time chileno neste momento mataria de vez o jogo. A sensação de alívio foi grande e a sequência do lance foi melhor ainda. Neymar partiu pra cima da zaga colo-colina e fez um golaço. Histórico. O seu primeiro em Libertadores.
3 a 2. Menos pior.
A partir daí o jogo foi lá e cá. Com muitas chances desperdiçadas dos dois lados. Sufoco, sufoco e mais sufoco.
Até que o juíz apita o fim de jogo. Era a única derrota do Santos na Libertadores. Agora nós precisaríamos ganhar todas as partidas para seguir com chances no torneio.
Tristeza santista. Alegria chilena.
A torcida do Santos precisa esperar até que todos os chilenos saiam. Eles vão embora tirando sarro, mas os santistas não deixam barato. O cara que me emprestou a bandeira a estende e aponta para as estrelas no símbolo do Peixe.
- Yo, duas! Usted, nenhuma!
Depois de quase todos terem ido embora, um pequeno chileno se aproxima de mim. Ele traz nas mãos um casaco branco do Colo-Colo e o estende na minha frente. Não diz nada. A princípio penso que ele está tirando um sarro, mas os santistas ao meu lado tentam explicar que ele está querendo trocar pela minha camisa do Santos, assim como fazem os jogadores ao final da partida. Começo a falar com ele e peço para ver o casaco. Finjo analisar o jaleco e digo que não quero, pois é muito feio. Jamais trocaria a minha camisa listrada do alvi-negro praiano por uma do Colo-Colo. Talvez se o resultado do jogo tivesse sido outro…
O garoto se vai. Some na multidão tentando buscar outro santista para fazer a troca. Enquanto eu procuro alguém disposto a dividir uma carona de volta à Plaza de Armas, onde ficava o meu albergue.
Um casal meio cinquentão ao meu lado veio puxar papo e descobri que estavam indo para o centro. Perfeito. Eles moravam em Curitiba, mas o cara era de Santos. Estavam rodando o Chile de carro e pareciam ser gente boa. Topei rachar um táxi com eles.
Logo me identifiquei, pois assim como eu, estavam passeando por aquele belo país e deram sorte do time do coração estar jogando no mesmo período. Me contam sobre Valparaiso e Vina del Mar, lugares que eu deveria visitar.
Ramalho (era o nome do sujeito) me pergunta, quando estamos lá fora:
Você fala espanhol?
Consigo enrolar.
Então é bom começar a praticar. Porque olha aí…
E ele aponta para a multidão de colo-colinos que teremos que atravessar. Prefiro ficar quieto. Ele e a mulher também.
Os ônibus que passam estão lotados. Torcedores se penduram pelas portas que vão abertas. Sem condições. Seríamos assassinados lá dentro.
Os táxis não param. Provavelmente achando que somos mais um bando de baderneiros do Colo-Colo.
Vamos para um local razoavelmente longe do estádio. Carros passam com dizerem pichados nas janelas traseiras: “Piñera miente”. Começo a me apaixonar por aquele país.
Um táxi finalmente pára. O taxista é simpático. Ao modo chileno. Sério. Mas falante.
Diz que temos sorte de o Colo-Colo ter vencido, pois senão eles estariam malucos quebrando tudo. Ele não tem time. Não gosta de futebol. E muito menos do Colo-Colo. Diz que os torcedores fazem assaltos entre si em dias de jogo. Às vezes parece que exagera.
Depois pergunta se sentimos os terremotos durante o dia. Houveram quatro e até o Neymar sentiu, pois postou no seu twitter: “medo”. O taxista começa a falar como os terremotos são terríveis e lembra onde estava no devastador de 2009. Conta que viu a rua subir e descer na frente dele.
Eu não senti nada. Talvez pela emoção do jogo. Talvez pela emoção de estar naquele país tão bonito. Tinha a certeza de que no Brasil daríamos o troco no Colo-Colo e essa derrota não abalaria a trajetória na Libertadores.
O pior seria aguentar a gozação dos colo-colinos do albergue na manhã seguinte.