O Calypso Monarch é um tradicional concurso de músicas voltadas ao estilo que já existe há mais de quatro décadas em Trinidad & Tobago. Gente do naipe de Mighty Sparrow, Black Stalin, Kitchener e Calypso Rose fazem parte da vasta galeria de campeões do certame. Em 2012, o vencedor foi Duane O’Connor e neste vídeo ele canta Long Live Calypso, canção que o ajudou a faturar o prêmio de um milhão.
San Fernando Mento Patrol
San Fernando Mento Patrol foi uma das coisas mais legais que apareceu no Japão nos últimos tempos. O grupo, que infelizmente não existe mais, tocava mento e calypso, mesclando com um pouco de latinidades como rumba. Destaque para o visual excêntrico dos integrantes, especialmente da mulher, que ainda tinha uma voz bem bacana. Uma grande pena não terem sequer lançado discos. No Myspace do San Fernando Mento Patrol dá para escutar as músicas e ainda tem mais vídeos de suas apresentações.
Desvendando a música do Caribe que fala francês
O Caribe é formado por dezenas de ilhas que não chegam ao tamanho de um bairro no Brasil. Fruto de colonizações diversas e misturas culturais, a regiào possui jóias que muitas vezes passam despercebidas para quem vem de fora. A velha máxima de que “tudo é muito igual” cumpre um papel importante nessa indiferença. Do lado francês das pequenas antilhas, vários estilos surgiram com influência direta do país europeu.
Da família do calypso, o cadence de Dominica tem sua fundação no méringue, a versão haitiana do merengue da vizinha República Dominicana. Por sua vez, o méringue deu origem a outro estilo no Haiti nos anos 60, o cadence rampa, este, ainda mais parecido com o calypso. Neste confuso tronco musical, ainda existe o compas, um méringue mais moderno, criado por Nemours Jean Baptiste, figura chave da música haitiana junto com Webert Sicot. Para muitos, o cadence rampa nada mais era que o compas com arranjos diferentes, fruto da rivalidade dos dois, ex companheiros de orquestra. Todos estes estilos tinham um instrumento em comum, o acordeon, dos colonizadores franceses.
Voltando para Dominica, o cadence surgido por lá é também chamado de cadence-lypso e teve mais influência do cadence de Sicot que do estilo criado por Baptiste. Dizem alguns especialistas que sem o cadence-lypso, o soca, nascido em Trinidad & Tobago, não existiria. O curioso disso tudo é que o calypso surgiu em Trinidad & Tobago e o cadence-lypso veio do calypso, dando um nó na história.
Ainda sobre o ritmo nacional de Dominica, a semelhança com o soca é tão grande que até assusta. A diferença fica na lingua que é cantado, o francês, e na levada mais lenta e orquestrada. O principal representante do estilo foi o grupo Grammacks, na ativa até hoje, e que chegou até a tocar num Super Bowl dos anos 80. Houve uma época que o cadence-lypso flertou com o Rastafari e o Black Power, os caras chegavam a cantar no dialeto local, o crioulo.
Para entender melhor tudo isso, é mais do que recomendado procurar pelos artistas. Dos haitianos, é obrigatório as obras dos já comentados Webert Sicot e Nemours Jean Baptiste. Mesmo jogando os nomes no Youtube dá para achar coisas deles. Já do lado de Dominica, existem algumas coletâneas por aí como Cadence Lypso – Very Best que compilam os principais nomes do gênero. Ótimos modos de entender melhor a história musical deste pouco conhecido Caribe francófono.
Los viejos y sabios musicos de Cuba
O son é um estilo musical nascido no interior de Cuba. Suas primeiras manifestações ocorreram antes mesmo do século XIX. Porém, foi a partir dos anos 20, com as rádios, que ganhou popularidade. A importância do estilo na música latina é tão grande que ele é base para quase tudo que surgiu anos depois, como o mambo, a salsa e bolero.
No documentário Los viejos y sabios musicos de Cuba, ficamos sabendo sobre a época de ouro do son e seus artistas mais importantes, tornando impossível não se recordar do fodão Buena Vista Social Club. Mais uma produção que ajuda a compreender as idiossincracias cubanas.
Streets & Sports: A Trinidad Teen
Reportagem sobre uma das maiores ameaças que o Caribe, em especial Trinidad e Tobago, tem enfretado nas últimas décadas – a violência de gangues. Mostra um lado mais pesado dessa região que a música e a imagem que temos nem sempre condiz.
Que fim levou o Calipso?
O calipso é um ritmo que, a rigor, é um amálgama da canção européia com ritmos africanos de estirpe iorubá. Mas uma definição friamente enciclopédica desse tipo carece de precisão, ou melhor, de uma contextualizção à nossa realidade.
É mais fácil tentar entender esse gênero musical, que nasceu em Trinidad e, mais tarde, floresceu nas Antilhas e na Jamaica, se compararmos a sua evolução com a própria evolução do samba brasileiro, já que, de certa forma, além de uma relativa raiz comum, ambos sofreram um processo de misigenação na América Latina.
Assim como o samba, o calipso ganhou proeminência a partir da primeira metade do século passado, junto com o surgimento do disco. Como aconteceu aqui, os músicos de Trinidad reelaboraram um estilo musical nativo que se consolidou através de uma “velha guarda” da bambas que, antes de serem intérpretes, eram compositores.
Da mesma forma, os dois estilos foram “inaugurados” mais ou menos na mesma época: o calipso, em 1912, quando os Lovey’s String Band realizaram a sua primeira apresentação em Nova Iorque, o samba ganharia patente ao virar sucesso de Carnaval em 1917 com Pelo Telefone.
Ao mesmo tempo, o jazz ganhava proeminência nos Estados Unidos, fazendo o mesmo percurso de culturação entre a música creole de ascendência européia e o folclore africano dos escravos, a partir do Sul.
Podemos dizer que as semelhanças param por ali. O Jazz, a partir da década de 40 se sofisticaria, com o advento das big bands e da sua progressiva popularização pelo disco e massificação através do rádio, perlongando o percurso lógico da Indústria Cultural em entronizá-lo como produto comercial.

Em contraponto, o jazz se sofisticaria, voltaria para o gueto e passaria a rejeitar a forma como acabou se tornando um estilo musical para “agradar aos brancos”, como muitos teóricos do be-bop passaram a diferenciar o jazz típico de músicos como Louis Armstrong, a despeito de todo o seu talento criador e revolucionário.
Da mesma forma, o samba ganharia a América em dois momentos: durante a época da chamada Política da Boa Vizinhança, quando a música brasileira interessava diplomática e ideologicamente às relações de poder dos Aliados. No segundo momento, com a ascensão da Bossa Nova e a sua fusão com o jazz, porém se notabilizando mais pelo seu caráter renovador no sentido harmônico do que no sentido exótico tutti frutti hat dos tempos da Carmen Miranda.
E o calipso? Ao contrário do ritmo brasileiro, ele ficaria restrito à América antilhana nos primeiros anos, e seria popularizado mais como música instrumental ou todavia com letras eminentemente folclóricas e, por conta disso, tinha, por conta dos ‘cantadores’ de calipso, um lado mais trovadoresco, em canções de protesto à política colonialista vigente (algo que não era alheio ao samba, também) e a invasor britânico. Porém, mesmo sem sofrer com o estro do nosso discricionário Estado Novo, muitos compositores eram perseguidos pela polícia inglesa.
Ou seja, muito antes do reggae, as raízes da música antilhana já encontravam uma matriz política nas letras, que versavam também sobre temas diversos, que iam da vertente de protesto até canções com referências veladas sobre violência e sexo.
Isso deve ser levado em consideração pelo fato de que, da mesma forma que o jazz passara com o tempo a questionar-se com relação à sua postura diante das desigualdades sociais e no seu papel de denúncia da realidade racial naqueles anos políticos, o calipso se tornou um ritmo mundialmente conhecido de forma mais eufemizada.
Não que essa fosse a intenção, por exemplo, de músicos como Harry Belafonte que, a despeito de se tornar conhecido, e ao mesmo tempo propagar o calipso pelos quatro cantos do mundo, tal qual aconteceria com Bob Marley com relação ao reggae, já dentro do próprio esquema da Indústria Cultural, ele se apresentaria como uma versão peculiar desse gênero antilhano.
Ou seja, assim como o samba da Carmen Miranda era um simulacro de seu paradigma folclórico, o calipso que se tornou famoso através de canções como Banana Boat Song (popularizada por Belafonte) era uma versão ligeiramente estandartizada para o grande público.
Contudo, isso não significa dizer que músicos como Harry Belfonte quisessem criar um modelo anacrônico, tal qual a música pasteurizada dos filmes de Walt Disney ao retrataram a cultura “brasileira” para americano ver. Muito pelo contrário, Belafonte era e é um defensor dos Direitos Civis na América e, junto com gente como Pete Seeger (e os Weavers), e o Kingston Trio, foram figuras de proa no ressurgimento da música folk nos Estados Unidos.
Assim como ocorre com o reggae, que se tornou notório através dos Waillers, a música jamaicana possui um lado B de reputação menor contudo de qualidade similar, que é a maior parte da produção fonográfica típica dos anos 60, o rocksteady e o ska, por exemplo. No caso do calipso, existe o mainstream, que atingiu seu apogeu em meados dos anos 50, mas que sempre existiu em sua forma tradicional e primitiva, no Caribe.

Essa é a música de gente como Lord Invader, Might Sparrow, Lord Beginner ou Lord Kitchener que, assim como aconteceria com Marley, buscariam também fazer sucesso na América e na Inglaterra. Os dois últimos, por sinal,chegaram a gravar discos na Parlophone – no tempo em que essa subsidiária da EMI congregava um cast tão obscuro quanto excêntrico. O Serviço Mundial também cuidou de divulgar amiúde a música das colônias britânicas na Europa, desde as Bahamas até Índia, por exemplo.
Tanto a discografia (e a musicografia) desses ‘bambas’ da guarda velha’ do calipso é tão rica quanto inacessível, já que boa parte da produção fonográfica foi registrada em compactos e o seu resgate é um trabalho arqueológico. Aliás, a própria fama de um Harry Belafonte, ao ser comparada a dos três músicos citados juntos mostra que a relativa incúria com relação ao calipso de raiz é um problema endêmico e só não é hoje um fenômeno restrito ao carnaval de Trinidad porque a Internet consegue mostrar o calipso às novas gerações.
O sabor dessas músicas, principalmente de temas como My Pussin’, de Kitchener ou até a conhecida Don’t Touch Me Tomato, de George Symonette, que era uma espécie de Belafonte das Bahamas, e que influenciariam de forma seminal a música jamaicana, que do ponto de vista fonográfico, iria catalizar aquela pororoca musical.
Talvez tenha sido esse o paradoxo do calipso: a música caribenha seria revolucionária com Tito Puente ou Machito no sentido rítmico e de fusão com o jazz ‘pós bop’ enquanto o calipso, por um lado, que teve um caráter muito mais mainstream, por conta de Belafonte, da mesma forma como, através dele, permitiu que o mundo travasse conhecimento dos mestres da guarda velha do estilo, como Lord Burgess, o autor de Jamaica Farewell, Dolly Dawn e Hosanna (que aparecem no elepê Calipso, de Belafonte, e que vendeu mais de um milhão de cópias em 1956), ou fazendo releituras de cançonetas tradicionais, que resistiam na tradição oral na Jamaica ou em Port of Spain, por exemplo.
Ou seja, o calipso levou pelo menos uns quarenta anos para fazer sucesso da noite para o dia. Mas não deve esperar mais tanto tempo pra ser reintegrado ao patrimônio musical das Américas e do planeta.
Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.
Tropical Discotheque
Nos países hispânicos, sofrito é o famoso refogado, um standard da culinária mundial. Na Inglaterra, ganhou outro significado: é o lar da discoteca tropical. Pois é, não ficou muito claro. Formada pelos Dj’s Hugo Mendez e Frankie Francis em conjunto com o designer Lewis Heriz, Sofrito é uma equipe de som que promove festas, além de ser uma label. Totalmente voltada para os sons caribenhos, sul-americanos e africanos, buscam inspiração nas lendárias festas que rolavam na parte leste de Londres nos anos 80. Estas festas, aliás, ajudaram a moldar a cena jazz-funk londrina, culminando no nascimento do Acid Jazz na década seguinte.
Logo de cara, a Sofrito conquista o coração de qualquer um. A proposta de abordar sons tropicais não é tão original assim, mas as tracks prediletas dos Dj’s saem do usual. Compas, biguines, guaguancos e tumbelé de Guadalupe e Martinica, grooves da Colômbia e coisas não tão tocadas de Jamaica e Cuba. Há espaço, também, para tropical disco de Kid Creole e Africa 70. A receita é cavar fundo nos ritmos, o que rende viagens corriqueiras para estes países. Há algum tempo, inclusive, eles publicaram no site da label algumas fotos de uma visita a América do Sul, onde trouxeram centenas de compactos. É até difícil de acreditar como uns gringos perdidos conseguiram achar tanta coisa boa em nosso continente. Os achados rendem edits e remixes que são lançados em vinil, além de mixtapes que são disponibilizadas no site e servem de aperitivo para as festas e futuros lançamentos em disco.
Na parte visual, o selo inglês também surpreende. Lewis Heriz é responsável por toda a comunicação visual da label. Pôsters, o site, capas de discos, tudo com um cuidado e um capricho que te deixa ainda mais afim de gastar com os lançamentos e eventos promovidos por eles. A inspiração do designer provavelmente vem das capas das produções de highlife e música latina dos anos 70. Graças a estas referências, temos um material ríquíssimo criado por Lewis. Cores quentes, tipografia manuscrita e um encaixe perfeito entre proposta gráfica e musical. Dá até para arriscar e dizer que não se via algo tão bacana desde o que foi produzido visualmente pela Factory Records décadas atrás.
As festas ocorrem por Londres e toda a Inglaterra, mas os caras tem tocado por vários lugares da Europa. Além das discotecagens, artistas do naipe de Poets of Rhythm, o gênio Manu Dibango e Quantic Soul Orchestra já marcaram presença nos eventos da Sofrito. Quanto ao futuro, não tem como prever, mas a torcida é que consigam lançar novos artistas e algum visionário traga-os a América do Sul. Só que desta vez, para tocar. Agora, chega de papo. Deem um pulo no site da Sofrito, provalmente deve ter mais uma mixtape sensacional por lá.





