Hoje estréia um novo colaborador aqui na Action: Alessandro Atanes, da Revista Pausa. Amigo, jornalista e pesquisador da literatura, especialmente sobre o Porto de Santos, Atanes escreverá quinzenalmente para nós.
Machado de Assis escreveu uma vez sobre os ideais da crítica:
- Para que a crítica seja mestra, é preciso que seja imparcial – armada contra a insuficiência dos seus amigos, solícita pelo mérito dos seus adversários –, e neste ponto, a melhor lição que eu poderia apresentar aos olhos do crítico seria aquela expressão de Cícero, quando César mandava levantar as estátuas de Pompeu: “É levantando as estátuas do teu inimigo que tu consolidas as tuas próprias estátuas”.
Neste texto procuro exercitá-los.
Não é nada tão dramático como um adversário ou inimigo. É algo muito menos nobre, antipatia: não tinha vontade alguma de ler qualquer coisa do escritor Marcelo Mirisola, que esteve em janeiro na livraria Realejo para lançar Memórias da fauna finlandesa. Nas entrevistas que já vi e ao vê-lo em público não via qualquer graça no discurso mal criado, birrento e cheio de veneno da figura pública. Lendo os contos do livro, notei que literatura é o que ele escreve, e não o que diz. Ainda bem, porque “que se dane o autor”, numa citação que me parece correta do que ele disse lá na Tarrafa Literária, em setembro do ano passado.
Para mim a figura pública de Mirisola luta para tomar o posto de provocador de plantão num espaço vago que foi sendo desocupado com a decadência de Caetano e a morte de Paulo Francis. Mas creio que hoje, tempos escrotinhos, a briga seja dura. Devo acrescentar que me apresentei a Mirisola na livraria Realejo, e não me pareceu nada antipático. Fortaleceu-se então a impressão da artificialidade da persona das entrevistas. À literatura, então.
O discurso politicamente incorreto de propósito (que em entrevistas parece só para provocar), na escrita ganha graça e estilo. E o seu não é um texto com humor, é, sobretudo, um texto de humor (e não sou psicanalista para medir a porção involuntária disso – de novo: o que interessa é a literatura). Seus alvos são os atores sociais progressistas ou que já foram um dia, todos de alguma forma decadentes. Devemos dar crédito à coragem do cara.
O primeiro conto, Sobre os escombros da felicidade, dá o tom do que vem pelo livro todo: um casal de classe média alta do Rio de Janeiro que enriquece por meio de uma pet shop para cachorros de celebridades e afins. Quem narra é o marido:
- A loja era a cara da Bebel [a esposa], e uma vitrine do que a Zona Sul tinha de melhor a oferecer ao Rio de Janeiro. As pessoas queriam conhecer Bebel para conhecer a cidade. Aquela loja era o Leblon das novelas do Manoel Carlos. Depois da Bossa Nova, e apesar do caos social em que havíamos mergulhado, nosso Pet era só felicidade, era a esperança de que a cidade não turvaria, ficava bem na esquina da Ataulfo de Paiva com a Dias Ferreira. A loja era freqüentada por socialites, apresentadoras de televisão, gente de bem interessada em projetos sociais, negros e negras globais, jogadores de futebol e os filhos da estirpe mais nobre da nossa MPB.
Ponto alto do conto é a festa de aniversário de Thiaguinho, o cachorro de estimação do casal. Um dos principais convidados é Bidu, o cachorro de Verinha Loyola, além dos colegas de canil do Thiaguinho, “professoras de hidromotricidade e os veterinários, e os pais e as mães e os mestres, todos os nossos clientes”:
- Thiaguinho fez logo amizade com Bidu, e os dois se apresentaram ao piano (eles também andavam de skate). Verinha Loyola aplaudia nossas crianças extasiada. A editora de moda da Pet Petit e o pessoal do Canal Cão cobriam a festa igualmente deslumbrados.
O clima escrotinho se repete nos mais de vinte contos do livro, em títulos como Nunca mais o lixinho no biombo, Spagheti espiritual, Claudinha em volta do xibiu ou On the Road à parmegiana.
Ainda que não compartilhe das tiradas escrotinhas antipáticas de Mirisola, não posso deixar de notar como elas funcionam no texto escrito. Risadas garantidas.
Referência:
Marcelo Mirisola. Memórias da sauna finlandesa. São Paulo: Editora 34, 2009.



