Que fim levou o Calipso?


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O calipso é um ritmo que, a rigor, é um amálgama da canção européia com ritmos africanos de estirpe iorubá. Mas uma definição friamente enciclopédica desse tipo carece de precisão, ou melhor, de uma contextualizção à nossa realidade.

É mais fácil tentar entender esse gênero musical, que nasceu em Trinidad e, mais tarde, floresceu nas Antilhas e na Jamaica, se compararmos a sua evolução com a própria evolução do samba brasileiro, já que, de certa forma, além de uma relativa raiz comum, ambos sofreram um processo de misigenação na América Latina.

Decca cover - Harlem seen through calypso eyes !Assim como o samba, o calipso ganhou proeminência a partir da primeira metade do século passado, junto com o surgimento do disco. Como aconteceu aqui, os músicos de Trinidad reelaboraram um estilo musical nativo que se consolidou através de uma “velha guarda” da bambas que, antes de serem intérpretes, eram compositores.

Da mesma forma, os dois estilos foram “inaugurados” mais ou menos na mesma época: o calipso, em 1912, quando os Lovey’s String Band realizaram a sua primeira apresentação em Nova Iorque, o samba ganharia patente ao virar sucesso de Carnaval em 1917 com Pelo Telefone.

Ao mesmo tempo, o jazz ganhava proeminência nos Estados Unidos, fazendo o mesmo percurso de culturação entre a música creole de ascendência européia e o folclore africano dos escravos, a partir do Sul.

Podemos dizer que as semelhanças param por ali. O Jazz, a partir da década de 40 se sofisticaria, com o advento das big bands e da sua progressiva popularização pelo disco e massificação através do rádio, perlongando o percurso lógico da Indústria Cultural em entronizá-lo como produto comercial.

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Em contraponto, o jazz se sofisticaria, voltaria para o gueto e passaria a rejeitar a forma como acabou se tornando um estilo musical para “agradar aos brancos”, como muitos teóricos do be-bop passaram a diferenciar o jazz típico de músicos como Louis Armstrong, a despeito de todo o seu talento criador e revolucionário.

Da mesma forma, o samba ganharia a América em dois momentos: durante a época da chamada Política da Boa Vizinhança, quando a música brasileira interessava diplomática e ideologicamente às relações de poder dos Aliados. No segundo momento, com a ascensão da Bossa Nova e a sua fusão com o jazz, porém se notabilizando mais pelo seu caráter renovador no sentido harmônico do que no sentido exótico tutti frutti hat dos tempos da Carmen Miranda.

E o calipso? Ao contrário do ritmo brasileiro, ele ficaria restrito à América antilhana nos primeiros anos, e seria popularizado mais como música instrumental ou todavia com letras eminentemente folclóricas e, por conta disso, tinha, por conta dos ‘cantadores’ de calipso, um lado mais trovadoresco, em canções de protesto à política colonialista vigente (algo que não era alheio ao samba, também) e a invasor britânico. Porém, mesmo sem sofrer com o estro do nosso discricionário Estado Novo, muitos compositores eram perseguidos pela polícia inglesa.

Ou seja, muito antes do reggae, as raízes da música antilhana já encontravam uma matriz política nas letras, que versavam também sobre temas diversos, que iam da vertente de protesto até canções com referências veladas sobre violência e sexo.

Isso deve ser levado em consideração pelo fato de que, da mesma forma que o jazz passara com o tempo a questionar-se com relação à sua postura diante das desigualdades sociais e no seu papel de denúncia da realidade racial naqueles anos políticos, o calipso se tornou um ritmo mundialmente conhecido de forma mais eufemizada.

harry_belafonteNão que essa fosse a intenção, por exemplo, de músicos como Harry Belafonte que, a despeito de se tornar conhecido, e ao mesmo tempo propagar o calipso pelos quatro cantos do mundo, tal qual aconteceria com Bob Marley com relação ao reggae, já dentro do próprio esquema da Indústria Cultural, ele se apresentaria como uma versão peculiar desse gênero antilhano.

Ou seja, assim como o samba da Carmen Miranda era um simulacro de seu paradigma folclórico, o calipso que se tornou famoso através de canções como Banana Boat Song (popularizada por Belafonte) era uma versão ligeiramente estandartizada para o grande público.

Contudo, isso não significa dizer que músicos como Harry Belfonte quisessem criar um modelo anacrônico, tal qual a música pasteurizada dos filmes de Walt Disney ao retrataram a cultura “brasileira” para americano ver. Muito pelo contrário, Belafonte era e é um defensor dos Direitos Civis na América e, junto com gente como Pete Seeger (e os Weavers), e o Kingston Trio, foram figuras de proa no ressurgimento da música folk nos Estados Unidos.

Assim como ocorre com o reggae, que se tornou notório através dos Waillers, a música jamaicana possui um lado B de reputação menor contudo de qualidade similar, que é a maior parte da produção fonográfica típica dos anos 60, o rocksteady e o ska, por exemplo. No caso do calipso, existe o mainstream, que atingiu seu apogeu em meados dos anos 50, mas que sempre existiu em sua forma tradicional e primitiva, no Caribe.

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Essa é a música de gente como Lord Invader, Might Sparrow, Lord Beginner ou Lord Kitchener que, assim como aconteceria com Marley, buscariam também fazer sucesso na América e na Inglaterra. Os dois últimos, por sinal,chegaram a gravar discos na Parlophone – no tempo em que essa subsidiária da EMI congregava um cast tão obscuro quanto excêntrico. O Serviço Mundial também cuidou de divulgar amiúde a música das colônias britânicas na Europa, desde as Bahamas até Índia, por exemplo.

Tanto a discografia (e a musicografia) desses ‘bambas’ da guarda velha’ do calipso é tão rica quanto inacessível, já que boa parte da produção fonográfica foi registrada em compactos e o seu resgate é um trabalho arqueológico. Aliás, a própria fama de um Harry Belafonte, ao ser comparada a dos três músicos citados juntos mostra que a relativa incúria com relação ao calipso de raiz é um problema endêmico e só não é hoje um fenômeno restrito ao carnaval de Trinidad porque a Internet consegue mostrar o calipso às novas gerações.

O sabor dessas músicas, principalmente de temas como My Pussin’, de Kitchener ou até a conhecida Don’t Touch Me Tomato, de George Symonette, que era uma espécie de Belafonte das Bahamas, e que influenciariam de forma seminal a música jamaicana, que do ponto de vista fonográfico, iria catalizar aquela pororoca musical.

Talvez tenha sido esse o paradoxo do calipso: a música caribenha seria revolucionária com Tito Puente ou Machito no sentido rítmico e de fusão com o jazz ‘pós bop’ enquanto o calipso, por um lado, que teve um caráter muito mais mainstream, por conta de Belafonte, da mesma forma como, através dele, permitiu que o mundo travasse conhecimento dos mestres da guarda velha do estilo, como Lord Burgess, o autor de Jamaica Farewell, Dolly Dawn e Hosanna (que aparecem no elepê Calipso, de Belafonte, e que vendeu mais de um milhão de cópias em 1956), ou fazendo releituras de cançonetas tradicionais, que resistiam na tradição oral na Jamaica ou em Port of Spain, por exemplo.

Ou seja, o calipso levou pelo menos uns quarenta anos para fazer sucesso da noite para o dia. Mas não deve esperar mais tanto tempo pra ser reintegrado ao patrimônio musical das Américas e do planeta.

Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.