O taxi do Valladares

Era mais uma noite de pouco movimento para Valladares. Poucos precisavam de táxi em uma quarta-feira à noite em Santos. Homem honesto, filho de imigrantes hondurenhos, Valladares gostava de seu trabalho que mal dava pra sustentar a mulher e a filha. No passado foi um sujeito político, guerrilheiro, militante de esquerda, mas deixou tudo para viver no Brasil com a família.

A única saída que ele via em uma noite como essa era esperar a saída do Moby. Quarta-feira era dia de balada naquela casa noturna de frente para a praia, cheia de patizinhas e debilóides.

Uma dessas patricinhas se aproximou do carro de Valladares. Era bonita. Alta, cabelo comprido, mas cara de idiota. Moça de família. Provavelmente filha de um babaca, com um desses sobrenomes “importantes” da cidade, tipo Mansur ou Mendes. Não deu sorte de sair com nenhum playboy otário de carro e precisou tomar um táxi.

-    Ponta da Praia – disse ela – Avenida dos Bancários.
-    Tudo bem – ele respondeu. Provavelmente morava em um desses prédios novos, de péssimo gosto que infestavam a Ponta da Praia.

Valladares evitava falar muito para não perceberem que era um estrangeiro. Negro, passava por brasileiro facilmente. Porém, esquecia de esconder seus acessórios, como boné e chaveiro com foice e martelo e estrelas vermelhas, símbolos comunistas que assustavam muito mais.

Em vez de ir pela praia, que era o caminho que os taxistas geralmente faziam com a garota, ele preferiu ir por dentro.

-    O que está fazendo? Pra onde está indo? – ela perguntou.
-    Eu sei o que estou fazendo. É um atalho.
-    Mas todos vão pela praia. Por que você faz diferente?
-    Deixa comigo.

Valladares ia cortando pelas ruas de dentro da cidade, em direção a Ponta da Praia. A garota, no banco traseiro, ficava tensa. Apesar de conhecer bem as ruas de Santos, não fazia a mínima ideia do caminho que ele estrava fazendo e começava a ficar preocupada.

-    Você tem certeza que sabe?
-    É claro que tenho. Se quiser desça aqui.

Ela não disse nada. Permaneceu sentada no táxi, olhando pela janela, tentando adivinhar para onde estavam indo. Começava a suar e a ficar nervosa. Não acreditava no homem. Queria dar um jeito de sair daquele carro antes que fosse tarde demais.

Em um ato inesperado, abriu a porta do carro e pulou para fora. Rolou rua abaixo, se machucando toda. Valladares parou o táxi.

-    Que porra você tá fazendo? – ele gritava, enquanto saia do carro.

Sem saber direito o que fazer, ela apenas olhava para ele. Ainda sentada na rua, tirava com as mãos a sujeira de seu corpo.

Valladares também não sabia o que dizer.
Ela entrou novamente no carro.
Valladares dobrou mais duas esquinas e chegou na casa dela.

-    É aqui – ela disse.

Tirou o dinheiro da bolsa e estendeu para ele.

-    Não, obrigado. Eu não quero o seu dinheiro.

Ela insistiu.

-    Não.

Ela guardou o seu dinheiro na bolsa e saiu do carro envergonhada. Realmente ela morava em um desses prédios novos de péssimo gosto com a mamãe. Valladares esperou que ela entrasse em sua mansão de arquitetura horrível para dar a partida e ir embora para a sua casa.