Mais que navalha ou chapéu Panamá, mulher e bebida, maconha e macumba, o grande símbolo da maladragem, aquele que até hoje é ligado à imagem e ethos do sambista é o terno. Branco, de preferência, no caso do nosso.
A roupa tinha, e sempre teve, papel forte na constução da imagem da pessoa e na época de ouro do samba todos levavam essa coisa toda bem a sério – o malandro se reconhecia pela roupa e pelo andar. Bom de capoeira, o cara andava como o urubu malandro, com gingado; lenço no pescoço era indireta para capoeirista duro-na-queda, completando um visual de sapato bicolor e o terno branco, do boêmio frequentador da Lapa, que se opunha aos antigos sambistas de chapéu de palha e camisa listrada.
Como em outras culturas no mundo inteiro, desde as jaquetas dos teddyboys e as Doc Martens dos bootboys, as roupas tinham uma função que superava a estética – a seda fazia a navalha deslizar, evitando uma possível degola do precavido que usava o lenço. Como os cadarços dos skinheads dos anos 70 e as cores de gangues americanas atuais, os chapéus, sempre na mão esquerda durante o conflito, deviam ostentar uma fita com a cor de sua nação da capoeira, identificando-o como de determinada malta. Malta eram grupos com, inclusive, limitações geográficas de acordo com bairros cariocas, como as maltas Flor da Gente, que era da Glória, e Lança, do Campo da Aclamação. Estas eram divididas em duas nações, Nagoas e Guaiamus. O Recife também teve suas facções da capoeira, mas limitando-se quanto ao ritmo, de militares e eram o Partido do 4o, ou Banha Cheirosa, e partido Hespanha, os Cabeças Secas.
Voltando ao terno, uma das anedotas mais bacanas do samba foi com Noel Rosa; sua mãe, para impedí-lo de sair, jogou fora o terno do sambista. Daí ele criou a música Com que roupa?, que justamente fala da agonia de sair sem a indumentária certa. Além dele, há a mulher-maldição da canção Chave de Cadeia, do paulista Moreira da Silva, que canta “Aquele terno branco/que eu dei duro pra fazer/você botou no prego/ e a cautela foi vender”. O valor, não só como símbolo, mas material mesmo, é o suficiente pra dar um pé na bunda da mulher.
Há quem diga que tinha de ser branco como uma forma de se vestir anti-stablishment, contra a sobriedade e a autoridade da aristocracia, que vestia preto, se opondo até na roupa ao pensamento dos graúdos. Já no jazz e blues, os músicos negros usavam o terno, preto mesmo, como forma de se impor, forma de dizer que estava ao mesmo pé que os brancos que tanto os oprimiram poucas décadas antes. Nos anos 60, os mods viam um terno bem alinhado como capricho, garbo, se opondo ao grupo rival da época, os Teddy Boys, que geralmente andavam desleixados. De qualquer modo, o branco do terno do Zé Pilintra é só nosso, um visual acompanhado de um código de conduta e razões práticas que é um produto tão brasileiro que sobrevive até hoje na psique nacional.




