Já faz um bom tempo que Espanha e Portugal vêm revelando uma série de bandas voltadas para a música negra. O fenômeno é uma das surpresas dos últimos anos, fortifica e dá um gás na cena, que cada vez mais traz nomes das mais diversas partes do globo.
A paixão dos espanhóis pelos sons black pode ser entendida através da Movida Madrileña e dos mods. Nos anos 70 e 80, a capital Madrid mergulhou no frenesi gerado pelo fim da ditadura franquista e a Movida Madrileña encontrou terreno para crescer pelo país. Fazendo parte de um movimento rico culturalmente, com gente envolvida com música, cinema, literatura e outras áreas, foi meio que inevitável que algumas subculturas não desembarcassem na Espanha. O mod, cena que nasceu na Inglaterra e com forte base na música negra, foi um exemplo disto. É aí que as coisas se amarram.
Uma coisa empurrou a outra. A Movida abriu os olhos do pessoal para o que acontecia no mundo e o mod direcionou tudo isto para a música negra. Mesmo naquela época, o Kamembert, banda de soul de Barcelona, foi um bom exemplo deste fenômeno. Porém, demorou alguns bons anos para que a coisa toda se desenvolvesse.
A geração que hoje em dia faz parte de bandas como os soulies do Al Supersonic & The Teenagers e dos Faith Keepers, dos grupos de reggae Los Granadians e Pepper Pots, o rocksteady do Red Soul Community e até mesmo o disco do grupo Wondertronix, é a moçadinha que viveu ainda moleque aquele período e hoje traz uma sonoridade bacana. A coisa está tão em alta pela região que o país conta com festivais específicos de música negra como o de Girona e categorias em importantes prêmios musicais espanhóis como Pop-Eye.
Já em Portugal, que também sofreu com a ditadura e conseguiu voltar a democracia mais ou mesmo na mesma época da Espanha, a história é bem diferente, mas com um final semelhante. Os tugas não tiveram movimentos com a mesma magnitude da Movida, mas graças a uma importante concentração de imigrantes da África lusófona, a cena também vem crescendo.
O Buraka Som Sistema, surgido há seis anos, faz uma versão renovada do kuduro angolano e conta comintegrantes do país
africano. Mesma coisa acontece com o Cacique’97, banda de afrobeat que mistura ritmos de Moçambique e com moçambicanos no lineup. No rap, a coisa se repete. Surgido nos guetos portugueses nos anos 80, o estilo sempre dialogou com os imigrantes moradores dos bairros periféricos da capital e interior do país. E foi natural que gente como o rapper NBC e o duo Expensive Soul, que faz uma inédita mistura de rap com soul, aparecessem.
Infelizmente, as barreiras do idioma e até mesmo do lugar de onde elas vêm, impedem que eles e mais um monte de grupos de black music ibéricos consigam o mesmo peso de uma Amy Winehouse ou de um Mayer Hawthorne. Uma grande bobagem, diga-se de passagem. Contudo, isto não parece ser motivo para que estes talentosos músicos deixem de produzir e que coisas novas e boas apareçam. Como o Al dos Teenagers nos disse na entrevista, os rapazes estão com muita vontade – adicionalmente à coragem, as duas grandes qualidades dos músicos que vivem sem aspirar solamente la plata. E é com este espírito, com muita gana e talento, que espanhóis e portugueses provam a que vieram.




