Especial – James Brown: uma noite no Apollo – Parte 1

por Marcelo Xavier

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Prá começo de conversa

O Apollo Theatre, localizado no Harlem, em Nova Iorque, foi o coração musical de um movimento social negro urbano a partir do começo do século XX.

Apesar de estar associado à artistas negros, sua origem é diversa: quando o local foi fundado, em 1914, era apenas um teatro de variedades, frequentado pelo público branco do local.

A mudança aconteceria no pós-guerra, quatro anos depois: com o surgimento de grandes fábricas nas principais metrópoles americanas e a escassez de mão de obra, grande parte da população rural sulista migrou para cidades como Chicago e Nova Iorque.

Boa parte dessa nova classe se instalaria no Harlem e, diante de uma nova realidade urbana e adversa, de um país que havia recém abolido a escravidão mas que não abolira o racismo, eles passaram a questionar o seu papel e a sua importância na sociedade morderna.

Foi quando surgiram intelectuais negros, como James Weldon Johnson, Langston Hughes e Charles McKay. Eles defendiam a importância da sua raça como parte constituinte daquele pais em marcha, e rejeitava todos os estereótipos atribuídos a eles, e estandartizados culturalmente através dos Minnistrels, onde o negro era ridicularizado em teatros de revista.

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A Renascença do Harlem

Agora libertos, eles exigem igualdade social e participação política. Como no sul, nada havia mudado, a saída foi migrar para o norte. E muitos que formariam aquela geração da chamada Renascença do Harlem eram descendentes de escravos ou habitantes dos estados sulistas onde, a despeito da abolição da escravatura, nada havia mudado.

Claro que o problema racial não mudara nem nas grandes metrópoles, onde a concorrência era desenfreada e o marcado de trabalho para os negros era restrito.

Por conta disso, o bairro nova-iorquino acabou catalisando uma parcela considerável de negros que, capitaneados por intelectuais e músicos, criaram um movimento político que se transformaria também numa bandeira cultural. O maior monumento vivo daqueles anos da Renascença do Harlem é o Apollo.

Fundado em janeiro de 1914, depois de passar por vários donos, acabou se tornando um grande espaço cultural onde vários expoentes do movimento do Harlem puderam tanto expressar-se quanto lançar as suas carreiras. No entanto, ele nascera “branco”. Era apenas mais um teatro de variedades da cidade.

Contudo, com a formação de um gueto negro em pleno Harlem e devido ao fato de que muitas outras casas de espetáculo, (mesmo as que prestigiavam o jazz) eram restritivos com relação à artistas de cor (como se sabe, havia uma integração autoral e musical entre artistas negros e brancos nos bastidores do jazz, mas isso era restrito ao público em geral. Um exemplo é Bix Beiderbeke, que nunca pôde dividir o mesmo palco com seu ídolo, Louis Armstrong).

Somado ao fato de que, por conta disso, o cachê “negro” era mais barato e o espaço restrito, com o tempo, o Apollo acabou se formando a Meca do Afro-american way of life nova-iorquino. Sob a direção de Frank Shiffman e Leo Brecher, o teatro passou a apresentar revistas de assuntos variados, incluindo shows de calouros, noites de jazz e espetáculos beneficentes.

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Mudanças

Pois foi durante o segundo período da chamada Renascença do Harlem que a casa se transformou na plataforma de lançamentos de grandes nomes da música negra, desde o jazz e o blues até o nascente soul, a partir de meados dos anos 50. A lista é incontável, indo de Sarah Vaughn até Bem E King, Marvin Gaye e Sam Cooke, entre outros.

Com o advento do rock, alguns artistas brancos desbravariam o palco sagrado do Apollo: o primeiro foi Dale Hawkins, embora a tradição repute essa primazia à Buddy Holly, como inclusive fora retratado em sua cinebiografia.

Contudo, ao contrário do que aparece no filme, houve uma certa resistência à contratar artistas brancos no teatro, já que vivia-se uma época dividida nos Estados Unidos em termos de democracia racial e a polêmica envolvendo o célebre boicote da companhia Montgomery de ônibus, cuja célula de crise foi uma acusação de racismo contra Rosa Parks, que se tornaria símbolo da luta contra as Jim Crow Laws na América, a partir de 1955. Hawkins se apresentou naquele calor da hora, pouco menos de um ano depois do episódio.

Marcelo Xavier tem 36 anos e é jornalista em Porto Alegre.