
O rap latino-americano vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos tempos. Da chilena Ana Tijoux ao Orishas, o estilo traz não só o sotaque espanhol, mas ritmos regionais e as idiossincrasias do continente. O Uruguai aos poucos tenta entrar nesse mapa e vem revelando alguns artistas interessantes. Um deles é o La Teja Pride, maior nome do hip hop de lá. Nascido em meio a dificuldades econômicas de uma pequena nação cercada de potências, já está no seu quarto álbum e atualmente no estúdio para o quinto. Fãs do grupo, entramos em contato com Leonard, um dos MC’s, que respondeu-nos sobre a história do La Teja e o panorama da cena.
1) Como é a cena hip hop uruguaia?
A cena de hip hop uruguaia é pequena, mas dinâmica. Nela encontramos grupos que se caracterizam pelo hardcore clássico como Dostrescinco, até outras que mesclam o candombe local com o hip hop. O candombe é um ritmo que deriva da percurssão africana com tempos que se desenvolveu localmente. Além da diversidade de bandas, deve-se agregar vários coletivos de grafiteiros, que transformaram em telas de pintura os antes cinzentos muros da cidade. Também, e principalmente, nos arredores da cidade, florescem muitos coletivos de breakdance. A debilidade da cena é a promoção de si e toda a parte de produção. Boa parte disso tudo segue se movendo de uma forma muito amadora.
2) Quais as maiores influências do grupo, dentro e fora do hip hop?
A banda tem muitíssimas influências, tanto na música como nas letras. Desta última não só estão escritores, como artistas de outras disciplinas que inspiram com sua arte, sua proposta e sua política. Musicalmente as influências vão desde o rap até eletrônico, reggae e o folk local. Tratando de ser concisos, esta seria a lista: Dj Shadow, Solo Los Solo, The Beatnuts, Dead Prez, Portishead, Massive Attack, Contra las Cuerdas, Doble V, Alfredo Zitarrosa, Mos Def, Tremendo, Mala Rodriguez, Cucarachas Sound System, George Orwell, Antonio Gramsci, Tony Cliff, Michael Foucault, Aldous Huxley, Pierre Bourdieu, Henry Miller, Julio Cortazar, Eric Hobsbawn, Greenpeace, Common, Erykah Badu, Outkast, RJD2, Funkdoobiest, The Roots, Strange Fruit Project, Tote King, Run DMC, Public Enemy, Mc Solaar, Chemical Brothers, Audio Bullys, Depeche Mode, Manu Chao, The Clash, The Smiths, The Doors, Dilated People, John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker, Otis Redding, Marvin Gaye, James Brown, Bob Marley, Peter Tosh, Mentenguerra, Extremoduro, Linton Kwesi Johnson, Mad Profesor, Woody Guthrie, Bob Dylan, Jovanotti, Jurassic 5, Dj Premier, Gangstar, Guru Jazzmatazz, Stanley Kubrick, Ken Loach, Calle 13, Underworld, Medeski Martin & Wood, Kruder & Dorfmeister, Faithless, Los Fabulosos Cadillacs, Andres Calamaro, Deep Forest, Cut Chemist, The Crystal Method, Bjork, Charles Mingus, Banksy, Dr. Hoffman, Jorge Drexler, Vinicius, Ruben Rada, Jamiroquai, Mauricio Ubal, Fernando Cabrera, Stereo Mc´s, Daniel Viglietti, Pareceres, Sabalero, Tego Calderon, Black Roots, B Real, Cypress Hill, Tha Mexakinz, Control Machete, etc…
3) La Teja é um bairro operário em Montevidéu, como é a relação do grupo com o bairro? Torcem para o Club Atlético Progreso?
A banda nasceu no bairro de La Teja há 14 anos. Seus membros eram adolescentes em um bairro que se caracterizou pela forte extração de mão de obra. Todavia, a realidade econômica estava mudando, o país estava sumido no neoliberalismo e as fábricas fechavam. Neste contexto, o bairro sofria com uma alta taxa de desemprego. Desde o começo, os membros da banda começaram a compor com o que tinham em mãos. Primeiro, com um velho computador Commodore A1200 e um sampler de 8 bits, onde compuseram e gravaram sua primeira demo. O tempo foi passando, o bairro se converteu na cidade, alguns membros da banda foram se mudando e outros vieram de outros bairros. Mas o nome da banda seguiu mantendo o orgulho do começo. Hoje em dia, no bairro, vivem os pais de dois membros do grupo. E sim, o Davich, nosso vocalista, é fanático pelo Progreso.
4) No Brasil, é mais comum vermos músicas com samples de música brasileira do que a música gringa. E no Uruguai, como é?
Não é tão comum, na realidade. Mas sim em referências nos textos a outros artistas uruguaios, tanto escritores como cantores populares.
5) O La Teja conta com um integrante mulher. Como funciona isso em um grupo majoritamente composto por homens? Como é o papel da mulher na cena hip hop uruguaia?
A mulher é mais um na banda, não pensamos tanto na relação do gênero de cada um, e sim nas individualidades e no coletivo. Na banda, cada um colabora com o seu para enriquecer o trabalho coletivo. O trabalho em equipe, o anti machismo e anti homofobia são algo construtivo para o grupo. Os ideais de igualdade não se discutem, se praticam.
Já faz tempo que a mulher brotou na cena. Apesar do sistema patriarcal, dos preconceitos, construíram um lugar próprio e conquistaram o direito do voto e de se divorciar. E isto não é pouco. No hip hop acontece o mesmo, o machismo está em retirada e isso não é por sorte. Isto se dá porque as mulheres já sabem que são possuidoras dos mesmos direitos que os homens e quando não as deixam gozá-los, há que se lutar para obtê-los
6) Ao entrar no site do La Teja, vemos uma boa quantidade de livros para leitura online, de Charles Darwin a Cortazar. Qual é a razão para terem feito uma área só para isto?
A melhor explicação para isso é a que colocamos no site: “o meio nos impacta, nos influe”. Entretanto, a forma que vemos não é apenas responsabilidade dos olhos. Não somos tábula rasa, nossa experiência anterior é crucial na hora de interpretar o entorno, de compreender as influências externas, como nos entendemos, como nos resignificamos e devolvemos ao exterior. Quando dizemos experiência, não é só experiência direta, aprendemos de coisas que nos contam, que escutamos da boca dos outros, do rádio, da TV e do que lemos. Estas experiências mediadas enriquecem muito nossa experiência vivida. Em parte é por isto que decidimos compartilhar alguns livros (além da música). A seleção é bastante caótica e não segue ordem estabelecida. Muitos deles influenciam em algum trecho de letra do La Teja Pride, outros não. Mas sem dúvida, todos eles influiram ao menos em algum de nós a como ver o de fora cada vez que se abre os olhos.
7) O disco de vinil ainda continua forte no mundo inteiro. Inclusive, aqui no Brasil, uma antiga fábrica que havia fechado as portas, voltou e está produzindo. E no Uruguai, como é a cultura do vinil?
Aqui não há fabrica de vinis, para conseguir tem que trazer de fora. A Argentina está muito perto, Buenos Aires está somente a 300km de Montevideo. O que existe é um mercado de discos usados em feiras e lojas antigas.
8) O Uruguai é um país pequeno, tanto na geografia como em número de habitantes. Qual dificuldade o MC encontra em início de carreira? Existem selos uruguaios dedicados ao hip hop?
É muito complexo. Para começar, não há selos especializados, existem selos de música nacional especializados em rock e pop. O lugar tem que ser construído, mas normalmente a maioria de nós vive de outros trabalhos. Os selos com os quais se pode assinar não são específicos de rap, então tens que dar credibilidade não só a sua arte, mas a seu estilo.
La Teja Pride em 1999. O começo de tudo.
9) Escutam algo da música brasileira e do rap feito aqui? O que mais gostam?
Marcelo D2, Dom Negrone e MV Bill, estes três nos encantam.
10) Como surgiu a parceria com a brasileira Luísa Pereira?
Tínhamos um ritmo que por essas casualidades terminou soando muito brasileiro. Foi quase casualidade, experimentando com elementos percusivos terminamos em Brasil e bem, um amigo a conhecia, ela vive aqui há algum tempo e a chamamos. Não só colaborou apenas com sua voz, mas com a guitarra na canção. Ficamos muito felizes com os resultados finais.
11) Que Mc’s e grupos uruguaios indicam a nossos leitores?
Santi e Contra las Cuerdas são nossos artistas locais de cabeceira.
12) Por fim, abrimos espaço para que deixem alguma mensagem para o público brasileiro.
Esperamos poder ir logo e mostrar nossa música por este bonito e enorme país que é o Brasil.
Créditos das imagens ao flickr do La Teja Pride e a Libertinus.



