
Na última mixtape do ano na Action, inspirados pelo calor que está aqui na Baixada, chegamos chegando no paradisíaco Havaí e sua exótica e pouco conhecida cena black dos 70/80′s. Só que desta vez, resolvemos fazer diferente. Entramos em contato com o Aloha Got Soul, um dos nossos blogs de música favoritos, voltado para este tipo de som para entrevistar seu autor, Roger Bong.
Gente finíssima, o cara prontamente nos atendeu e além de enviar alguma de suas raridades respondeu uma informativa entrevista a respeito do que rolava musicalmente na ilha nos tempos em que o soul, funk, disco e jazz bombavam pelas rádios. Roger, além de manter o Aloha, está com um projeto junto com a streetwear local Fitted. Juntos, irão lançar uma camiseta temática e CD repleto de pedradas havaianas. Demais! O lançamento tá previsto para o começo de 2012, por isso, fiquem ligados.
Sobre a mixtape, entre as tracks escolhidas, não tem como não destacar Mackey Feary, maior nome do soul/funk havaiano. Em Catherine, uma levada mais pausada, Powerslide prima pelo quase jazz fusion que se torna da metade para o fim. Já o Kalapana, grupo que inclusive foi parceiro de Mackey e fez parte da coletânea Homegrown, com destaques da cena local, cancões quase caindo no pop-rock suave do AOR/West Coast, sem perder o groove. Do lado feminino, a linda Nohelany Cypriano nos presenteia com uma voz marcante e refrão falado na lingua local, imperdível! Ainda nos grupos, talvez o mais conhecido para o pessoal de fora da ilha, o Lemuria, presente também em duas tracks com pegadas bem diferentes. Uma delas com presença de Sharon Terea Robinson ainda nova nos vocais, num soul lento que poderia ser facilmente confundido com o r&b contemporâneo de Erykah Badu e Jill Scott. Pelo lado do jazz, Gabe Baltazar e Brother Noland & Solbrea nos trazem números interessantes. Baltazar com Makaha Surf, com arranjos bem malandros e uma flauta que dá o tom da track. Já Noland & Solbrea diminuem a velocidade com uma performance no idioma da ilha em Kona Kai Opua. Agora, deixemos de papo, escutem(e baixem!) a mixtape e acompanhe esta sensacional entrevista com Roger Bong!
Para baixar a mixtape, clique aqui
Tracklist
1) Music Magic – Let’s get it together
2) Seawind – Hold on to love
3) Brandon Bay – Hoapili
4) Kalapana – The Hurt
5) Nohelani Cypriano – O’Kailua
6) Lemuria feat Sharon Terea Robinson – Pretty bird
7) Lil Albert – Movin’ in
8) Mackey Feary Band – Catherine
9) Aura – Winds of Love
10) Billy Kaui – Empty
11) Lemuria – Somebody’s talkin’
12) Kalapana – Rainy day
13) Mackey Feary Band – Powerslide
14) Rob Mehl – House on the rock
15) Babadu – Words to a song
16) Brother Noland & Solbrea – Kona Kai Opua
17) Aura – Stop
18) Gabe Baltazar – Makaha Surf
Entrevista com Roger Bong do blog Aloha Got Soul
1) No blog, você comenta que começou o Aloha Got Soul depois que escutou a mixtape do Dj Muro. Conte-nos um pouco sobre você e sua paixão pela música negra do Havaí.
Me mudei pro Hawaii em 1995 quando eu tinha cerca de 8 anos. O estilo de vida da ilha fez parte de mim durante toda minha infância e adolescência. Em 2004, um amigo trouxe os discos de sua tia para minha casa e começamos a samplear músicas e criar beats. Com 16, viciei-me em comprar discos e sampleava tudo que conseguia pegar, de Jackie Gleason a James Brown. Com o tempo, comecei a procurar especificamente por jazz, bossa nova, prog rock, funk – montando minha coleção de música com uma pegada soulful, apesar de não ter idéia de que havia sons funk/soul havaianos. Na realidade, emprestei o disco de estréia da Mackey Feary Band de outro amigo, e adorei. Toquei “A Million Stars” no repeat por semanas. Mas isso não foi o estopim para procurar por mais música local. Eu honestamente não me importava muito com música havaiana na época, não estava interessado para saber mais do que o que estava sendo tocado na rádio.
Em 2006, fui para a universidade, na área continental. Conforme os anos passaram, comecei a sentir falta do Hawaii cada vez mais. Então, em alguma hora de 2010, ouvi o mix do DJ Muro, Hawaiian Breaks. Fiquei embasbacado! Quando “A Million Stars” tocou, eu imediatamente reconheci a voz do Mackey e lembrei de tocar essa música no repeat anos atrás. Com aquela única canção a semente que tanto esperou tanto para crescer finalmente germinou, e minha paixão pelo jazz/funk/soul havaiano nasceu.
2) Como a cena black havaiana começou? Sabemos do alcance e impacto da música negra americana no mundo, mas no Havaí, especialmente para nós de fora dos EUA, é desconhecido. Aparentemente, pela distância e influência da cultura japonesa e polinésia, é fantástico como esses ritmos penetraram pela ilha.
Eu sei que isto não é romântico como você espera, mas o Hawaii é como qualquer outro lugar nos EUA. Temos o mesmo acesso a tendências musicais, e até bandas da época, como Earth Wind & Fire, se tornaram popular no Hawaii no mesmo momento que no resto do país. Há, também, outros fatores. As pessoas estão sempre vindo para o Hawaii, e aposto que muitos que se mudaram para cá trouxeram consigo seus discos e conhecimento. E tem a cena biz de shows Waikiki, onde locais tocam música popular para entreter turistas. Sem dúvida muitos artistas estavam aprendendo canções populares da época, como Stevie Wonder, Burt Bacharach ou Marvin Gaye. Um grande exemplo é o Society of Seven.
Outra razão que as pessoas não conhecem muito da música funk e soul havaiana é que artistas locais dificlmente conseguem exposição fora das ilhas, então a cena musical continua se perpetuando como um mistério para a maior parte das pessoas fora do Hawaii.
Claro, os artistas têm a vantagem de poder adicionar influências caseiras tropicais e asiáticas à música negra, por isso que os sons negros havaianos têm uma pegada mais relax, na minha opinião. Contudo, acho que os locais só queriam festa! E tem coisa melhor pra curtir naquela época do funk, disco ou soul? O alcance e impacto da black music nos anos 70 e começo de 80 não pularam o Hawaii, na realidade o acertaram em cheio!
3) Qual a importância na cena de Ron Jacobs e o selo Kkhua Records, de sua propriedade? Havia outras labels locais que lançavam música negra de artistas havaianos?
Ele foi um dos DJs mais conhecidos do Hawaii da época. Ele ainda tem transmissões e blogs no whodaguyhawaii.com. Eu acho que a série Home Grown da KKUA foi o primeiro esforço maciço para mostrar talentos novos no Hawaii, e um dos seus maiores sucessos é Nohelani Cypriano. Ela toca até hoje a “Lihue”!
Por cima, selos locais que lançaram música notável incluem Paradise, Silvercloud, Shell, Heaven e Rainbow. Também tinham muitos lançamentos privados dos selos com música boa. Contudo, devo estar esquecendo algo, provavelmente.
4) A lingua havaiana recebeu alguma atenção dos músicos? Alguma canção que você pode destacar?
A maioria dos residentes do Hawaii não falam havaiano fluente. Muita gente conhece palavras como aloha, mahalo, mauka (montanha), malama (respeito), então você vai achar mais artistas contemporâneos usando frases curtas do que músicas inteiras em havaiano. Mas há artistas que se destacam para mim, como Brandon Bray, Chucky Boy Chock e Brother Noland. A “Ho’opili”, do Brandon, creio ter sido feito cover por outro músico recentemente. Preciso checar isso. A família dele foi influente e creito que seu tio, ou avô, foi um famoso kumu (professor). O LP “Paint the Island”, do Brother Noland, foi uma mistura perfeita de músicas de língua inglesa e havaiana com uma pegada jazz e soul. Amo sua track “Le Ahi (The Diamond Head Song)”. E Chucky Boy Chock é um dos meu favoritos, trazendo uma perspectiva original à música contemporânea havaiana ao misturar sons urbanos e composições tradicionais.
5) Por que a cena recebeu tão pouca atenção das pessoas com tanta qualidade na música criada?
Estamos presos numa ilha! Haha. Pouca gente olha pro Hawaii como mais do que um destino turístico, então ninguém espera ouvir música havaiana além dos ukuleles e steel guitars. Mas fora o Aloha Got Soul, não há outros sites como ele por aí, então torço para que meus esforços tragam mais da merecida atenção à cena. O Hawaii criou alguns dos melhores músicos do planete, seja de funk, soul ou folk tradicional da ilha, e esses artistas precisam ser reconhecidos fora do Hawaii.
6) Mackey Feary é uma instituição na música havaiana. Você pode comentar a importância dele na música da ilha?
Mackey, todo mundo conhece a música dele por aqui. Ele é um dos maiores do Hawaii, o mais talentoso compositor, uma lenda. Pode-se dizer que Mackey é para o Hawaii o que Tom Jobim é para o Brasil. Quando estreou a banda Kalapana, ele construíram um balanço perfeito de sons contemporâneos e estilo de vida da ilha. “The Hurt” foi, e ainda é, uma das músicas mais populares, e foi seu primeiro grande hit. Kalapana deu à música havaiana a sonoridade fresca que precisava no mundo moderno, e isso não seria possível sem Mackey. Sua música era frágil e acolhedora, chiclete mas não boba, honesta mas ainda assim escondendo algo.
Infelizmente o vício em drogas do Mackey lhe trouxe muita encrenca. Ele se suicidou em 1999. O povo havaiano ficou tão entristecido, os corações afundaram. Sua música enchia as almas de todos aqui e do mundo, seu legado vai perdurar muito tempo.
7) No meio dos anos 80, a cena parou de produzir como nos anos anteriores. Houve alguma razão para isto?
As tendências mudaram, gostos mudaram, o tempo não parou. Donos de boate começaram a contratar DJs ao invés de bandas ao vivo – era bem mais barato chamar um cara do que cinco. Com isso, creio que muitos dos grupos de funk e soul viram esta mudança como um sinal para desencanar, já que cada vez mais tinha menos trabalho, então era a hora de começar a pensar numa carreira. Alguns dos músicos que estão se reunidos nestes últimos anos não tocavam há décadas.
Também, o Hawaii começou a abraçar o reggae nessa época, que evoluiu na música Jawaiaan, que acho que teve seu pico nos anos 90. Tomara que a música funk e soul encontre seu caminho de voltar à cena musical popular do Hawaii.
8) Existem outros artistas que continuam o legado de Mackey Feary, Vic Malo e outras lendas da música havaiana?
Não que eu conheça. A maior parte do que escuto atualmente é similar ao do resto da América: hip hop, eletrônico, indie. E, honestamente, além de Mackey Feary, não creio que muitos dos artistas atuais conheçam Vic Malo, Lemuria, Phase VII, Aura, Music Magic e outros. Pra isso existe o Aloha Got Soul, para que a música não se perca.
9) Você gostaria de comentar sobre algo que não perguntamos, mas é importante nossos leitores saberem?
Estou colaborando com uma companhia de streetwear local chamada Fitted. Vamos lançar uma camiseta e um CD mix no começo de 2012, então fiquem ligados para o primeiro grande projeto do Aloha Got Soul! Aloha do Hawaii, obrigado!




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