Califórnia Brasileira

Luiz Fernando estava animado para o show daquela tarde de domingo na Concha Acústica em frente ao canal 3. Tinha retornado recentemente para Santos, depois de ser mandado embora do trabalho que tinha em São Paulo. Deu mancada das grandes, xingou toda a classe de arquitetos publicamente e provavelmente não teria moral de ser contratado por algum escritório de arquitetura tão cedo. Por um lado estava abalado, mas por outro estava feliz de estar de volta à sua cidade. Vivia na capital apenas pela questão financeira e como trabalhava também aos sábados, raramente podia visitar o seu mar tão querido. Obviamente não estava tão contente em ter que voltar a morar com o pai, mas ainda era jovem e tinha a vida inteira pela frente.

Nenhum amigo quis sair naquela tarde e resolveu ir sozinho à Concha. Estava ansioso para ver o show do Garage Fuzz, banda que começava a se destacar na época. Santos ganhava a fama de Califórnia Brasileira pelo número enorme de bandas de hardcore que os skatistas e surfistas da cidade adoravam. Luiz Fernando botou a sua camisa do Ramones e foi em busca de novas amizades (afinal de contas, estava precisando neste período de readaptação à cidade).

O clima do show estava ótimo (a combinação sol + hardcore + praia + mar era um verdadeiro sonho) e Luiz Fernando acabou conhecendo uma garota ali. Seu nome era Renata e era lindíssima, uma verdadeira princesa do hardcore com seus piercings e tattoos.

Eu adoro Ramones – assim ela puxou papo com ele. E a conversa terminou em beijos intermináveis nos bancos da praia. Ficaram lá até escurecer. Os shows acabaram, todos foram pra casa e os dois continuavam lá. Conversavam sobre Ramones, Clash, Johnny Thunders, Fugazi, Garage Fuzz e todas as bandas em comum que curtiam.

Duas semanas depois estavam namorando.

Luiz Fernando era louco por ela. Buscava os CDs mais raros e as camisetas de bandas mais obscuras na loja do Fera para presenteá-la. Renata adorava os seus mimos. A cada dia que passava ela ficava mais apaixonada por Luizinho (como começou a chamá-lo). Como os dois estavam desempregados e vivendo com os pais, passavam as tardes surfando, fumando e ouvindo Nofx e Bikini Kill no quarto dele. Escreviam músicas juntos, assistiam a vídeos de skate, faziam planos para o futuro e nunca cansavam.

Algum tempo depois, Luiz Fernando conseguiu um trabalho como empacotador em um supermercado perto de sua casa. Parecia uma humilhação perto de seu antigo trabalho, que lhe pagava uma fortuna e dava (ou pelo menos ele achava que dava) estabilidade financeira. Mas ele não ligava. A mixaria que ganhava era suficiente para tomar uma cerveja nos fins de semana com Renata e seus amigos.

Renata também conseguiu um trabalho. Era uma espécie de guia no Orquidário. Não era difícil – a maior parte do tempo só precisava dar informações aos visitantes do parque, indicando onde os pavões costumavam passear e coisas do tipo. Assim como Luiz Fernando, ganhava pouco, mas era suficiente para também comprar presentinhos para ele.

Tudo ia bem na vida do casal até o dia em que Luiz Fernando recebeu um telefonema com uma proposta de emprego tentadora. A proposta vinha de uma empresa de São Paulo para a qual tinha enviado um currículo há alguns meses. Nem se lembrava mais disso. Um amigo de Luizinho que trabalhava na empresa havia feito a ligação. Dizia que necessitavam de alguém urgente. Ele precisava apenas ir fazer uma entrevista, mas sua contratação era praticamente certa. O dinheiro que receberia daria para sustentar Renata e mais 10 filhos (caso algum dia viessem a ter filhos). Único porém: Trocar a costa pela capital.

Naquela noite, Renata foi buscá-lo no supermercado às 10. Mal se abraçaram e ele já abriu o sorriso para contar a novidade. Estava tão animado com tudo que nem reparou na cara de sua namorada: um misto de tristeza e desesperança. Depois de contar tudo, um silêncio.

O que foi? – ele perguntou.

Eu não quero ir pra São Paulo.

Como assim?

Não quero.

Mas você ouviu o que eu disse? Nós vamos ter uma vida tranquila, sem precisar nos preocuparmos com grana. Poderemos ter um apartamento grande. Ter filhos. Ter um carro.

Eu não quero ter um carro pra ficar presa o dia inteiro naquele trânsito horrível.

A gente vai poder passear de metrô.

O metrô só tem viciados e traficantes.

Ir beber na rua Augusta.

Lá só tem bicha e cheirador.

Vamos poder ver os melhores shows de hardcore toda semana.

Mas não na Concha, pisando na areia e sentindo a brisa do mar.

Renata, não seja assim…

É a verdade! Não tem praia. Não dá. Prefiro passar a minha vida inteira aqui sendo lixeira e morando com a minha mãe do que ir pra lá. Sério. Pelo menos aqui posso sempre contar com o mar.

Luiz Fernando ficou sem saber o que falar. Não esperava por aquela reação de Renata. Ficou irritado. Era uma oportunidade única, dessas que aparecem apenas uma vez na vida. Estava determinado a ir fazer a entrevista.

Foram embora sem se falar e Renata passou três dias sem ligar para ele. Luizinho também não ligava. A briga foi feia.

Depois de relutar muito, Renata cedeu e resolveu chamá-lo para sair. Combinaram de se encontrar no canal 3, na Concha Acústica, onde se conheceram. Sentaram em um banco mais uma vez, conversaram, Luizinho tentou explicar os seus motivos para a mudança. Renata continuava sem ceder. Firme.

Luiz Fernando tentou pensar em várias saídas, mas nada lhe vinha à cabeça. Manter o relacionamento à distância era impossível. Mal teria tempo para descer a serra. Os dois ficaram ali por um tempo sem dizer nada. Apenas abraçados admirando o pôr-do-sol e os navios que passavam ao longe. Era um pôr-do-sol lindíssimo, daqueles de cartão postal, com o céu alaranjado e o sol praticamente preto.

Luiz Fernando tomou uma decisão.

Renata, eu vou ficar.

O quê?

É isso mesmo. Eu vou ficar. Você tem razão. Seremos mais felizes aqui. Eu adoro a praia e não consigo respirar longe dela. Prefiro ficar aqui com você. Fui um idiota em acreditar que apenas um bom trabalho, grana tentadora e uma perspectiva de vida confortável seriam suficientes para mim. Preciso de muito mais que isso. E agora, neste momento, eu tenho isso.

Renata olhou fixamente para Luizinho. Não disse nada, apenas sorriu. E assim ficaram por muito tempo, enquanto a noite caia sobre a cidade.