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O dia em que Seu Arnaldo não morreu

A banca do Seu Arnaldo ficava a uma quadra de casa. E para um garoto apaixonado por revistinhas, como eu, aquilo era o paraíso. Na esquina da Vergueiro Steidel com o Canal 5, aquela velha banca abria de segunda a segunda, debaixo de chuva ou sol. Era lá que meu pai comprava o jornal aos domingos de manhã, com Seu Arnaldo, um velho bem magro e de bigode, que eu nunca soube se tinha cabelo ou era careca, pois usava sempre uma boina – dessas que as pessoas velhas usam.

Com 10 anos de idade eu já era um cliente tão fiel do Seu Arnaldo que pegava quase tudo fiado. Seu Arnaldo confiava tanto em mim que nem sequer anotava o preço das revistas que eu levava. Deixava que eu mesmo fizesse isso e acertasse com ele depois. Minha conta era sempre enorme, mas eu não errava nada. Comprava gibizinhos de super-heróis, revistas com as novidades sobre os meus desenhos favoritos e pacotinhos de figurinhas. Seu Arnaldo sempre sabia o que eu queria. Sabia os álbuns que eu colecionava – que provavelmente era o do Brasileirão daquele ano – e as revistas que eu estava esperando.

Certa noite, estava com alguns amigos jogando bafo no corredor do prédio, quando o pai de um deles chegou da rua.

- Vocês viram? O Seu Arnaldo morreu.

- Como assim?

- Morreu. Tem um aviso colado lá na banca.

Corremos para os buracos da parede do corredor, de onde podíamos ver a banca ao longe, e de fato havia um pedaço de papel colado na porta fechada.

- Porra. O Seu Arnaldo morreu.

- Não pode ser.

Cabisbaixos, andamos até a banca debaixo de uma chuva fina, que deixava a cena toda ainda mais dramática. Queríamos ver o aviso apenas por curiosidade mórbida. O que será que estaria escrito ali?

Cheguei perto e comecei a ler o pequeno aviso de papel. Não conseguia acreditar no que estava lendo. Li e reli várias vezes. Seu Arnaldo não tinha morrido. Quem morreu foi a sua mulher e por isso a banca estava fechada.

- Vocês viram isso? O Seu Arnaldo não morreu.

- Não morreu?

- É. Quem morreu foi a mulher dele.

Mas naquele momento, que provavelmente estava sendo luto para o Seu Arnaldo, não conseguimos nos conter de alegria. Nos abraçamos e saímos a cantar pelas ruas:

Seu Arnaldo não morreu/ Seu Arnaldo não morreu/ Seu Arnaldo não morreu.

Uma espécie de grito de guerra, celebrando a “não-morte” do nosso jornaleiro favorito. Mesmo debaixo de chuva, demos a volta no quarteirão inteiro cantando aquela espécie de marchinha.

Naquela noite dormimos tranquilos. Seu Arnaldo abriria a banca no dia seguinte.

O rei da tinta

Admirava o Rei da Tinta por tudo o que ele representava. O Rei da Tinta morava no sexto andar do prédio onde passei a minha infância, no Jaú. Tinha esse apelido porque em época de copa do mundo era o primeiro a agitar a pintura tradicional do trecho da rua que ficava bem em frente ao prédio. A pintura tradicional da rua acontecia de quatro em quatro anos, em ano de copa do mundo, em alguns lugares da cidade. O Jaú era um desses lugares.

Lembro bem da copa de 94, quando o Rei da Tinta organizou a pintura de um Senninha enorme que tomava a rua de ponta a ponta. Aquele foi o ano da morte do Senna e as homenagens para ele durante a copa foram muitas. Além do Senninha, havia um mascote da copa (um cachorro) gigante balançando uma bandeira do Brasil e uma dos Estados Unidos (onde foi aquela copa).
Era uma coisa bonita de se ver lá do alto. Gol do Brasil e aquela chuva de papel picado caindo sobre aqueles desenhos coloridos na rua.

Quando chegou a copa de 98 eu já era um pouco mais velho e esperava que eu – e os amigos da minha idade – pudesse ajudar o Rei da Tinta na sua empreitada daquele ano. Não demorou muito para que o Rei da Tinta logo estivesse tocando em todas as campainha do prédio para arrecadar dinheiro para a pintura daquela copa. Cada um colaborava como podia. Moedas, notas ou até mesmo pincéis, rolinhos e material de pintura. O ritual tradicional.

Quando chegou a noite da pintura, desci com os amigos para participar. A rua estava fechada com cavaletes arranjados pelo Rei da Tinta e seus amigos. Obviamente, não havia permissão alguma para fazer aquilo, mas eles faziam mesmo assim. Uma verdadeira bagunça, mais ou menos organizada e divertida. Os baldes de tinta espalhados pela calçada e os desenhos já marcados com giz na rua, indicando o que deveria ser pintado.

Era bonito ver a determinação do Rei da Tinta. Talvez ele ficasse assim por causa da rivalidade que rolava com o BNH, onde as pinturas na rua eram tão bem feitas que ficavam intocáveis até a copa seguinte. O Rei da Tinta queria deixar a pintura do Jaú daquele jeito também.

Caprichou no azul, vermelho e branco, cores da França, país sede da copa daquele ano. Riscou uma bela Torre Eiffel no chão e uma grande taça, representando a esperança do penta campeonato que poderia vir em 98. Eu e meus amigos resolvemos pegar alguns pincéis e pintar o meio-fio com as cores do Brasil. A pintura entrava madrugada adentro. De vez em quando alguma boa alma do prédio descia com alguns lanches para os pintores de rua, o que dava forças para todos seguirem em frente.

A pintura de 98 foi a mais bonita de todas. Estava bastante orgulhoso de ter ajudado o Rei da Tinta e de ele ter elogiado nosso trabalho. Já contava os dias para a próxima copa e quem sabe um dia poderia ser como o Rei da Tinta. Ir de porta em porta coletando dinheiro dos moradores para a pintura tradicional.

Alguns anos depois, o Rei da Tinta se mudou. Nós também nos mudamos. Mas a pintura daquela copa ficou no asfalto. Rumo ao penta. Brasil e França 98. Fez inveja às outras ruas.

Nove ponto nove

Mariana precisava ir ao banheiro e me deixou sozinho com Roberto no balcão daquele bar.

E aí? Que nota você dá? – ele me perguntou.

Para ela? Hmmm… sete ponto dois.

Tá louco!! Essa daí é nove!

Nove? Ah, você que acha que é nove…

Porra, maior delicinha a mina.

Se você acha, por que não fica com ela? Ela tá super afim de você.

Tu acha? Tá nada.

Tá sim. Eu garanto.

Ah, sei lá. Tem melhores aqui nesse bar… Tipo a Thais. Essa é nove ponto cinco.

Nem fodendo. É no máximo um seis ponto nove.

Porra, mó peitão. Nove ponto cinco eu joguei baixo ainda.

Tu que sabe.

E aquela mina que tu namorou? A Isabela?

Ah, essa é oito ponto cinco, vai…

Oito ponto cinco? Pô, tá bem então hein…

Ah, claro. Se eu namorei né. Não ia ser uma quatro ponto cinco qualquer.

É verdade. Tipo aquela quatro ponto dois do Diogo. Aquela não dá! Porra, como o cara namora uma mina dessas?

Pode crer.

E a Gaúcha aí? Essa pra mim é onze!

Porra, que mané onze. Mó meia boca a mina.

Tu é louco!! Essa mina é o maior tesão de Santos.

Ah, num fode né.

Quem é a melhor mina pra tu então?

A Rafaela, que eu era apaixonado, saca? Essa é nove ponto nove.

Nove ponto nove?!?!? Tá maluco. Então por que tu não casou com essa mina?

Porque ela não quis.

Ah…

Só faltava isso pra ela ser dez.

Califórnia Brasileira

Luiz Fernando estava animado para o show daquela tarde de domingo na Concha Acústica em frente ao canal 3. Tinha retornado recentemente para Santos, depois de ser mandado embora do trabalho que tinha em São Paulo. Deu mancada das grandes, xingou toda a classe de arquitetos publicamente e provavelmente não teria moral de ser contratado por algum escritório de arquitetura tão cedo. Por um lado estava abalado, mas por outro estava feliz de estar de volta à sua cidade. Vivia na capital apenas pela questão financeira e como trabalhava também aos sábados, raramente podia visitar o seu mar tão querido. Obviamente não estava tão contente em ter que voltar a morar com o pai, mas ainda era jovem e tinha a vida inteira pela frente.

Nenhum amigo quis sair naquela tarde e resolveu ir sozinho à Concha. Estava ansioso para ver o show do Garage Fuzz, banda que começava a se destacar na época. Santos ganhava a fama de Califórnia Brasileira pelo número enorme de bandas de hardcore que os skatistas e surfistas da cidade adoravam. Luiz Fernando botou a sua camisa do Ramones e foi em busca de novas amizades (afinal de contas, estava precisando neste período de readaptação à cidade).

O clima do show estava ótimo (a combinação sol + hardcore + praia + mar era um verdadeiro sonho) e Luiz Fernando acabou conhecendo uma garota ali. Seu nome era Renata e era lindíssima, uma verdadeira princesa do hardcore com seus piercings e tattoos.

Eu adoro Ramones – assim ela puxou papo com ele. E a conversa terminou em beijos intermináveis nos bancos da praia. Ficaram lá até escurecer. Os shows acabaram, todos foram pra casa e os dois continuavam lá. Conversavam sobre Ramones, Clash, Johnny Thunders, Fugazi, Garage Fuzz e todas as bandas em comum que curtiam.

Duas semanas depois estavam namorando.

Luiz Fernando era louco por ela. Buscava os CDs mais raros e as camisetas de bandas mais obscuras na loja do Fera para presenteá-la. Renata adorava os seus mimos. A cada dia que passava ela ficava mais apaixonada por Luizinho (como começou a chamá-lo). Como os dois estavam desempregados e vivendo com os pais, passavam as tardes surfando, fumando e ouvindo Nofx e Bikini Kill no quarto dele. Escreviam músicas juntos, assistiam a vídeos de skate, faziam planos para o futuro e nunca cansavam.

Algum tempo depois, Luiz Fernando conseguiu um trabalho como empacotador em um supermercado perto de sua casa. Parecia uma humilhação perto de seu antigo trabalho, que lhe pagava uma fortuna e dava (ou pelo menos ele achava que dava) estabilidade financeira. Mas ele não ligava. A mixaria que ganhava era suficiente para tomar uma cerveja nos fins de semana com Renata e seus amigos.

Renata também conseguiu um trabalho. Era uma espécie de guia no Orquidário. Não era difícil – a maior parte do tempo só precisava dar informações aos visitantes do parque, indicando onde os pavões costumavam passear e coisas do tipo. Assim como Luiz Fernando, ganhava pouco, mas era suficiente para também comprar presentinhos para ele.

Tudo ia bem na vida do casal até o dia em que Luiz Fernando recebeu um telefonema com uma proposta de emprego tentadora. A proposta vinha de uma empresa de São Paulo para a qual tinha enviado um currículo há alguns meses. Nem se lembrava mais disso. Um amigo de Luizinho que trabalhava na empresa havia feito a ligação. Dizia que necessitavam de alguém urgente. Ele precisava apenas ir fazer uma entrevista, mas sua contratação era praticamente certa. O dinheiro que receberia daria para sustentar Renata e mais 10 filhos (caso algum dia viessem a ter filhos). Único porém: Trocar a costa pela capital.

Naquela noite, Renata foi buscá-lo no supermercado às 10. Mal se abraçaram e ele já abriu o sorriso para contar a novidade. Estava tão animado com tudo que nem reparou na cara de sua namorada: um misto de tristeza e desesperança. Depois de contar tudo, um silêncio.

O que foi? – ele perguntou.

Eu não quero ir pra São Paulo.

Como assim?

Não quero.

Mas você ouviu o que eu disse? Nós vamos ter uma vida tranquila, sem precisar nos preocuparmos com grana. Poderemos ter um apartamento grande. Ter filhos. Ter um carro.

Eu não quero ter um carro pra ficar presa o dia inteiro naquele trânsito horrível.

A gente vai poder passear de metrô.

O metrô só tem viciados e traficantes.

Ir beber na rua Augusta.

Lá só tem bicha e cheirador.

Vamos poder ver os melhores shows de hardcore toda semana.

Mas não na Concha, pisando na areia e sentindo a brisa do mar.

Renata, não seja assim…

É a verdade! Não tem praia. Não dá. Prefiro passar a minha vida inteira aqui sendo lixeira e morando com a minha mãe do que ir pra lá. Sério. Pelo menos aqui posso sempre contar com o mar.

Luiz Fernando ficou sem saber o que falar. Não esperava por aquela reação de Renata. Ficou irritado. Era uma oportunidade única, dessas que aparecem apenas uma vez na vida. Estava determinado a ir fazer a entrevista.

Foram embora sem se falar e Renata passou três dias sem ligar para ele. Luizinho também não ligava. A briga foi feia.

Depois de relutar muito, Renata cedeu e resolveu chamá-lo para sair. Combinaram de se encontrar no canal 3, na Concha Acústica, onde se conheceram. Sentaram em um banco mais uma vez, conversaram, Luizinho tentou explicar os seus motivos para a mudança. Renata continuava sem ceder. Firme.

Luiz Fernando tentou pensar em várias saídas, mas nada lhe vinha à cabeça. Manter o relacionamento à distância era impossível. Mal teria tempo para descer a serra. Os dois ficaram ali por um tempo sem dizer nada. Apenas abraçados admirando o pôr-do-sol e os navios que passavam ao longe. Era um pôr-do-sol lindíssimo, daqueles de cartão postal, com o céu alaranjado e o sol praticamente preto.

Luiz Fernando tomou uma decisão.

Renata, eu vou ficar.

O quê?

É isso mesmo. Eu vou ficar. Você tem razão. Seremos mais felizes aqui. Eu adoro a praia e não consigo respirar longe dela. Prefiro ficar aqui com você. Fui um idiota em acreditar que apenas um bom trabalho, grana tentadora e uma perspectiva de vida confortável seriam suficientes para mim. Preciso de muito mais que isso. E agora, neste momento, eu tenho isso.

Renata olhou fixamente para Luizinho. Não disse nada, apenas sorriu. E assim ficaram por muito tempo, enquanto a noite caia sobre a cidade.

A Pipoqueira do Mansueto

Para Julian Campos

Reginaldo era torcedor fanático do Santos, mas tinha o São Vicente Atlético Clube como o seu segundo time do coração. Nunca gostou muito dessa história de “segundo time”, estava pouco se lixando para as outras equipes da baixada, como a Portuguesa Santista, o Jabaquara ou a AD Guarujá, mas para o São Vicente abria uma exceção. Amava a cidade conhecida como a primeira do Brasil e morava ao lado do Mansueto Pierotti – o estádio do time -, o que facilitava a sua torcida.

Além da simpatia pelo esquadrão calunga, Reginaldo tinha outro bom motivo para ir ao Mansueto sempre que possível. Era apaixonado pela vendedora de pipocas do estádio. Sempre dava um jeito de comprar um saquinho (por modestos dois reais) só para se fazer notar. Jogava conversa fora com ela e descobriu o seu nome (Silvia), que ela gostava de Exaltasamba e filmes românticos. Só não tinha coragem de chamá-la para sair.

Precisava de motivação. Ouvia dizer que um bom estímulo para os homens era a vitória do time. Como na história do jogador Pepe, que criou coragem para falar com a sua futura esposa depois do Santos ter goleado o Corinthians por 6 a 0.

No dia em que o Peixe venceu a Libertadores, Reginaldo estava inspirado, mas não tinha uma companheira ao seu lado para lhe proporcionar a noite do século.

Torcer para o Santos era fácil. Mas com o São Vicente a história era outra. E ele não tinha coragem de admitir para Silvia que o time do Mansueto ocupava apenas o segundo lugar no seu coração. Não queria arriscar estragar tudo dizendo a verdade.

Tudo mudou em um certo domingo, quando o São Vicente entrou em campo e goleou o Palestra por 5 a 0. A chuva de gols e a alegria que tomava conta do estádio, fez com que Reginaldo criasse a coragem futebolística necessária para convidar a sua querida para sair. Silvia topou na hora e os dois foram naquela mesma tarde passear pela praça da Biquinha, onde conversaram, deram muitas risadas e comeram maçã do amor. Crianças gritavam e mãe, pais, tios e avôs corriam atrás delas.

Sentados em um banquinho no meio da praça se beijaram pela primeira vez. Ficaram ali durante um tempo, mas a noite logo caiu. Fazia frio e eles resolveram ir para a casa de Silvia, onde poderiam ficar mais à vontade.

Tudo era alegria na cabeça de Reginaldo. O hino do São Vicente ecoava na sua cabeça. DA HOMENAGEM DE UM GRANDE ARTILHEIRO NASCEU… O ALVINEGRO VICENTINO PARA O FUTEBOL BRASILEIRO!!

Reginaldo sentia como se ele mesmo fosse o artilheiro da canção.

São Vicente, São Vicente. Amor, paixão e raça. Time valente que joga em qualquer praça. Aqui nasceu o Brasil. O maior celeiro de craques. São Vicente, São Vicente, São Vicente. Só joga futebol com arte….
Aquela música o inspirava. O lugar o inspirava. Queria casar com Silvia, ter filhos e criá-los ali, em São Vicente, a celula mater da nacionalidade, como dizia outro trecho do hino.

Chegaram, enfim, à casa de Silvia, no Parque Bitaru. Os beijos e amassos ficavam cada vez mais quentes, apesar do clima frio do inverno vicentino.

Reginaldo jogou Silvia na cama e começou a tirar a sua roupa. Puxou a sua calça e tirou o casaco. Depois outro casaco. E se livrando de tanta roupa, acabou descobrindo a camisa que ela usava por baixo de tudo. Era o manto do alvinegro mais famoso do mundo, o alvinegro praiano, o Santos. Descobriu que o São Vicente também era o segundo time de Silvia.

Reginaldo sorriu e seus olhos se encheram de esperança.

A neurótica da praia

Férias. Eu fazia uma caminhada à beira-mar em plena quinta-feira à tarde. Obviamente, poucas pessoas estavam na praia naquele horário. Alguns aposentados, poucos corredores (talvez também de férias) e uns mendigos. Sem eu perceber, uma figura se aproximou de mim. Era uma mulher vestida de maneira peculiar pro calor praiano (usava uma saia jeans, blusinha de alça, bolsa de couro e o cabelo pintado de laranja, trajes poucos comuns do santista típico na praia). Logo vi que era de fora.

Passava à minha frente e começava a andar mais devagar. Parava, abaixava, molhava as mãos na água, enquanto eu continuava a caminhar. Tentava se aproximar de uma maneira meio desajeitada. Até que chegou do meu lado e disse algo.

Quem mora aqui vive assim todo dia?

Oi? – perguntei, tirando o fone dos ouvidos, para poder escutá-la.

Quem mora aqui vive assim todo dia?

É né…

Queria eu viver assim.

Hmmm…

Ok. Ela estava tentando puxar papo comigo e eu apenas tentando fazer a minha meditação de andar pela beira do mar e me perder em pensamentos. Achei que tinha deixado clara a minha falta de vontade de papear com uma estranha – ainda mais uma que à primeira vista não parecia nada interessante. Mas aparentemente não estava tão claro assim.

Onde eu pego o ônibus para ir para a rodoviária?

Como?

Onde eu pego o ônibus para ir para a rodoviária?

Você tem que pegar do outro lado da avenida. Naquela direção. Qualquer um que esteja escrito “terminal”. São quase todos.

Ah, obrigada.

De nada.

Eu não gosto dos ônibus daqui. Eles são pequenos. Os de São Paulo são maiores.

Minha vontade era a de falar: “Então vá pegar seus ônibus em São Paulo e me deixe em paz!”. Mas disse apenas:

Sei.

Mas em São Paulo são mais cheios…

Sim. Sei como é. Morava lá até pouco tempo atrás.

Jura? Onde?

Barra Funda.

Ah, é longe de onde eu moro. Moro na zona sul.

Certo.

Puta que o pariu. Tudo o que eu queria era desfrutar daquele belo pôr-do-sol em Santos e aquela pessoa parecia estar disposta a não deixar. Ela se distanciou um pouco. Achei que estava livre de uma vez por todas. Mas não. Logo ela voltou, puxando mais papo.

E o que te traz à praia numa quinta-feira à tarde?

Eu estou de férias.

Vi que não tinha mais jeito e resolvi dar atenção. Não estava querendo ser grosso.

Ah é? E o que você faz?

Na verdade eu estou em transição. Estava trabalhando em São Paulo e agora voltei pra Santos. Estou trabalhando em uma loja aqui.

Ah, que interessante. Eu também trabalho em uma loja. Trabalho em uma pet shop. Por isso que estou aqui em Santos.

Você está em Santos porque você trabalha numa Pet Shop?

É. Mais ou menos. Eu trabalho numa das Pet Shops mais renomadas de São Paulo e algumas vezes por mês eu tenho que viajar para outras cidades para comprar alguns produtos.

Certo. Então você viaja bastante então…

Na verdade não. Eu venho mais pra Santos mesmo. E hoje como eu terminei o trabalho cedo e o dia estava tão bonito resolvi vir passear na praia.

Entendi.

Ai! Eu não gosto de pisar nisso. A praia daqui é muito suja né?

Se tem algo que me emputece de verdade é paulistano falando mal de Santos (geralmente da praia). Ué, se a praia é suja então fica em São Paulo e não vem pra cá encher o saco. Pois ficar com nojinho de algumas plantinhas na água é simplesmente ridículo. A minha paciência, que naquela tarde estava grande, começa a se acabar.

Um pouco. Mas é a melhor praia do mundo.

Você acha?

É. Nasci aqui. Não há lugar melhor para mim.

Ah sim, claro. Mas de qualquer jeito eu gosto de vir pra cá. É uma pena que pra mim fica difícil vir sempre. Com filhos e tudo mais.

Ah é? Você tem filhos?

Tenho sim. Um de 16 e um de 10.

Ah, que legal.

É. O de 16 tá dando muito trabalho agora. Quer sair com os amigos toda hora.

Nessa idade é normal.

É, mas eu amo ele. Tive muito nova. Com 15 anos eu já engravidei. Estou com 31 agora.

Parecia muito mais.

Bom, mas agora eu acho que ele vai ficar mais com o pai dele, então não terei mais esses problemas. Aliás, eu acabei de terminar o meu casamento.

Estava demorando pra começar a falar dos problemas com homens.

Ah é? Você era casada?

Sim. Olha aqui.

E me estendeu a mão, mostrando a aliança em seu dedo anular.

E como era isso?

Era bom. Mas assim, o meu marido era muito novo. Ele tinha quase 10 anos a menos que eu. Ele tem 21 agora. E acho que quando você é tão novo assim, você não toma as decisões certas.

Isso é verdade.

Tinha muitas coisas que ele queria fazer e eu não, sabe? Ele queria sair muito. Ir pra balada e eu já não tenho mais muita idade pra isso. E também eu gosto de outras coisas. Eu gosto de ler muito e ele não lê nada.

Ah é? Você gosta de ler?

Sim, eu leio muito. Estou com os livros que estou lendo aqui na bolsa, quer ver?

Quero.

E ela abriu a bolsa e tirou dois livros enormes de capas meio escuras e misteriosas. Eram livros de auto-ajuda.

Eu ainda estou começando os dois. Mas esse aqui parece muito bom.

Hmm. Interessante.

Por sorte o meu telefone tocou naquele instante.

Só um minuto.

Tá bem.

Enquanto eu conversava, ela continuava do meu lado. Prestando atenção.

Era minha namorada.

Ah é?

É. Ela tá no aeroporto. Indo pra Argentina. Vai passar o fim de semana lá.

Ah, que bom. Eu nunca viajei para fora. Deve ser bom

É bom sim…

Então, eu pego ônibus do outro lado da avenida, né?

Isso. Escrito “terminal”.

Tá bem. Desculpa qualquer coisa…

Que é isso.

Mas foi bom conversar.

É. Até.

Até.

Já estávamos no canal 7. A faixa de areia se acabava. Dei meia volta e observei ela se distanciando, indo na direção da avenida.

O maior time da terra

Para todos os santistas

Foi difícil. Assim como tudo que é muito bom tem que ser. Ao apito final do jogo entre Santos e Peñarol, do dia 22 de junho de 2011, a torcida do Peixe pôde finalmente comemorar aquilo que não comemorava há 48 anos, o título da Copa Libertadores da América. No Pacaembu, as pessoas ao meu redor choravam, sorriam, se abraçavam e logo depois estavam todas atônitas. Pareciam não acreditar no que tinha acabado de acontecer. Tudo bem que já estamos acostumados a grandes conquistas e nos últimos 10 anos comemoramos mais títulos do que a maioria dos clubes brasileiros. Mas a copa sul-americana é diferente. É um título que não vinha desde os tempos em que Pelé jogava.

Foi difícil para os torcedores. Acreditamos e sofremos a cada jogo. Perdemos a final para o Boca Juniors de forma lamentável em 2003, mas dessa vez o time era melhor e (por incrível que pareça) mais maduro e preparado. Esse ano estávamos confiantes por vários motivos. O Santos foi a grande sensação de 2010, trazendo uma geração de jogadores que só mesmo o próprio Santos teve igual (com Pelé, Coutinho e Pepe), na década de 60. Mais motivos: Temos o melhor jogador do mundo na atualidade – Neymar – e um técnico vencedor – Muricy Ramalho – que ainda não tinha esse campeonato em seu currículo. Também no elenco estavam vários jogadores que tinham deixado escapar o título em outras oportunidades: Elano e Léo (pelo Santos), Arouca (pelo Fluminense) e Durval (pelo Atlético-PR).

Lembro onde estava em cada partida da maravilhosa campanha do Santos. Estava no Chile, no estádio Monumental, na única derrota do Santos na competição, para o Colo-Colo, e não pude ir à Vila Belmiro no jogo de volta. Por motivos pessoais estava em São Paulo, assistindo em um bar – cuja principal atração era o “importantíssimo” jogo entre São Paulo e Santa Cruz pela Copa do Brasil – a vitória santista com direito à máscara de Neymar, expulsões e sufoco por precisar dos 3 pontos a qualquer custo.

Lembro dos sustos que foram as primeiras partidas. Um empate contra o Deportivo Táchira na Venezuela – assistido no Quitandinha, em São Paulo, com uma multidão de alvinegros desapontados, esperando show do Santástico logo na estreia. E outro empate contra o Cerro Porteño, dessa vez na Vila Belmiro – assistido na casa de um velho amigo, companheiro de cachaças ao longo de grande parte dessa Libertadores. Foi dureza. Estávamos quase eliminados e parecia que a única vez que tínhamos a oportunidade real de vencer esse campeonato – e jogando como Santos, ou seja, dando show e fazendo o futebol arte – iria por água abaixo.

Tudo mudou com a vinda de Muricy. Aquele Santos que dava espetáculo e vencia de 8, 9 e até 10 gols no ano passado amadurecia. Precisava se fechar. Um time que faz tantos gols está sempre jogando aberto (e consequentemente está vulnerável). O novo técnico conseguiu isso. E o Santos das goleadas de dois dígitos, como aquele dos anos 60, agora ganhava de meio a zero. E estava bom. Nas oitavas ganhamos do América do México de 1 a 0 e seguramos o 0 a 0 no jogo de volta (graças ao santo goleiro Rafael). Nas quartas aconteceu o mesmo contra o Once Caldas, da Colômbia. 1 a 0. 1 a 1. Vale lembrar que esses dois times foram “carrascos” do Santos em outras edições da Libertadores dessa década, nos eliminando em 2008 e 2004.

Inesquecível também foi a rodada das oitavas de final em que todos os times brasileiros da competição – exceto o Santos, lógico – foram inexplicavelmente eliminados. Internacional, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro (que muitos davam como favorito) deram adeus, deixando o alvinegro praiano como único representante do nosso país na Libertadores.

Para melhorar a situação, o avanço do Santos na competição coincidiu com as gravações de um curta-metragem que estou fazendo sobre o Peixe, algo que me deu a oportunidade de fazer novos amigos (que deixaram de ser apenas simples entrevistados) por conta de nossa paixão em comum. Assistimos juntos aos jogos finais, trocamos ideias sobre o que era ser criança e torcer para o Santos nos anos 90, época de muito sofrimento futebolístico. Vimos Pelé Eterno depois do jogo contra o Cerro Porteño, que nos classificou para a finalíssima. Já imaginávamos que estávamos prestes a comemorar aquele título que antes só tínhamos em preto-e-branco nos vídeos. A história estava, mais uma vez, sendo escrita na nossa frente.

- Imagina, nós vamos ver isso agora!

O nosso novo Pelé atende pelo nome de Neymar. Um ídolo de moicano, que não perdoa os adversários. Moleque que ama o Santos e bateu no peito dizendo que ficava no nosso time depois de receber proposta “irrecusável” do Chelsea da Inglaterra. Homem de personalidade e atual melhor do mundo, falta apenas a FIFA reconhecer, façanha que pretende conquistar jogando no Brasil. Esculacha dentro e fora de campo.

Tudo conspirou à favor da beleza desse título. Até porque nada no Santos é meia-boca. Tudo é histórico. O adversário da final seria o Peñarol, mesmo time que vencemos em 1962 para a primeira conquista da América.

Depois de ter chorado tanto com times sofríveis, vimos o Santos voltar a ser o gigante que sempre foi com a conquista do Brasileiro de 2002 e muitas outras que vieram depois. Como disse um amigo, uma geração inteira foi vingada na quarta-feira, 22/06/2011.

Durante muitos anos nossas maiores alegrias eram ver o Santos golear o Corinthians com aqueles gols sensacionais do Guga, ver o Giovanni destruir em campo e ver um título de Rio-São Paulo (97) em cima do Flamengo e um de Copa Conmebol (98) em cima do Rosario Central.

Tudo isso acabou naquele jogo diante de um Pacaembu lotado. Nunca mais seremos chamados de “viúvas de Pelé”. Sempre seremos o único time que parou uma guerra. O maior time da terra.

E o Peñarol? Vencemos mais uma vez. Foi difícil. Mas foi na bola.

Obrigado, Santos. Eu te amo.

Ciro Hamen é  jornalista e escreve crônicas sobre a cidade de Santos desde abril de 2008.

Ver o Santos em Santiago, final

Finalmente estava dentro do estádio para ver o meu Peixe jogar no Chile. Já ao lado de alguns torcedores do Santos – ainda que misturados com chilenos -, finalmente tive coragem de tirar a minha camisa de dentro da calça e vesti-la. Agora precisava ir ao que interessa: arranjar o ingresso.

Perguntei para os torcedores que estavam no portão se alguém tinha ingresso. Ninguém tinha. Precisei ir até a bilheteria para comprar. 12,000 pesos chilenos. Preço bem razoável para um jogo do torneio mais importante da América do Sul.

O estádio Monumental impressiona. Uma construção moderna misturada com uma bela vista da Cordilheira dos Andes ao fundo. Como todos os outros brasileiros, resolvi tirar algumas fotos de recordação. Um figura que não parava quieto fez questão de me emprestar a bandeira do Peixe para que eu saísse na foto segurando ela.

Vai lá! Vai lá! – ele dizia, me apontando o melhor lugar da arquibancada para aparecer na foto.

E lá estava eu, todo sorridente, camisa do Santos, bandeira na mão e as Cordilheiras surgindo por detrás da minha cabeça. Nos alto-falantes rolavam rocks dos anos 50 e o hino do Colo-Colo. Um grande placar exibia o distintivo do time de Santiago com o seu índio chileno. É, estávamos na casa do adversário.

Ainda faltava um pouco mais de uma hora para o início da partida. Matei o tempo conversando com alguns outros santistas que estavam por ali. A maioria tinha vindo apenas para ver o jogo – passar dois dias no Chile e ir embora.

A partida estava cercada de expectativas. O craque Paulo Henrique Ganso tinha acabado de voltar de longos seis meses longe dos gramados. Tinha jogado no sábado contra o Botafogo de Ribeirão Preto e foi decisivo na vitória do Peixe naquele jogo. Fez o passe para o primeiro gol e deixou o dele logo depois. Só jogou o segundo tempo, mas fez toda a diferença.

Contra o Colo-Colo ele já começaria jogando. Camisa 10. Titular absoluto.

O Santos também precisava da vitória. Vinha de dois empates na Libertadores. Um contra o fraquíssimo Deportivo Táchira. Zero a zero na Venezuela. O outro contra o Cerro Porteño na Vila Belmiro, graças a um pênalti cometido por Edu Dracena no último minuto de jogo. Dois resultados amarguíssimos pra quem almejava ser o favorito na competição. Agora era uma boa hora para começar a mudar as coisas.

O estádio começa a encher e a torcida santista, que está em bom número (cerca de 800 pessoas), começa a ficar encurralada com tantos chilenos no Monumental. Alguns membros da Torcida Jovem são colocados na parte de trás do gol, espaço sempre destinado à torcida visitante. Decido ficar onde está a maioria dos brasileiros. O único problema é que estávamos juntos com a torcida colo-colina.

Alguns torcedores santistas ficam preocupados com aquela situação, mas a polícia estava bem atrás. Estávamos juntos com a parte mais “família” da torcida chilena.

9:50. O juiz apita. Início de jogo. Santos começa rápido. Afobado. Jogando como quem precisa de um bom resultado. Logo no começo do jogo Elano tem uma boa bola perto da área. Mas não passa. Fica com ela no pé. Alguém grita “Passa a bola, Elano”. Mas logo percebi o que ele queria fazer. Prender a bola e cavar uma falta bem ali na intermediária. E foi o que aconteceu.

Falta marcada e o próprio Elano vai bater. Ele sabia o que estava fazendo desde o momento em que segurou a bola e foi derrubado. Senti o gol chegando. Com propriedade, o craque toma distância, corre, chuta e …

GOOOOOOOOOOOL!!!!!!!

Chilenos não acreditam. Festa santista em Santiago. A torcida do alvi-negro praiano comemora, grita, provoca.

Sou alvi-negro da Vila Belmiro, o Santos vive no meu coração. A multidão canta loucamente. Finalmente uma vitória na Libertadores. E fora de casa. É o motivo de todo meu riso, de minha lágrimas e emoção. Os colo-colinos olham para nós cheios de frustração. Sua bandeira no mastro é a história de um passado, presente só de glórias. O cara da bandeira estava completamente maluco. Nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter.

Mas mal sabia a torcida santista que a alegria duraria pouco. Mesmo em desvantagem no placar, os chilenos não se abateram. Continuavam cantando e incentivando o time. Incendiavam o estádio com bandeiras incansáveis, sinalizadores e um boneco gigante.

Colo-Colo parte para cima e… Gol. Dessa vez a festa é chilena. Os colo-colinos conseguem empatar a partida. Os torcedores provocam os santistas. Fazem gestos obscenos. Fazem gestos engraçados.

Poucos minutos passam e… Gol do Colo-Colo. Mais provocação chilena. Outros minutos se vão e mais um gol do Colo-Colo. 3 a 1 para eles. O que parecia uma vitória fácil virou um pesadelo em um período de pouco mais de 15 minutos.

Intervalo. Os jogadores vão para o vestiário. O hino do Colo-Colo e os rocks dos anos 50 voltam. A torcida do Colo-Colo faz festa. 3 a 1 é um placar bem confortável. A torcida do Santos não desanima. Afinal, estamos no Chile. O time pode até não ganhar, mas estamos em um lugar lindíssimo, vendo um dos melhores times do mundo jogar e isso é o que importa.

A partida recomeça. Ataque do Colo-Colo e… NA TRAVE!!! Um gol do time chileno neste momento mataria de vez o jogo. A sensação de alívio foi grande e a sequência do lance foi melhor ainda. Neymar partiu pra cima da zaga colo-colina e fez um golaço. Histórico. O seu primeiro em Libertadores.

3 a 2. Menos pior.

A partir daí o jogo foi lá e cá. Com muitas chances desperdiçadas dos dois lados. Sufoco, sufoco e mais sufoco.

Até que o juíz apita o fim de jogo. Era a única derrota do Santos na Libertadores. Agora nós precisaríamos ganhar todas as partidas para seguir com chances no torneio.

Tristeza santista. Alegria chilena.

A torcida do Santos precisa esperar até que todos os chilenos saiam. Eles vão embora tirando sarro, mas os santistas não deixam barato. O cara que me emprestou a bandeira a estende e aponta para as estrelas no símbolo do Peixe.

- Yo, duas! Usted, nenhuma!

Depois de quase todos terem ido embora, um pequeno chileno se aproxima de mim. Ele traz nas mãos um casaco branco do Colo-Colo e o estende na minha frente. Não diz nada. A princípio penso que ele está tirando um sarro, mas os santistas ao meu lado tentam explicar que ele está querendo trocar pela minha camisa do Santos, assim como fazem os jogadores ao final da partida. Começo a falar com ele e peço para ver o casaco. Finjo analisar o jaleco e digo que não quero, pois é muito feio. Jamais trocaria a minha camisa listrada do alvi-negro praiano por uma do Colo-Colo. Talvez se o resultado do jogo tivesse sido outro…

O garoto se vai. Some na multidão tentando buscar outro santista para fazer a troca. Enquanto eu procuro alguém disposto a dividir uma carona de volta à Plaza de Armas, onde ficava o meu albergue.

Um casal meio cinquentão ao meu lado veio puxar papo e descobri que estavam indo para o centro. Perfeito. Eles moravam em Curitiba, mas o cara era de Santos. Estavam rodando o Chile de carro e pareciam ser gente boa. Topei rachar um táxi com eles.

Logo me identifiquei, pois assim como eu, estavam passeando por aquele belo país e deram sorte do time do coração estar jogando no mesmo período. Me contam sobre Valparaiso e Vina del Mar, lugares que eu deveria visitar.

Ramalho (era o nome do sujeito) me pergunta, quando estamos lá fora:

Você fala espanhol?

Consigo enrolar.

Então é bom começar a praticar. Porque olha aí…

E ele aponta para a multidão de colo-colinos que teremos que atravessar. Prefiro ficar quieto. Ele e a mulher também.

Os ônibus que passam estão lotados. Torcedores se penduram pelas portas que vão abertas. Sem condições. Seríamos assassinados lá dentro.

Os táxis não param. Provavelmente achando que somos mais um bando de baderneiros do Colo-Colo.

Vamos para um local razoavelmente longe do estádio. Carros passam com dizerem pichados nas janelas traseiras: “Piñera miente”. Começo a me apaixonar por aquele país.

Um táxi finalmente pára. O taxista é simpático. Ao modo chileno. Sério. Mas falante.

Diz que temos sorte de o Colo-Colo ter vencido, pois senão eles estariam malucos quebrando tudo. Ele não tem time. Não gosta de futebol. E muito menos do Colo-Colo. Diz que os torcedores fazem assaltos entre si em dias de jogo. Às vezes parece que exagera.

Depois pergunta se sentimos os terremotos durante o dia. Houveram quatro e até o Neymar sentiu, pois postou no seu twitter: “medo”. O taxista começa a falar como os terremotos são terríveis e lembra onde estava no devastador de 2009. Conta que viu a rua subir e descer na frente dele.

Eu não senti nada. Talvez pela emoção do jogo. Talvez pela emoção de estar naquele país tão bonito. Tinha a certeza de que no Brasil daríamos o troco no Colo-Colo e essa derrota não abalaria a trajetória na Libertadores.

O pior seria aguentar a gozação dos colo-colinos do albergue na manhã seguinte.

Ver o Santos em Santiago, parte 2

À primeira vista Santiago me pareceu bem parecida com São Paulo. Muitos prédios, casinhas pobres e comércio nas ruas. Pensei que não gostaria, mas eu mal imaginava que pouco depois me apaixonaria pela cidade. Havia muitas semelhanças com a capital paulista, mas também muitas diferenças. O povo chileno. Sério, intenso. Bem diferente dos argentinos gritadores. Além disso também tem a Cordilheira dos Andes, uma das maiores belezas naturais do mundo decorando toda a paisagem da cidade e ponto de referência para os chilenos. Mais ou menos parecido com a maneira que os santistas se guiam pela praia.

Meu primeiro contato com chilenos foi no albergue onde ficaria hospedado nos próximos dias. Um casal de recepcionistas me atendeu com muita simpatia. Simpatia que, lógico, ficou ainda maior quando disse que era brasileiro. O rapaz era mais sério. Tinha tatuagens, parecia que curtia rock. A garota era mais falante. Expansiva. Quando eu disse que tinha chegado naquele dia justamente para assistir à partida entre Santos e Colo-Colo ela não parou mais de falar.

O Colo-Colo vai ganhar de quanto hoje?

Começando a colocar meu espanhol em prática eu tentava rebater as piadinhas da melhor maneira que conseguia.

Nós temos Neymar. E vocês têm quem?

Logo na recepção havia um cabide com as camisas de alguns times para vender. Quase todas eram do Colo-Colo. Havia apenas uma da Universidad Católica.

Não quer comprar uma camisa do Colo-Colo? Está bem barata. Ainda dá tempo hein.

Não!

Mesmo tendo acabado de chegar, já podia perceber que o albergue ficava em um ponto privilegiado da cidade. No último andar de um edifício antigo tinha uma vista maravilhosa para a Plaza de Armas, principal praça da cidade. Tudo ficava ainda mais bonito com a onipresente cordilheira.

A tarde estava bela e ensolarada, mas eu ainda tinha coisas para fazer e queria chegar cedo no estádio pois nem ingresso tinha ainda. Precisava ligar para o Brasil também para saber como terminou a história do meu irmão e se ele conseguiu pegar um voo mais tarde.

Perguntei pro sujeito da recepção qual era a maneira mais fácil de chegar no estádio Monumental e onde tinha um telefone público. Precisava simplesmente pegar um metrô da Plaza de Armas até Pedrero, onde eu sairia na porta do estádio. O telefone público ficava na própria estação.

Coloquei uma camisa branca e enfiei a do Santos dentro da calça, sabendo que ia ter que passar uma multidão de colo-colinos insanos.

Telefonei para o Brasil e consegui falar com o meu pai. Obviamente, estava muito puto com a irresponsabilidade do meu irmão. Ele não conseguiu achar a carteira a tempo e não viria para o jogo. Só depois conseguiu achá-la. Estava no carro do amigo com quem bebeu na noite anterior, mas já era tarde demais. Eu iria para o jogo sozinho.

Depois de uma rápida pesquisa na internet sobre a localização do hotel onde estava a delegação santista, acabei desistindo da ideia de ir até lá conseguir os ingressos. Segundo o Google Maps, eu estava a 50 minutos de distância – de carro – do lugar. Desisti. O negócio era ir ao estádio e tentar comprar na porta mesmo.

No metrô fiquei impressionado. Em plena hora do rush (cerca de seis e meia), os trens lotados e um silêncio absoluto. Fiquei assustado. A atitude chilena certamente era diferente. Quietos, educados. Tudo o que eu ouvia era um “permiso, permiso” quando alguém queria sair. Mesmo com a estação Pedrero se aproximando e mais torcedores do Colo-Colo entrando o silêncio permanecia. E eu checava se minha camisa estava bem segura dentro da calça.

Pedrero. Desci do trem para buscar o estádio e realmente não era difícil de achá-lo. Milhares de colo-colinos com cara de poucos amigos enchiam a estação de metrô.

Tentando agir com naturalidade, passei por eles e por vários vendedores de camisas e bandeiras do time chileno.

Completamente sozinho, tentava pensar em uma maneira de achar a entrada da torcida visitante sem ser notado como brasileiro. Sabia que – curiosamente – o nome da entrada era Oceano, mas não fazia a mínima ideia de como chegar lá. Sabia também que caso perguntasse pra alguém onde ficava essa parte do estádio David Arellano seria identificado como santista, o que não pegaria bem. Preferi não arriscar e tentar achar o portão por conta própria.

Fui burro também de não ter anotado o telefone dos torcedores que conheci no avião. Me arrependi de não ter combinado de encontrá-los em algum lugar. Agora precisava encarar o desafio sozinho.

Primeiro portão: setor Sul. Apenas colo-colinos. Não era o meu lugar. Continuei a minha caminhada.

O problema é que o Monumental fica em uma praça enorme, bem maior do que as dimensões do estádio. Seguindo reto eu continuava na praça e deixava o estádio para trás. Precisaria dar uma volta imensa para retornar. Mas não dei meia-volta. Segui. Tudo para não parecer perdido.

Enquanto isso, alguns torcedores do Colo-Colo passavam e eu checava para ver se a minha camisa do Santos estava bem segura dentro da minha calça. Alguns tinham aspecto sinistro e eu pensava “caralho, onde fui me meter?”. Me sentia um pouco como um espião no meio de um campo inimigo. Alguém que poderia ser descoberto a qualquer momento.

Depois de dar a volta completa na praça, passei pelo setor Cordilheira, pelo setor Norte e só então percebi que as entradas levavam os nomes das direções pelas quais os chilenos se guiavam. Torci para que a entrada Oceano fosse a próxima.

E logo avistei a enorme placa: OCEANO RAPA-NUI. Estava no lugar certo. Um pequeno grupo de sujeitos com casacos brancos, escrito Torcida Jovem, se amontoava ali. Fui rapidamente na direção dos companheiros torcedores.

Eu estava salvo.

Ver o Santos em Santiago, parte 1

A viagem começou errada. Confusa. Estranha. No dia anterior meu irmão saiu com os amigos, bebeu demais e quase perdeu o ônibus translado que nos levaria de Santos para o aeroporto de São Paulo às 4 horas da manhã. Quando chegou em casa, enfiou tudo rapidamente na mochila e saiu. Conseguimos chegar a tempo.

No aeroporto, muitos santistas. Alguns uniformizados, outros à paisana, como um casal que veio falar conosco, perguntando se já tínhamos ingressos. Ainda não. O plano era comprar na porta do estádio do Colo-Colo mesmo ou com alguém da delegação do Santos no hotel chileno.

Vocês também vão pro Chile? – a pergunta era comum no aeroporto.

Clima de expectativa por conta de um Peixe que assombrou a todos em 2010 com a aparição da dupla Neymar e Ganso. Placares como 10 a 0, 9 a 1 e 8 a 0 viraram rotina. Chapéus nos adversários, dribles espetaculares e gols marcantes mostrou ao mundo um futebol que não se via desde os tempos de Pelé, Coutinho e cia – por coincidência ou não, também do Santos. Lembraram a todos que o futebol para o alvi-negro praiano não é simplesmente um esporte, é arte.

Ver um jogo desse Santos no estádio sempre foi um deleite. Ver um jogo desse Santos fora do Brasil, com chances reais de ganhar um título importante como a Libertadores, era um sonho – cogitado desde que o time garantiu a sua vaga no torneio sul-americano, quando ganhou a Copa do Brasil. Mesmo com a ideia na cabeça, tornar isso realidade parecia difícil por falta de tempo e dinheiro. Mas por obra do destino consegui uma viagem de duas semanas pro Chile e para ver o jogo do Peixão só era preciso antecipar um pouco a data do voo.

Feito isso, lá estava eu no aeroporto de São Paulo no dia 16 de março com tantos outros santistas que (em sua maioria) fariam um simples bate-volta – assistiriam ao jogo e voltariam no dia seguinte.

O Santos vai jogar com quem? – perguntava o atendente careca uruguaio na fila do check-in (faria uma escala em Montevidéu).

Colo-Colo.

Ah, que bom. Libertadores.

Isso.

Enquanto isso, mostrava meus documentos para o careca, que carimbava as passagens e tratava da burocracia típica de aeroporto. Já meu irmão… buscava seus documentos na mochila.

Não tô achando o RG.

Não acredito. Procura direito.

Não tá aqui.

Merda.

E agora?

Porra, não sei. Não vão deixar embarcar sem documento de jeito nenhum.

Saímos da fila e ele continuou procurando. Despejou todo o conteúdo na mochila no chão do aeroporto. Cuecas, camisetas, shorts e nada da carteira com o RG. Fui falar com uma atendente.

Existe algum jeito de embarcar sem documento?

Sem documento?

É. Meu irmão esqueceu o RG. Ele está sem a carteira.

Que horas é o voo?

9:15.

Se você conseguir buscar até 8:15 tudo bem.

Não dá tempo. Teria que ir buscar ou pedir pra alguém trazer lá de Santos.

É. Aí fica difícil.

Não há nenhum jeito mesmo?

Ela suspirou.

Olha… Talvez. Mas não conte pra ninguém que eu te disse isso. Vai na polícia federal e pede uma segunda via. Diz que perdeu e não sabe onde está.

Dá certo?

Olha, é a única solução que consigo pensar no momento. Não custa tentar.

Peguei meu irmão e fomos correndo até o escritório da polícia federal. Explicamos a situação e pediram para que ele preenchesse um formulário. Um papel com os dados sobre o meu irmão e um carimbo da polícia serviria como segunda via.

Voltamos ao guichê da companhia aérea.

Vai lá enquanto eu vou no banheiro – pedi a ele.

Respirei aliviado. A situação resolvido. Podia fazer xixi em paz antes de embarcar.

Saí do banheiro e fui encontrar o meu irmão. Ele parecia desolado. A tal segunda via da polícia federal só é aceita em voos domésticos.

Não havia mais salvação.

O único jeito era ir até o balcão e tentar marcar um voo para mais tarde naquele mesmo dia. Foi o que fizemos.

Expliquei toda a situação novamente (ugh!) para a velhinha do balcão.

O seu voo é às 9:15? – ela perguntou.

Sim.

Você está atrasado.

Era verdade. Meu relógio já marcava 8:16. Um minuto já havia se passado do horário de fechamento do meu embarque.

Bom, vou lá. Se você conseguir nos encontramos no estádio. Chegando em Santiago eu ligo para saber o que aconteceu.

Tá bom.

Era isso. Agora estava sozinho. Corri até o portão de embarque e consegui entrar a tempo.

Revista. Tirar o relógio. Tirar o celular. Tirar o óculos escuro. Tirar a carteira. Tirar o cinto. Toda aquela merda.

No avião peguei um lugar ao lado de um casal que fazia parte da Torcida Jovem. Os dois estavam com um pessoal da uniformizada que eu já tinha visto no aeroporto.

Também estão indo pro Chile? (não consegui encontrar outra maneira de puxar assunto).

Tamo, né.

E vocês já tem ingresso pro jogo?

Não. A gente vai pegar lá mesmo com uns conhecidos.

Ah, entendi.

E o seu amigo? Não conseguiu embarcar?

Putz, é o meu irmão. Não conseguiu, cara. (e expliquei toda a história novamente…)

É. Eu vi ele lá no aeroporto. Estava com uma cara de choro.

Pois é. Ele tava louco pra ir também.

De onde vocês são?

Somos de Santos mesmo. E vocês?

De São Bernardo.

Legal, e vocês já foram ver jogo do Santos fora antes?

Fora do país não. O mais longe foi pra Salvador no ano passado. Pra ver a final da Copa do Brasil.

Ah, lógico.

Sempre dá pra fazer um esforcinho pelo Santos, né. Dessa vez eu tive que dar uma desculpa no trabalho.

Pela primeira vez a sua simpática namorada/esposa entrava na conversa:

Ele pingou esse negócio no olho que deixa bem vermelho. Aí fingiu que tava com conjuntivite pra pegar dois dias de dispensa. Vamos hoje e voltamos amanhã.

O orgulho que ela parecia ter dele ao me contar essa história me deixou levemente emocionado com o amor daquele casal e o amor deles pelo Santos.

E ninguém ficou desconfiado de você pegar dispensa justo em dia de jogo importante do Santos?

Ah, lá no trampo todo mundo é santista. Eles sabem. Só o chefe que não.

Hahahahaha.

E assim foi o resto do voo. Tirei fotos do casal junto no avião. Peguei caneta emprestada pra preencher mais burocracia. E trocamos muitas ideias sobre o Santos.

Paramos em Montevidéu. A Jovem fazia a festa na pista de voo. Parava para tirar fotos e conversavam animadamente e confiantes. Era hora de embarcar para o Chile.

Neste voo não estava mais ao lado do casal. Contemplei a paisagem da janela silenciosamente. Em mais ou menos uma hora começamos a avistar umas montanhas. Aquilo era… a Cordilheira dos Andes. Sem dúvida uma das coisas mais bonitas que já vi na vida. Um belo espetáculo anunciando o difícil jogo que viria em seguida. Aterrizamos.

Finalmente estava em Santiago.

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